!! A ponte entre o disco mais conhecido e o mais técnico ou: Led Zeppelin Houses Of Holly!! Por Rod Castro!

3 de dez de 2008

Em outubro de 1998, após chegar da escola, vi minha edição de Showbizz jogada do lado de dentro da minha casa. A capa: 30 anos de Led Zeppelin. Pestanejei na hora: quando não era o Renato Russo na capa – as viúvas do cantor transformaram a revista numa espécie de homenagem constante – era uma banda das antigas. E como ficavam os meus gostos na época?

Enfim, ainda enraivecido pela capa, acabei fazendo o que nunca fiz, na minha carreira de leitor de revistas “culturais”: comecei pela matéria principal. Em vez de ler e ficar com o sentimento de ter me livrado de algo enorme e desnecessário, a experiência me fez tão bem, que li e reli a matéria dezenas de vezes ainda naquele mês.

E como aquela banda era e é tão importante para o rock – principalmente o pesado – a gravadora, Warner, entregou de presente para os fãs do mundo todo, uma reedição de todos os CDs do Zeppelin de chumbo. Todos remasterizados e com o selo de 30 anos da criação da banda.

Naquela mesma semana, me vi em uma loja do ramo de CDs, ao lado da minha tia – que patrocinou centenas de discos para mim – e me arrisquei a comprar somente um disco. Afinal, se fosse tudo aquilo mesmo, economizava dinheiro e comprava o restante. O escolhido da vez era “Houses Of Holy” o disco entre o adorado “Led Zeppelin IV” e a obra-prima “Physical Graffiti”.

E que maneira mais interessante de se falar da minha banda favorita de todos os tempos, do que escrever algo sobre esse excelente disco que foi lançado há 35 anos? Aqui começa a experiência:

“Led Zeppelin – Houses Of Holy”

1 – “The Song Remains The Same”: É impossível fazer uma coletânea com as 10 melhores músicas do Led e não incluir esse torpedo de poder sônico que se chama “The Song Remains the Same”. Como se fosse um resumo do que os ingleses podiam fazer, a canção mostra todo o potencial do quarteto: um guitarrista extravagante, dono de riffs criativos, um baixista animalescamente ritmado, um baterista pesado e preciso, e um vocalista que faz o que quer e na cadencia que desejava. Clássica.

2 – “The Rain Song”: Logo na segunda música você sente que a banda era altamente original e ao mesmo tempo “se garantia”: como se faz uma segunda música totalmente inversa à primeira canção? Serena, praticamente sem peso – tirando seu final - com violinos e teclado moogie e um vocalista saudosista. Essa era a banda mais pesada de sua época? Sim e isso é rock, atitude.

3 – “Over The Hills and Far Away”: Vez por outra o sangue celta e a ascendência bárbara da banda tomava conta do som e resultava em canções que nasceram prontas para figurarem em trilhas sonoras de épicos do estilo de cinema “capa e espada”. Essa é mais uma. E toma-lhe violão com guitarra riffada e bateria ritmada.

4 – “The Crudge”: Se “Songs Remains The Same” era a clássica, essa era a resposta de uma banda de rock pesado aos panacas que achavam que eles deveriam se limitar a tocar mais do mesmo em todos os seus discos. Aqui não. Assim sendo: bata o pezinho e jure que está ouvindo uma típica música do mestre James Brown. Funk de verdade e sem direita a “batidão”.

5 – “Dancing Days”: Mas cadê o peso? Como assim? Há algo mais pesado para um homem do que um relacionamento em que ele se esforça e sempre dá algo errado? Aqui está o peso de uma relação em que um rapaz tenta de tudo para ficar com sua amada e seu esforço não dá em nada.

Com direito a viradas e pegadas marcantes na bateria, vocal desleixado e um dos melhores solos rápidos do mestre Jimmy Page – já no finalzinho. “You Know It’s Allright”.

6 – “D’Yer Mak’er”: Lembra da atitude que falei em “The Crudge”? Aqui ela está de volta, a banda investe de forma precisa em um dos reages mais conhecidos do planeta. Mas ainda assim com as marcas registradas da banda: bateria precisa e batida pesada, guitarrista inventivo, baixista estraçalhando e “Oh, oh,oh,oh,ohhh” de Robert Plant propositalmente desleixados.

7 – “No Quarter”: O Vocoder podia até mesmo ser conhecido no mundo da música, mas aqui ele faz um estrago proposital em determinados momentos na voz de Plant. O órgão é transcendental, a bateria e a guitarra apenas compõem uma das músicas mais experimentais da banda. E porque não dizer, até mesmo soturna? Ainda mais com sua letra...

8 – “The Ocean”: Meu Zeppelin preferido é Bonham, o baterista que a minha professora de religião adorava sempre repetir: a Besta. Além de ser um dos melhores bateristas do mundo, Bonzo se arriscava, fazia o que não devia e aprova está aqui em “The Ocean”, além de puxar com comandos vocais a banda ele castiga a pele de sua batera e os pratos com potência ensurdecedora em momentos-chave – e para não faltar detalhes: um dos melhores riffs/solos de Jimmy com direito a gemidos de Plant.

Clássico é assim que se chama um dos melhores discos de rock e que sempre não teve todo o respeito que deveria ter. E sim, a canção permanecera a mesma.

!!Onde havíamos parado? Ou...: “Bloc Party – Intimacy”!! por Rod Castro!!

1 de dez de 2008

Digamos que você faça do seu primeiro disco uma verdadeira obra-prima do rock moderno. Em um momento tão interessante, senão até mesmo único hoje em dia, o que você faria em seu segundo trabalho?

Muitos ouviriam os “fãs”, outros tentariam firmar sua fórmula – algo que eu acho mais correto, afinal você é um novato que acertou uma verve e é bom provar que ela é sua, somente sua – e alguns poucos se arriscariam a criar algo tão novo quanto foi o seu primeiro disco.

O Bloc Party em 2007 resolveu apostar na última afirmativa. E “Another Weekend In The City” é um disco para ser deixado de lado. Abaixo de tudo o que a banda poderia fazer. O espanto causado nos ouvintes foi tamanho, que conheço gente, que me apresentou o Bloc, que ao ouvir
“Another..” retrucou dizendo que aquilo não eram eles nunca!

Tá certo, não há possibilidade de se criar um novo “Silent Alarm”, mas há sim como fazer algo tão inusitado/criativo em um estúdio. Nem que seja mais moderninho, descolado e até mesmo mais rock – até porque rock não é somente som, mas definitivamente passa pela atitude.

É com tudo isso em mente que o Bloc Party lança seu novo disco: “Intimacy”. Um disco moderno, com batidas ao estilo “Chemical Brothers” e muita guitarra, bateria e vocal diferenciado – o verdadeiro ás na manga da banda.

“Ares” e “Mercury” são o diferente. Começar um disco com duas canções que parecem ter sido mixadas, mas na verdade foram feitas – gravadas – para que o ouvinte realmente pensasse que foi sampleada é uma grande sacada, ao mesmo tempo em que a banda mostra que é muito mais do que aparentava. E vou ser mais claro agora: “Mercury” é tudo o que uma banda que se julga moderna quer fazer e o que Kanye West tanto persegue.

“Halo” é a cereja de todo o bolo. É Bloc em essência: guitarras rápidas, sendo que uma faz um solo, baixo preciso e eletrificado e uma bateria rápida e precisa. Para completar a fórmula:
vocalista cantando displicente e ao mesmo tempo saudosista. Uma das melhores do ano.

“Biko” é o momento político – algo bem freqüente no primeiro disco. Lenta e com alguns elementos eletrônicos para continuar no diferente. “Signs” e “Zepherus”: a primeira emula uma canção do Radiohead (ou seria do Thom Yorke?). E ambas seguem lentas em cima de uma base com efeitos ao estilo Massive de se fazer música.

“Trojan Horse” e “One Month Off”, seguem o estilo do disco: bases ritmadas, bateria em caixa, guitarra em riffs, homenagem a canções politizadas – como “Spanish Guittar” do The Clash – vocal com efeito “reverb” em momentos chave. Seria o novo Bloc Party? Se for, vai bem!

“Better Than Heaven” e “Ion Square”, são canções de um Depeche Mode sem o vocal grave de Dave Graham. Com direito a solinhos de piano. Muito bom. Repito, se o Bloc rumar para esse estilo de fazer música não terá ninguém com nível, a não ser os jurássicos e que inventaram o estilo: Depeche e New Order por exemplo.

Moderno? Ousado? Diferente? Rock? Discão? Perguntas com uma só resposta: sim! Nota 8,5.

E um viva pela volta do Bloc Party!

27 de nov de 2008


Dois bons motivos pros marmanjos assistirem ao novo Bond: a inglesa Gemma Anterton, que será a princesa do filme que adapta o clássico vídeo game “Príncipe da Pérsia” e a russa Olga Kurylenko que também esteve em “Hitman” e é atriz principal em “Max Payne”.

!! O Quanto de sola foi gasto pra fazer esse filme?... ou: “007 - Quantum of Solace”!! por Rod Castro!


“Tem que provar pra saber se gosta filho...”. Com certeza em algum momento de sua vida essas palavras foram ditas por um parente próximo, quando você teimava em não experimentar um alimento com cara esquisita.

E qual relação essa afirmativa paterna tem a ver com um filme ou até mesmo o cinema? Simples: quantos filmes você não assistiu porque não gostou do pôster, do estilo de filme ou até mesmo por uma combinação de nomes envolvidos na produção da película? Dezenas, senão centenas, não?

Recentemente o excelente ator Daniel Craig foi a maior vítima dessa máxima de “não provou e não gostou” do cinema. Que ele é feio – apesar da mulherada que assistiu ao primeiro trabalho do ator sob a encarnação de Bond ter feito cara feia antes de ver o filme e depois tê-lo achado com cara de “macho” – ninguém discuti, mas que a sua “excêntrica” beleza é inversamente proporcional a sua capacidade de atuação, isso é provado e comprovado a cada trabalho feito.
E se em “Cassino Royale” Daniel fazia você esquecer Connery, Moore, Dalton e até mesmo Brosnam. E melhor: fazia você acreditar que aquele ser de fantasia pode existir e estar pulando atrás de malfeitores pelo mundo. Em “Quantum Of Solace” novas camadas de realidade são acrescentadas a nova mítica do personagem: vingativo, mais frio, concentrado e ainda assim humano.
Nessa nova aventura descobrimos o que ocorre logo após “Cassino”. Bond vai atrás dos responsáveis pela morte de sua amada Vésper. Mesmo que para isso desobedeça regras – M se pudesse matá-lo não hesitaria em fazê-lo – se transforme em um assassino de provas – a pancadaria está mais rápida e mortal – e deixe até de lado algumas boas Bond Girls.

Tudo bem que o vilão não é tão melhor e nem os diálogos sejam tão apetitosos como em “Cassino”, mas a pancadaria e a ação são elementos constantes do início ao fim do tempo, algo que não se via em um filme do Bond a dezenas de anos.

E se você souber que o diretor do filme é o excelente alemão Marc Forster? Aí é de se avaliar o quão diverso é esse novo capítulo na nova vida do espião mais perigoso do mundo. Afinal, não é todo dia que o diretor de filmes como “A Última Ceia”, “Em Busca da Terra do Nunca”, “A Passagem”, ”Mais Estranho Que a Ficção” e “O Caçador de Pipas”. Nota 8,5!

!!A Grande diversão do ano? Ou “Little Joy”, o projeto de um Hermano com um Stroke!! Por Rod Castro!

26 de nov de 2008

Desde que o mundo é mundo, as pessoas sempre pensam em fazer algo “por fora”. Como assim? Simples, tem uma hora que você cansa do que faz com algumas pessoas e acaba investindo numa nova forma de ser. Mas calma. Nada de traições ou casos. Mas sim experimentações.

Alguns dizem que é moda no mundo da música atual você dar umas voltinhas com membros de outras bandas e tocar projetos paralelos.

Recentemente duas bandas das quais sou apreciador, “Queens Of Stone Age e System Of A Down” – chamadas através de códigos por este que aqui escreve por “QOSA e SOAD” – tiveram lançamentos interessantes.

O vocalista/letrista/líder e faz tudo Josh Homme, do Queens, reuniu uma trupe, sob o nome de “Eagles Of Death Metal”, e fez um bom disco de rock; enquanto o guitarra e o batera do SODA se juntaram e fizeram um disco “mais do mesmo”, sob o nome de “Scars On Broadway”.

Mas nem sempre essas grandes reuniões resultam num excelente material. Mas esse não é o caso da junção do melhor “Hermano” Rodrigo Amarante, com o batera brazuca Fabrízio Moretti dos Strokes. A banda se chama Little Joy – pequena diversão – e é formada por apenas três membros, os dois já citados e a namorada do último.

A definição do som é muito mais do que “Los Hermanos com Strokes, Strokes em português ou Hermanos em inglês”. É diferente de ambos, apesar de se parecerem na essência, entendeu? Então eu explico: logo na primeira faixa você ouve uma típica música americana, daquelas que foram feitas para comerciais de margarina, sabe?

Mas “Brand New Start” tem muito mais a oferecer do que se parecer com algo: ela é leve, muito bem interpretada por Rodrigo e tem um toque saudosista na medida, uma das músicas mais bacanas do disco.

O saudosismo é algo presente por todo o disco e chega a ser um toque do trio, como em “Don’t Watch Me Dancing”, “Evaporar” – cantada em português, “Play The Part”, “With Strangers” e a sensacional “Shoulder To Shoulder” – perfeita para um bailinho no estilo anos 50.

Mas seus ouvidos devem estar preparados para as músicas mais agitadas que tem o melhor de Amarante e Moretti: desleixo vocal, com bateria precisa para cada estilo, como em “No One’s Better Sake”, “The Next Time Around” – de vocal dobrado e com trechinho cantado em português – “How To Hang A Warhol” e a melhor de todo o disco, “Keep Me In Mind” que merece repeat infinito no seu MP3 Player.

Agora fica a pergunta: será que Fabrizio volta mesmo em Fevereiro para a gravação do novo disco dos Strokes sem arrastar nada desse trabalho? E Amarante volta pro Brasil pensando em se reunir com os outros Hermanos?

Boas perguntas que serão respondidas com o tempo. Nota 9,0

!!Antes sou do que em má companhia? Ou... Nós/Sou de Marcelo Camelo!! Por Rod Castro

17 de nov de 2008

Sou fã dos Los Hermanos. Tive a chance de conhecer a banda pessoalmente e fui desarmado pelo jeito simples do seu guitarrista e meu xará Rodrigo Amarantes em um estúdio de uma rádio de Manaus. E olha que isso era na época do hit “difamador” “Ana Júlia” – a maldita canção do Hermanos que tocou tanto na rádio que eles a evitaram até darem um tempo, recentemente.
Tempos depois ouvi ao excelente “Bloco do Eu Sozinho” e revi meu conceito sobre os Hermanos.

Ali tinha tudo, menos uma bandinha de rock cheia de hits, pelo contrário, tinha substancia em letra e conteúdo em sonoridade. Camelo tinha o lado bossa nova MPB na medida certa, enquanto Rodrigo esparramava suas influências em seu jeito despojado de cantar e seus simples arranjos.

O tempo passou e os Hermanos soltaram o clássico “Ventura” e consolidaram tudo o que haviam criado até então com o também já clássico, porque pode ser o último disco da banda, “4”. E assim que os 4 componentes deram um tempo, os dois mais criativos rumaram para o que já se esperava: Rodrigo puxou a frente de um grupo de músicos e mandou ver no disco dos descompromissados Orquestra Imperial, enquanto Camelo fazia mais composições de encomenda para artistas mais pop e migrava para o seu primeiro trabalho solo: Sou/Nós.

O disco é diferente do que ele fazia nos Hermanos? Não. Parece com o que eles faziam? Também não. Camelo parece aquele cara que dorme e acorda com uma idéia, põe no papel e no outro dia grava. Daqueles compositores que ouve por horas suas influências e descobre o que quer ou pelo menos vê no trabalho do outro o que pode fazer melhor ainda.

Tirando a música que ele canta com a Malu Magalhães (“Janta”) – peguei ojeriza a moça, mas não confunda com antipatia pré-meditada – o restante do disco é o que já se esperava: tem marchinha (“Copacabana”), música triste a’la Hermanos (“Doce Solidão”, com direito a um assobio filho da mãe, “Liberdade” com um acordeom sensacional e a melancólica “Téo e a Gaivota”), pop na medida certa (“Mais Tarde”), som latino com influência nordestina (“Menina Bordada”, “Tudo Passa” e “Vida Doce”), instrumental (a calma “Passeando”). E depois disso tudo, o veredito?

Sinceramente? Não há uma música sequer que consigo lembrar desse CD, isso é bem ruim. Ainda mais com um letrista como esse. Nota 6,5. Nessa semana posto o que achei do trabalho do outro Hermano: Rodrigo Amarantes com o batera brazuca Fabrício dos Strokes, o “Little Joy”.

!!Boas dicas de DVDS, ou: “O Amor Não tem Regras, A Outra e Inspeção Geral”!! por Rod Castro!

13 de nov de 2008

Sem muitas delongas vou partir logo para o que pensei sobre os tais filmes listados acima, simbá? Confere aí – todos saíram recentemente em DVD, então já pra locadora:

“O Amor Não Tem Regras” – em seu terceiro filme no comando da direção, George Clooney escorrega. E é triste falar isso de um promissor diretor que fez o subestimado, pela crítica “Confissões de Uma Mente Perigosa” e o neoclássico “Boa Noite, Boa Sorte”.

Em seu terceiro filme no comando, Clooney se mostra tão descompromissado com a história contada – baseada nos primeiros anos da prática do futebol americano – que quando o filme ruma para seu fim, o único pensamento é: porque ele rumou para a comédia senão sabia fazer?

Que ficasse com o imaginário/verdade/sonho de “Confissões...” ou o cinema denúncia/político de seu maravilhoso segundo filme. Enfim, boa direção de arte, algumas poucas boas cenas, mas não convence. Nota 6,0.

“A Outra” – Que não suporto a Natalie Portman não é novidade. Mas que ela está realmente bem neste filme de época – e confesso que em minha opinião é a primeira vez que a vejo realmente bem em um filme, ao contrário do que falam os “entendidos” de sua atuação em “Closer” – ah, ela está.

E ela poderia estar melhor senão fosse à presença de forma até mesmo “boba”, mas perfeita de sua irmã, feita pela sempre competente Scarlett Johansson. A produção é perfeita, a fotografia um caso a parte e a direção de arte muito boa.

O enredo gira em torno da verdadeira história de um rei da Inglaterra – o futuro pai de Elizabeth, encarnado por um bom Eric Bana – que não consegue ter um herdeiro – homem mesmo – para dar continuação a sua dinastia e por isso acaba se envolvendo com duas irmãs.

O jogo amoroso e de traição toma conta de todo o império e produz boas viradas em um filme que sinceramente não tinha a menor vontade de ver, nota 8,0!


“Inspeção Geral” – Sabe quando você vai na locadora, vê uma capa de DVD, nota que há bons nomes envolvidos no filme, mas como nunca ouviu falar dele acaba deixando de lado a caixinha?
Uma dica: não deixe a capa desse excelente “Inspeção Geral”.

Em um filme denso, praticamente teatral – só há dois cenários – acompanhamos dois estrangeiros – uma americana na China e um árabe nos EUA – serem interrogados de uma forma realista. A atuação do elenco, tanto os interrogados – destaque para a performance de Maggie Gyllenhaal – quanto os interrogadores – destaque para Glen Close – é intensa e precisa.
A jogada de as falas serem repetidas, as mesmas, sendo que feitas em locais diferentes é um trabalho magistral, como sempre, do veterano e competente diretor Sidney Lumet – de “Um Dia de Cão”. Filmão, merece sua atenção, nota 9,0!

!!10 anos de Gran Turismo e não é o jogo não, mas sim o The Cardigans!! Por Rod Castro!

12 de nov de 2008

Esta semana, para ser mais preciso, no último dia 03, um dos discos mais ignorados por críticos do rock/pop, da década de 90, completou 10 anos de vida. Antes de dar os parabéns, vale lembrar que antes de “Gran Turismo” os Cardigans tinham feito dois discos – o segundo um sucesso total: “First Band On The Moon”.

Ter uma voz fofinha, conseguir arranjos desconcertantes e ainda assim soar pop/rock é tão complexo quanto inusitado. Essa frase seria um resumo sentimental deste que escreve se pudesse resumir o que “Gran Turismo” me proporcionou logo na primeira audição.

De tanto que “Lovefool” tocou nas rádios e MTVs da vida, acabei optando por não ouvir a banda e pior, criei a velha e conhecida antipatia por todo mundo adorar, conhece? Então, em 1998, vendo o tal canal de música, me deparei com um videoclipe interessantíssimo dos suecos: “My Favourite Game”. Dali para ouvir a música centenas de vezes – após gravar o clipe em fita, lembra disso? – e correr para uma loja que alugava (e ainda o faz) CDs em uma grande avenida da cidade, foi um pulo.

Não comprei o disco, acabei fazendo-o mais tarde, mas este é um disco que tem meu total respeito e ouvidos. Confere aí as razões...

01 – “Paralyzed”: Há frase melhor para se começar um disco completamente diferente do que você poderia pensar ser um CD dos Cardigans, que: “This is where your sanity gives in, And love begins.” Esse refrão é permeado por guitarras distorcidas, uma batida elegante, elementos fantasmagóricos/leves e uma vocalista estilosamente relaxada transformam uma primeira faixa – quase sempre o hit da banda – em uma das melhores aberturas de 98.


02 – “Erase/Rewind”: Um dos clipes mais interessantes dos suecos: em um local já apertado, a banda começa a ser “amassada” pelas paredes que vão se aproximando, a luta de todos os componentes e os seus cuidados com os instrumentos é notável. Quanto à música: lentamente eles constroem uma melodia com violão elétrico, um baixo marcante (inclua aí uma “puxada” no silêncio), bateria concisa e a impressionante voz de Nina Persson, com seus “An, An, Annnnn”.

03/04 – “Explode e Starter”: Com letras subversivamente sensíveis (?) e ao mesmo tempo ácidas, os Cardigans mostram que só não estão no mesmo patamar que um Massive Attack – sem cantora convidada – porque não querem fazer Trip Hop e sim rock, daqueles diferentes a cada faixa.

05 – “Hanging Around”: Tudo bem que o início lembra uma música dos chatos dos “Engenheiros do Havaí”, mas a evolução ruma para uma mistura de Blondie com Chemical Brothers interessante, ainda mais com a letra que fala de uma nova tentativa entre duas pessoas, com direito a “I’m Hanging Around For Another Round”.

06 – “Higher”: Com certeza a mais linda canção feita pelos Cardigans. Suave, excelentemente bem cantada, cheio de coral ao fundo, uma guitarra insinuante e a economia na cozinha. Na letra, o inverso da canção anterior, uma entrega completa.

07 – “Marvel Hill”: Misture os arranjos dos Siouxssie And The Bunishment, com alguns elemntos mais modernosos do Depeche Mode. Para completar o clima, nada como uma letra ao bom e velho estilo surreal de David Lynch a mais diferente música do disco e uma das mais originais apesar de tantos referenciais.

08 – “My Favourite Game”: É impossível falar dessa canção e não se lembrar de seu maravilhoso vídeo clipe. Com o passar do ano ele perdeu em estilo, mas quando surgiu nas telas contagiou a todos e a impressão de que se está em um carro, por vezes sem controle, ao ouvir a música sem ver o vídeo é tão notável que diverte. Um clássico dos Cardigans. Esqueça Love Fool.

09 – “Do You Believe”: Se antes dessa música você ouviu um hit, aqui você tem a melhor música do disco, tudo em seu devido lugar. Início apoteótico, vocal arrastado, letra apocalíptica e uma mistura de teclados com bateria eletrônica e um agudo de guitarra fazem a base dessa deliciosa (?) canção.

10 – “Junk Of The Hearts e Nil”: Sabe quando você sente que fez o seu melhor disco e tem que encerrá-lo de forma inusitada e deixar o ouvinte com cara de paspalho? Essas duas canções foram feitas com esse objetivo. A primeira uma balada leve com refrão rock, enquanto a outra devolve você e seu espírito de volta a Terra após a maluca experiência que é ouvir Gran Turismo do início ao fim.

!! “Via Láctea”, “Cidade dos Homens” e “Cão Sem Dono”, ou cinema tupiniquim em DVD!! por Rod Castro!

5 de nov de 2008

Acho muita graça quando alguém ainda solta à máxima: “Filme bom é americano”. É no mínimo contraditório esse tipo de comentário. E para ser bem franco e não assumir nenhuma posição anti Yankees vou ao pontal nerval do raciocínio: eles têm uma indústria de “entretenimento”, ou seja, tem mais lixo do que “bons produtos”.

E quase sempre quem fala isso é uma pessoa que tira sarro de si mesma, porque os mesmos atores, diretores e pessoal técnico que ele “desrespeita” ao afirmar que o cinema brasileiro não presta, são pessoas que saíram de um meio que o mesmo espectador tanto adora: a TV.

Se hoje Selton Mello é o queridinho do cinema nacional e o artista do diferente, vale lembrar que ele e seu irmão, o Dalton, nasceram e se desenvolveram como atores/dubladores/artistas, nas novelas globais – e não eram novelinhas não, eram verdadeiras líderes de audiência da “Plin-plin”.

De lá ele surgiu, ali ele cresceu e hoje brilha nas salas escuras espalhadas pelo país inteiro. Tá certo: tem menos audiência ou reconhecimento do que tinha em tela menor, mas com certeza está bem mais feliz por ter seu “verdadeiro” trabalho sendo realizado com primor, talvez até mesmo eternizado, em película.

E o cinema brasileiro não é mais aquele terror de pornô chanchada, ou filmes “cabeça”, do tipo “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. Pelo contrário, todos os anos pelo menos cinco ou seis bons, senão excelentes filmes chamam não só atenção do público, como são elogiados em páginas e mais páginas pela crítica.

E hoje, falaremos de três filmes nacionais – um apenas estreou em Manaus – que apenas conferi agora em DVD. Vamos lá?

“A Via Láctea” - Em “Pavor Nos Bastidores” Alfred Hitchcock se utilizou de uma técnica de manipulação em que uma parte da história é contada para uma personagem e para o público de uma forma, mas que ocorre de outro jeito no desenrolar da trama. Em seu primeiro filme, o ator Marcos Ricca faz o mesmo.

É um filme difícil, que retrata a separação de um casal – Ricca e Alice Braga. Têm bom ritmo, boa edição, viagens interessantes, mostra São Paulo de uma forma singular e perturbatória – como pode-se ver também no excelente “São Paulo S/A”. Mas o resultado final não é dos melhores. Nota 7,0!

“Cidade Dos Homens” – A aventura final de dois dos melhores personagens a ganharem série no Brasil é regular se for comparado ao que foi feito durante toda a série. Tudo bem que o filme possui boa edição, fotografia e tem um roteiro enxuto, mas algumas situações são más exploradas e acabam sem sentido por suas resoluções – como os dois pais dos personagens principais do filme terem matado um ao outro.

As atuações e alguns diálogos continuam verdadeiros como fora na série e até mesmo em “Cidade de Deus” – que originou os episódios na televisão. Mas sinceramente, poderia e deveria, ter rendido muito mais. Nota 7,5!








“Cão Sem Dono” – o cineasta paulistano Beto Brant é um dos melhores de sua geração. Tem estilo, cria bons personagens, tem momentos inspiradores e parece ser um dos melhores diretores de ator do cinema brasileiro. Além de ter uma boa seqüência de filmes rodados – como
“Os Matadores”, “Ação Entre Amigos”, o excelente “O Invasor” e “Crime Delicado”.

Nesse interessante “Cão Sem Dono” Brant explora a vida de dois personagens totalmente livres de compromissos com a vida – ele é tradutor de textos russos para o português, enquanto ela parece ser uma modelo com possibilidades na carreira, mas nada mais que isso – que ficam vagando a vida um do outro, como dois cães sem dono – apesar de o filme sempre enquadrar o cachorrinho pego pelo tradutor, como um ser sem rumo também.

Cheio de bons diálogos, alguns visivelmente fruto de improviso do elenco – como as cenas feitas na casa do motoboy (melhor personagem do filme) e as “reuniões de família” de Ciro – tem linguagem linear (diferente de outros trabalhos de Brant) e prima pelo naturalismo. Bom filme, nota 8,0.

!! Como fazer dois excelentes discos seguidos, ou: “Only By Night” do Kings Of Leon!! By Rod Castro

14 de out de 2008


Vou ser bem direto logo nessa primeira linha: o novo disco do Kings Of Leon, “Only By Night” me emociona, muito. É de uma melancolia tamanha que me faz pensar que hoje, ao voltar do trabalho, vou ligar no canal 02, TV Cultura, e assistir a mais um episodio de “Anos Incríveis”.

Mas entenda, não é uma melancolia de querer voltar no tempo, na verdade é um sentimento de que o tempo já voltou e eu que passei para outra etapa da vida. Poucas bandas conseguem fazer isso com os ouvintes, hoje em dia então, nesse marasmo de coisas “novas” e repetitivas, é que não rola mesmo.

Mas com o Kings Of Leon a coisa é diferente. Após terem acertado na mira ao gravarem o excelente “Because Of The Time”, no ano passado, eles extrapolaram tudo o que você pensa a respeito da banda com esse, já clássico, “Only By The Night”. Parece que a fórmula de desconstruir o ritmo que te influencia para criar algo novo – no caso deles, bandas como Bread e Creedence Clearwater – seguido no trabalho anterior foi exercitada ao extremo pela banda e resultou no melhor disco desse ano de 2008 – com sobras perante demais artistas.

Se você achava estranho uma banda, além do Interpol, começar seu novo CD com uma canção inclassificável como “Knocked Up” em “Because...” , o que você dirá ao ouvir, a também inclassificável “Closer”? Ou a barulhenta, como um Creedence com a guitarra do Black Sabbath – e dona do melhor baixo de todo o CD – “Crawl”?

No mínimo você vai se perguntar: onde está a tal melancolia que o autor tanto falou?

Mas sua pergunta será atropelada pela dançante, grudenta e uma das melhores canções com potencial imenso para se tornar hit do ano, “Sex On Fire” – que tem um trabalho de construção sonora interessante.
Após muito bate pé e simulações de solos de guitarra da sua parte - “Sex On Fire” tem esse efeito arrebatador - você vai mergulhar em um túnel do tempo e voltar mais de uma década em sua existência, com as sensacionais “Use Somebody”, “Manhattan” e “Notion” e terá a emoção presente na sua audição com as mais belas canções do ano: “Revelry” e “17”.

Para descontrair desse sentimento antiquado, ou até mesmo para se juntar ao panteão de grandes bandas descompromissadas, que fazem algo para “ficar na eternidade sonora dos entendidos”, o Kings coroa sua obra com a gostosa “I Want You”, a marcante e ritmada “Be Somebody” e termina esse discão de maneira retumbante e até mesmo avassaladora com “Cold Desert”.

“Only By Night” é um compromisso assumido pela banda junto aos seus fãs e admiradores: de que esse é apenas o segundo de vários bons discos que virão. Perfeito, o melhor disco do ano de longe... nota 10,0!

!!O Cinema autoral ou apenas um bom diretor no comando... ou: “Senhores do Crime”, “Blindness”, “Sicko” e “Eu Não Estou Lá”!! por Rod Castro!

8 de out de 2008

O cinema autoral até hoje é discutido pelos entendidos da sétima das artes e defendido ao extremo por fãs e diretores que desejam algo a mais quando decidem parar suas vidas para assistirem a um filme. Mas o que faz um filme autoral? Sem procurar definição nos livros ou no Google me arrisco a dizer que seria um filme que nasce e se desenvolve na cabeça de um cidadão.

Ou seja, ele faz o roteiro, desenvolve a produção e finaliza o filme. Levando-o direto para a apreciação de seu público de forma única, sem alteração ou sugestões de engravatados pelo caminho. É um estilo mais dificultoso de se fazer uma obra cinematográfica, mas bem mais original.

Nesse estilo de trabalho, você, o autor/diretor não conta com outra cabeça para fazê-lo mudar o foco ou o estilo da obra – isso é bom (?). Ao mesmo tempo, você passa tanto tempo ligado àquela história que se funde com o enredo de tal forma, que acaba fazendo mais do que faria se tivesse sido contratado para fazer aquele filme encomendado diretamente por um grande estúdio.

Hoje, poucos profissionais da direção realmente são autorais. As pessoas confundem assinatura – um estilo de direção – com um trabalho autoral – aquele que fundamenta passo a passo o que será feito por todos os dias de pré, produção e pós.

Outra coisa importante de se falar é que a interferência do diretor, de forma intensa, no roteiro, não credencia tal trabalho, como autoral. Longe disso, sua intromissão no texto que conta a história é no mínimo uma de suas funções e sempre o é cumprida com ajuda de mais algumas pessoas, como produtores e roteiristas, às vezes até mesmo o autor do livro – casos raros.

O que me incomoda com relação a esse paradigma, (ou seria uma onda surfada por pessoas mais cultas?) de que cinema autoral é melhor que o comercial, é a pompa com que certos projetos são vendidos perante público. De uns tempos para cá isso vem se tornando mais marketing do que qualidade. Um dos exemplos que não me canso de citar é o do indiano M. Night Shyamalan.

Após fazer um filme interessante no início de sua carreira – filme esse que eu não tenho tempo agora para lembrar (leia-se pesquisa Google de novo) – o promissor diretor partiu para o cinema autoral e acertou de primeira com o excelente “O Sexto Sentido”. Após receber o reconhecimento da crítica e do público, Shyamalan deu mais um passo rumo ao status de diretor auto-suficiente ao realizar, o sempre, subestimado “Corpo Fechado”.

Com certeza apareceram outros trabalhos, maiores e de encomenda, para que o indiano fizesse. Mas ele não topou – um deles, alguns colunistas afirmam, foi o novo filme do “Superman”, que acabou sendo feito pelo também competente Bryan Singer – e preferiu dar o pontapé em mais um filme com a sua “fórmula” de criar histórias – em que um mistério vai sendo desvendado durante a projeção e você, público, só consegue notar ao final, quando ele junta as peças - o subestimado “Sinais”.

Mas a partir daqui M. pisou na bola, em minha opinião. Confundiu estilo, com autoral, e se repetiu. “A Villa” é um bom filme, mas não tem mais aquela originalidade que conquistou milhões de espectadores e milhões de dólares para os estúdios que o produziam. Pelo contrário, ao final da exibição, era uníssono o comentário vindo da platéia, de que a obra era repetitiva.

“Dama Na Água” foi à saída certa para Shyamalan voltar a ser autoral – filme esse massacrado pela crítica por um personagem que mostra uma das várias formas de se analisar uma obra da sétima arte, um cri-crítico, que morre durante a exibição. Mas a decepção voltou a se repetir com o fraco, ralo, bobo e pior filme do excelente diretor autoral: “Fim dos Tempos”.

E porque estou falando tanto de cinema autoral e estilo de direção? Simples, quatro filmes que estrearam, ou chegaram às locadoras, recentemente, dão mostras de bom cinema. Alguns autorais, outros com bons diretores a frente do projeto, mas não autorais. Vamos notar as diferenças? Sigamos.

“Senhores Do Crime” - David Cronenberg merece respeito. O canadense que dirigiu filmes tão distintos, originais e inclassificáveis como “Scanners”, “Videodrome”, “Na Hora da Zona Morta”, “A Mosca”, “Gêmeos, Mórbida Semelhança” e “Crash, Estranhos Prazeres”, tem muito ainda para mostrar.

Está certo que em “Marcas da Violência” houve uma supervalorização do seu estilo de fazer filmes. Mas nesse simples e competente “Senhores do Crime”, que nem pode ser classificado como policial ou como drama, ele mostra que uma coisa ele sabe fazer muito bem: dirigir atores.

Se muitos adoraram o personagem feito por Viggo Mortensen em “Marcas”, aqui nesse interessante “Senhores Do Crime” o ator demonstra que caracterização é uma de suas principais armas ao realizar mais um grande trabalho. Naomi Watts não sai atrás, com sua enfermeira que mora na Rússia e encontra o diário de uma prostituta que deu a luz a uma criança que deveria estar morta.

Mas, assim como Ed Harris em “Marcas”, o papel de destaque vai para o veterano ator alemão Armin Mueller-Sthal e seu enigmático e ao mesmo tempo aterrorizante Simon/Semyon. O filme proporciona boas cenas, sendo que com o estilo de trabalhar de Cronenberg, você já espera por uma briga inusitada – e a terá, dentro de uma sauna. Nota 8,0!


“Ensaio Sobre a Cegueira” – Cinema autoral no Brasil, incrivelmente tem uma relação estranha com o nome de um diretor: Fernando Meirelles. E porque estranhamente? Simples, nenhum dos últimos três filmes de Fernando são roteiros originais, pelo contrário, são adaptações de conhecidos livros, como “Cidade De Deus” (do brasileiro Paulo Lins), “O Jardineiro Fiel” (do inglês John Le Carré) e agora, “O Ensaio Sobre a Cegueira” (do português José Saramago).

E aqui nesse complexo drama/ficção escrito pelo ganhador do Prêmio Nobel parece que Fernando derrapou. Não, o filme tecnicamente não deve nada aos trabalhos anteriores do excelente diretor brazuca. A fotografia, edição, o elenco e até mesmo o som merecem respeito. Mas faltou algo, algo que somente a direção podia trazer ou fazer acontecer na tela grande: conjunto.

Filme que possui muito destaque, não possui todo. E filmes que possuem todo são melhores e oferecem mais, como “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”. Bom filme, com grandes momentos, mas não é a obra-prima que devia ser – ainda mais pelos nomes envolvidos. Uma pena, mas ainda assim forte e de respeito. Nota 8,0!

“Sicko” – Se você trabalhasse em uma agência de publicidade e precisasse fazer uma foto com o tema “O Século XXI”, e me procurasse querendo um referencial, não titubearia em indicar um diretor de cinema competente e americano (sim existe!), o documentarista Michael Moore.

De seu criativo jeito de ver a vida, resultaram documentários importantes e geniais, do calibre de “Roger & Eu”, “Tiros em Columbine” e “Farenheit 11 de Setembro”. O trabalho do gordo de boné fizeram a mídia respeitar um dos gêneros de cinema mais deixados de lado dos últimos 30 anos, o documentário.

Em “Sicko” ele, mais uma vez, pressiona uma das maiores feridas do “American Way of Life”, os planos de saúde. Com uma edição primorosa e uma produção estudada Michael demonstra que dinheiro sempre vem em primeiro lugar no paraíso capitalista Yankee. E nem vale aquele lance de imperialismo, já que na Inglaterra o estilo de programa de saúde desempenhado pelos súditos da coroa é mais humano que o que encontramos até mesmo no Brasil.

Uma cena é fundamental para que os americanos, como sempre em um filme do diretor, tenham vergonha de suas eternas más impressões quanto aos estrangeiros e seus governos: um grupo de pessoas – “heróis de 11 de Setembro” - é levado por Michael para a ilha de Fidel para serem tratados, de forma gratuita, de seus males – já que o governo americano não os ajudou em nada. Nota 9,0.


“Eu Não Estou Lá” – Hoje são poucos os diretores autores que me fazem ir ao cinema. Devem existir uns 20 nomes no máximo que conseguem tal feito. Um deles com certeza é o Tod Haynes.

É dele uma seqüência de filmes em que teve total comando da obra que merecem ser conferidos e até mesmo adquiridos de forma automática: a biografia não autorizada de David Bowie “Velvet Goldmine” (fora de acervo), o drama tenso e belo “Longe do Paraíso” (à venda as pencas nas locadoras do centro a preço de banana) e o também biográfico e interessantíssimo “Eu Não Estou Lá” (que acaba de chegar às locadoras).

Em todos os seus filmes, Tod investe no cinema de arte sem soar bobo ou muito inteligente, longe disso, ele se preserva o direito de dar total liberdade aos seus interpretes, para que o filme ganhe vida cena a cena e com todos os elementos artísticos necessários. É fácil ver seus atores desaparecerem em cena e darem vida tocável a elementos que não existiram – até aquele momento.

Foi assim com seus protagonistas – Christian Bale, Ewan McGregor e Jonathan Rhys-Meyers - em “Velvet”, também com seu elenco – Juliane Moore, Dennis Quaid e Dennis Haysbert - em “Longe” e se aprimorou de tal forma em “Eu Não Estou Lá” que com certeza Tod não terá dificuldades em ter grande elenco nas mãos ao realizar seu próximo filme.

Como falar de um ser tão diferente e ao mesmo tempo tão igual como Bob Dylan? Fácil: distribuindo sua personalidade em vários personagens diferentes, mas com ligações tênues e visíveis.

Assim temos o trovador ingênuo que queria ser de um tempo que não lhe pertence (atuação brilhante do garoto Marcus Carl Franklin), o roqueiro rebelde e que depois se torna um pastor com dom especial (duplamente interpretado pelo sempre competente Chris Bale), o pseudônimo do artista que se vê, mas não se reconhece (Ben Whishaw), o veterano pistoleiro que baleava mal-feitores com seu violão e que abandonou tudo (interpretado por Richard Geere), o elétrico cantor que desfez de sua principal característica e não liga para o que falam dele (o melhor papel de Cate Blanchet no ano passado) e o roqueiro traidor que quer ser ator e não passa de um ser humano ridículo – ou seria comum? (mais um trabalho incrível de Heath Ledger, esquecido pro premiações).

Filmão, com direito a uma bela pergunta, frase retirada da mais conhecida canção de Dylan, ao subir dos créditos: “How Doesn’t Feel?”. Nota 9,0!

!!Diversão e arte, ou: "Doom's Day", "Wanted" e “Hancock”!! por Rod Castro

30 de set de 2008

Apesar de muitos conhecedores não gostarem de admitir, o cinema nasceu com um único intuito: divertir. Essa foi à força motriz por trás da apresentação feita pelos irmãos Lummiere, na França. E foi a mola propulsora para os “negócios culturais” de Thomas Edison e seu Nickelodeon – invenção, freqüentemente instaladas em praças e circos dos EUA, em que o cidadão botava alguns níqueis na maquininha, movia uma manivela e assistia a pequenos filmes.

Para o cinema se tornar arte foi com o passar dos tempos, com o desenvolvimento das técnicas de trabalho e estudo mais especializados de como evoluir aquela forma de expressão. Mas que fique claro em sua mente: não nasceu como arte, se tornou. E aqui fica o paradigma: ainda é arte? Ainda é diversão? É meio a meio?

Na maioria das vezes em que me encontro com alguém que tenta tirar um sarro da máxima dita pelos entendidos, a de que “cinema é arte”, os provoco a reflexão ao citar o filme feito pelos irmãos Wachowski em 1999 com intuito de divertir, mas que acabou fazendo muitos refletirem: “Matrix”.

Em menos de duas horas você se divertia, filosofava, vibrava, enchia os olhos, aplaudia e ainda tinha pra ficar boquiaberto. E isso é o quê? Arte, na sua mais primaria fundamentação. Mas, de uns 15 anos para cá, a fábrica cinematográfica dos EUA, e outras praças também, começaram a confundir diversão com qualquer coisa que cause escapismo repentino para quem ali assiste.

“Doom’s Day – O Juízo Final”, “Wanted” e “Hancock”.

Além de ambos terem seus títulos em inglês mantidos em suas estréias no Brasil, esses três filmecos, têm mais em comum, como: são ruins, tinham bons diretores, acertaram nos seus protagonistas e ainda pecaram no mesmo aspecto, tem roteiros horripilantes.

“Doom’s Day” tinha tudo para ser um filmaço! Tinha Neal Marshall na direção – o mesmo de “Abismo do Medo” – tinha uma excelente atriz de ação como protagonista – Rhona Mitra, mesma que fará “Anjos da Noite 3” – mas o roteiro é uma mistura de referencias tão grande que não vale nem comentar muito: em um futuro próximo, um vírus transformará as pessoas em zumbis, mas uma sociedade formada por pessoas que não foram contaminadas dão mostra de possível cura para a doença.

E aí? Aí toma Mad Max II + Resident Evil + Canibalismo + Cruzadas e o resultado é péssimo = filme ruim! Nota 3,5 (Rhona é a única coisa que presta do filme).

“Wanted” surgiu para o mundo de forma excepcional, em uma revista em quadrinhos da editora Image, em que um paspalhão se transforma em um vilão de primeira categoria. O argumento de Mark Millar, um dos melhores redatores de gibi da safra atual, era interessante e tinha como complemento um mundo “real” de super-heróis que haviam sido derrotados pelos maiores vilões do planeta.

Além de garantir excelentes cenas, como a que o Professor (Freeman) mostra para Wesley (James McAvoy) a capa de um Superman derrotado, o gibi era lotado de irados diálogos traçados pelo protagonista e demais personagens do mal. Esse filme é um rabisco da obra feita por Millar e seu parceiro J.G. Jones e não merece nada mais que isso.

Uma pena, porque é o primeiro trabalho do grande diretor russo Timur Bekmambetov, o mesmo da trilogia “Guardiões da Noite”. Nota 4,5 (nem a Jolie posuda salva!).

“Hancock” entrou para a mítica do cinema americano como o filme que ninguém queria ou podia filmar. E durante mais de uma década o roteiro ficou emperrado, pegando poeira em uma gaveta de um grande estúdio americano.

E a sensação que se tem após ver o filme é exatamente essa: a “obra” parou no tempo. Não é moderno, tem falhas grotescas como a mulher poderosa e o cara poderoso estarem a milímetros de distancia um do outro e nem se perceberem. Sem contar que a estrutura que compõem o personagem principal – um Will Smith em piloto automático, uma pena – é pífia e faz você refletir como na hora em que se encontra a frente do espelho, com sono, pela manhã.

Nota 5,0 e chamem um super-herói de verdade da próxima vez!

!!O desafio do segundo disco... do Cansei de Ser Sexy!! Por Rod Castro!

Falei aqui, nessa semana, sobre como o “descompromisso” no rock é fundamental. Há dois anos tive a compreensão desse pensamento ao ouvir o primeiro disco do Cansei de Ser Sexy.

Mas que tal voltarmos ao passado? A primeira vez que ouvi falar da banda, estava em São Paulo, fazendo dois cursos – um de cinema e outro de redação publicitária – ao entrar na Fnac da Avenida Paulista, me defrontei com um guia de programação e um banner que falava que dali a poucas horas a tal banda de nome engraçado faria um pocket show no andar superior da loja.

Eram 17 e 30 da tarde. Menos de 20 minutos me separava da experiência, mas como bom roqueiro “experiente”, repeti o mantra: “mais uma bandinha brasileira que quer ser engraçada, vou ver não”. E assim parti para o Espaço Unibanco de cinema, a poucos metros dali.

Perdi. Arrependo-me. E hoje o Cansei nem se chama mais assim, de tanto que foi sua fama fora do país nos anos seguintes. Poucos meses depois da pisada de bola, eu ouvia o primeiro CD da banda e me crucificava por ter tomado tal decisão.


E agora em 2008, após o CSS ter virado sensação de centenas de festivais fora do Brasil, recebo em mãos o novo lançamento da banda. O eterno desafio de se fazer um segundo disco estava em minhas mãos, antes de ouvir tentei tirar os referenciais do primeiro e muito bom disco da cabeça.

E apertei o play...

“Donkey”:
Ao contrário do que a maioria afirma, não acho que este segundo CD seja mais comercial que o primeiro disco. Pelo contrário, é um caminho percorrido após o pavimento pop posto na via que os leva ao sucesso.

E se antes no primeiro e independente disco, que depois foi bancado por uma gravadora nacional, eles pareciam ser originais e deliciosamente imaturos, nesse novo trabalho é reconhecível a evolução sonora da banda, assim como as várias influencias que fazem parte do que os membros do Cansei mais gostam: como B52’s, New Order, Elastica, Devo e até mesmo Joy Division.

O pop continua batendo mais alto. Os arranjos continuam simples, mas eficazes, Fox continua cantando com uma despretensão incrível e você, em nenhum momento, sente falta do elemento que saiu da banda, pelo contrário: elas/ele parecem mais coesos e conscientes do que realmente desejam. Como na rocker e pulante “Rat Is Dead (rage)”.

Mas se eu pudesse escolher só uma faixa para indicar a você, ela seria: “Give Up”. Uma mistura de introdução de Joy Division, com a levada do B52’s e a repetição de palavras que o Devo sempre fez e bem. Música daquelas que você põe no Repeat até o infinito no MP3 player.

Bom disco, não é o melhor do ano, porque o Kings Of Leon fez o improvável ao gravar o excelente “Only By The Night” que vou comentar qualquer dia desses.

Nota 8,0!

!!O desafio do segundo CD... ou “Como se Comportar” do Moptop!! Por Rod Castro!

25 de set de 2008



“Você parece com alguém” disse à moça que de vez em quando me encarava no caminho do trabalho. Notei que ela falou algo, mas com os fones na orelha não tive como ouvir.

Tiro o fone, ela repete: “Você me lembra alguém?”. É mesmo, respondo sem reconhecê-la. E ela afirma: “Não, você só parece um amigo meu, mas não é ele não, desculpa...” e sai fora me deixando com cara de bobo no meio da rua.

Enfim, coisas da vida. Reponho o fone, aperto o play de novo e retomo o que estava ouvindo no meu MP3 player, o novo CD do Moptop – os nossos Strokes brasileiros – “Como se Comportar”, e o vocalista em sua segunda canção diz algo que me lembra alguém, mas de uma forma até mesma descarada de homenagear, ele diz: “Tentou mentir, é bobagem, é só uma fase, vai passar...”.

Dou um sorriso e me lembro de Jullian Casablancas cantando com voz rouca em cima de um palco escuro: “I Want You, You Want a Me. It’s Just a Phase, It’s Gonna Pass...” na sempre memorável “Automatic Stop”, do segundo disco “Room On Fire”, de sua banda.

Aqui faço um breve momento de reflexão: eu pareço o amigo da moça, mas não sou. O Moptop parece com os Strokes... e realmente quer ser que nem eles!

E isso é...:

A) Ruim, porque copiar os outros é uma vulnerabilidade de quem não é criativo!

B) Bom, porque as bandas de rock brasileiras estão num marasmo criativo incrível e a solução é partir pra algo já feito e que gera retorno, além de ser bacana!

C) Ótimo, pois eles vão morder um grande público – que inclusive já os tinham como uma Xerox dos nova iorquínos!

D) Excelente, afinal os Strokes são uma cópia de Talking Heads com Stooges e ninguém fala nada.

E) Ou: que se exploda! Eu quero é ouvir música boa!

Eu assinalo todas as alternativas de pensamento. E vou além. O que realmente interessa é se o Moptop fez mais um disco bom e a resposta é sim. Primeiro porque eles não procuram fazer obras-primas, assim como os Strokes, eles gravam e pronto.

Segundo porque não há banda legal de se ouvir hoje em dia. Se elas não estão concentradas em falar de emoções – como as emos de hoje em dia – acabam querendo parecer inteligentes, mas sem cabeça – como a Nação Zumbi – e, vez por outra, tentam representar um movimento revolucionário – como o eterno blá, blá, blá do O Rappa.

E rock realmente é tudo isso, mas também há o “descompromisso”, o desleixo e isso ninguém quer. Pelo que parece o Moptop quer, assim como os Strokes e acertaram na mosca com esse “Como se Comportar”.

Disco gostoso de ouvir, feito para se divertir, que em poucos momentos busca a reflexão e dá uma liberdade ao ouvinte de apenas cantarolar trechos da música sem se preocupar com a letra – característica de um fã de Strokes (mais uma).

Nota 8,0 E não sei porque diabos, o disco me lembra alguma outra...

!!A morte magnética daquele Metallica popular... ou “Death Magnetic”!! por Rod Castro!

16 de set de 2008

“Black Album” também conhecido como “Metallica”, era o prenúncio de que as coisas haviam mudado na minha banda preferida de metal. Alguma coisa estava errada, porque as rádios tocavam “Enter Sandman”, “Unforgiven”, “Sad But True”, “Wherever I May Roam” e “Nothing Else Matters” como se fossem vinhetas de programação.

Mas o que estava estranho? Simples: a “mudança planejada” pelo produtor Bob Rock resultou em dinheiro, muito dinheiro. E quem nunca ganhou tanto, pelo contrário, sempre viveu de um bom cenário segmentado, pira a cabeça com tantos dólares.

E esse “rumo ao que intere$$a” fez com que a banda mais porrada do Heavy Metal, da década de 80, acabasse por cometer erros significativos ao gravar “Load” e “Reloaded”, nos anos 90. Deu mais dinheiro? Sim. Mas afastou o que os mantiveram até ali: fãs, cabeludos ou não, mas sempre fieis!

Resultado: baixas vendas, críticas malditas e uma entressafra espiritual que resultou na saída de seu membro mais carismático – o baixista/fã Jason Newstend – e em outro equivoco mercadológico, o só entendido após você assistir ao documentário, o CD mais “atual” do Metallica, “Saint Anger”.

Mas esta semana as coisas mudaram, como se eu tivesse levantado da minha cama, ainda com 15 ou 16 anos e pegasse qualquer CD do Metallica e o tivesse posto para atormentar quem ou o quê me deixava chateado. Pois ouvi “Death Magnetic” o novo petardo da nova formação da banda.
E o meu parecer é de que o quarteto mais rápido e pesado do metal, após Black Sabbath e Led Zepellin, está de volta.

“Death Magnetic” é uma pedrada desferida com toda a violência e ódio necessário naquele grande vitral com imagens da banda desses últimos 16 anos. E é mais atual do que vários CDs pesados lançados nos últimos 10 anos por qualquer banda desse nicho.

Não vou fazer um faixa a faixa, seria bobagem. Vou apenas falar três coisas:

1- desde Cliff Burton – o baixista falecido da primeira formação do Metallica – o baixo da banda foi tão audível em suas canções (como se pode notar na faixa instrumental “Suicide & Rendemption”) como com o agora novo elemento Robert Trujillo;

2- Lars Ulrich finalmente reconquistou meus elogios após quase 20 anos, já que seu trabalho mais lento no “Black Album” é apenas interessante e nos discos seguintes chega a ser um remendo do que ele sempre foi capaz de fazer;

3- e por último, afirmo que esse CD do Metallica não tocará nas rádios, tem grande chance de te deixar surdo e quero ver se eles vão tocar as músicas – aceleradas ao extremo – desse “Death Magnetic” como estão no álbum, ao vivo. Se o fizerem ou um ou outro: terão um ataque cardíaco coletivo no palco ou deixarão milhares de pessoas surdas após os shows.

Em uma palavra? “Death Magnetic” está para o Metallica, como “Revolver” e “Physical Graphytti” estão para a discografia dos Beatles e do Led Zeppelin. É a recriação de uma banda e do seu estilo de tocar.

Discão, daqueles para levar para a ilha deserta e espantar qualquer um que tente te resgatar! Nota 10!

!!Meu ensaio sobre a cegueira, ou: “Em breve, em uma locadora perto da sua casa?”por Rod Castro!

2 de set de 2008

No último domingo, assisti ao ótimo Canal Livre, da TV Bandeirantes – um dos poucos programas que assisto e que recomendo pela capacidade dos seus entrevistadores e pela escolha de seus entrevistados – que tinha como convidado o excelente diretor brasileiro Fernando Meirelles, que divulgava seu novo trabalho, a adaptação de “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago. Após a entrevista, um pensamento me fez refletir até algumas horas da madrugada: será que os amazonenses - me inclua – estão ficando cegos?

Sem me basear na metáfora do livro de Saramago, que na verdade mostra que nós, seres humanos, não enxergamos um palmo frente à cara no nosso dia-a-dia, porque não queremos ver a realidade que nos cerca, e por isso não passamos de verdadeiros animais – essa é a minha leitura da obra, ok?

Peguei o fio do pensamento desenvolvido pelo mestre português e parti para algo que remetesse a “cegueira” do dia-a-dia e que ao mesmo tempo falasse de algo que me preocupa: o extermínio, a olhos nus, de boa parte das locadoras de DVD de nossa cidade. Aqui, como no livro de Saramago, vamos um pouco para trás para identificarmos algo que nos faça refletir, e assim podermos voltar ao presente.

Antes...

Desde que o cinema é cinema, uma frase amarra a maioria de seus trailers de divulgação, sempre ao final do comercial: “Em breve em um cinema próximo de você”. O tempo passou e com a criação do vídeo cassete, em meados da década de setenta, ela seria adaptada para: “Em breve, em uma locadora perto da sua casa”.

Nesse exato momento, ambas afirmações fariam eco e moveriam milhões de pessoas mundo a fora a se dirigirem ao cinema ou locadora mais próximos de sua casa, e eram muitos. O poder dessa simples frase fez com que novos consumidores de cinema fossem formados. E principalmente: resultou em um saudável hábito de pessoas e mais pessoas assistirem a muitos filmes.

E acredite: formar novos consumidores de uma determinada arte é tão importante quanto manter aqueles existentes. Com o vídeo cassete, surgiu para o mundo a “popularização singular” do cinema. E assim, com um simples cadastro, você tinha em mãos centenas da fitas com o melhor que o cinema tinha a oferecer.

Tudo bem que um filme que passasse nos cinemas em 1983, como Blade Runner – o Caçador de Andróides, demoraria mais de 3 anos para ser apreciado novamente, quando lançado em locadoras. Mas nunca tinha se dado tanto crédito aos clássicos, já que os estúdios tinham centenas deles ainda, entre exibidos e não exibidos, no seu “portfólio”.

Graças às locadoras, crianças com mais de cinco anos e que tinham uma tia bacana, que bancava a conta no final do mês, podiam alugar os mais diversos filmes sem a preocupação até mesmo de devolvê-los. E outros tantos moleques, economizando o dinheiro do lanche da semana, podiam levar pra casa o mais novo lançamento que eles não puderam assistir nos cinemas, devido à censura.

Imagine quantos trintões, de hoje em dia, foram “vítimas” desse maravilhoso hábito? E quantos, ainda na década seguinte, se tornaram as novas vítimas? Melhor ainda: com o lançamento dos DVDs, nos anos 2000, uma nova porta, em vez de janela, se abria para os aficionados em cinema: todos os filmes dos mais diversos estúdios estavam a sua disposição e com som e imagem de qualidade – sem contar que eram e, são ainda, mais baratos que o preço praticado com as fitas nas décadas anteriores.

Hoje...

E o que a cegueira tem haver com tudo isso que estou falando? Muito. Pois sem que a maioria das pessoas percebesse, Manaus foi tomada por uma cegueira muito pior do que a branca, do livro de Saramago, estamos sendo vítimas da cegueira cultural. Explico:

Ao passear pela cidade, me faço todos os dias às mesmas perguntas: Quantas locadoras, “próximas da minha casa”, como se falava na chamada, fecharam as portas? Quantos empresários perderam anos de comércio? E o mais importante de tudo: quantos novos consumidores de cinema não serão formados ou terão a possibilidade de desenvolverem o hábito de ver filmes em suas casas – e por conseqüência, se tornarem cinéfilos?

Essa cegueira está se alastrando pela cidade e infelizmente não há nenhum rei com um olho sobrando para dar um grito de espanto frente a essa onda de deficiência visual. Pior, ao conversar com dezenas de proprietários de locadoras, ouço deles que o principal transmissor dessa doença cultural é a pirataria.

Francamente: nas décadas de oitenta não tínhamos fitas piratas? Você não copiava no segundo vídeo cassete de sua casa – com uma ligação simples de se fazer – os filmes que mais gostava? O problema dessa cegueira quanto ao que a causa é pior do que se fala: os grandes estúdios e as lojas de venda do produto DVD são os principais culpados.

Crime não é apenas copiar. Crime, maior em minha opinião, é vender um DVD a um determinado preço para um revendedor direto e vê-lo ter um valor bem maior na hora do consumo final.

Crime são os filmes chegarem para você que é um dono de locadora, com preços exorbitantes, por ser pessoa jurídica, quando dali a dois meses o mesmo filme estará 3 vezes mais barato em uma loja da cidade.

E sabe o que esses dois crimes culturais estão resultando? Em uma conta dificílima de ser paga: o extermínio de um dos maiores ícones de divulgação do cinema moderno.

O que me deixa triste é que as autoridades estão cegas, os consumidores querem o mais barato e não querem qualidade – e nesse ponto as palavras uma vez me confidenciadas pelo maior conhecedor de quadrinhos do Brasil, Sidney Gusman, martelam minha cabeça: “Gibi é supérfluo para um pai de família”, imagina um DVD?

Por isso ainda não sentimos os efeitos dessa doença agora, somente no futuro.

E nesse instante uma pergunta passa diante os meus olhos e ilumina a mente: “e se na minha casa a quantidade de DVDs que possuo não fosse a que é. Como eu iria passar para os meus filhos a necessidade de se bisbilhotar tantas opções antes de decidir o que ver?”. Pois isso sempre me motivou a ir dá um pulo na locadora.

Não sou rei. Nem sou o único a ter um olho nesse momento. Mas acho incrível como tantos que enxergam estão fechando os olhos.

Futuro...

Veremos.

Ah, está faltando uma palavra no título do texto, se você não enxergou, marque com o mouse e saiba qual é a desaparecida!

!!(Disco)nsiderados... ou: os discos que ninguém se lembra, mas são bons!! By Rod Castro

26 de ago de 2008

O início da década de 90 não foi tão bom para a música como alguns afirmam. Pois uma ou outra banda conseguia se destacar. Fosse por sua fundamentação – Depeche Mode seguindo sua biografia sonora em Violator – por inovar graças a conseqüências - o Metallica de formação nova mostrando do que seria capaz com o clássico ...And Justice For All . Mas a maioria estava presa em um marasmo do mais do mesmo, como INXS e Guns & Roses.

Em meio a esse cenário uma bomba explode em Seatlle e ecoa pelo mundo com gritos e riffs de guitarras poderosos, o inesperado estilo grunge. A formação básica que representaria todo o movimento era: Mudhoney (os pioneiros), Pearl Jam (o Creedence Clearwater mais jovem), o Screaming Trees (os eternos esquecidos) e o Nirvana (os novos Sex Pistols).

Entre tantas bandas, duas se destacavam por apostar no peso, na forma diferente de compor suas músicas e por contar com os dois melhores vocalistas de toda a sua geração (que me perdoem as Courtneys de plantão): Alice In Chains e Soundgarden.

Ambas pareciam ter saído direto dos anos 70 e soavam carregadas de ótimas referencias sonoras de clássicas bandas como Stepenwolf, Led Zeppelin e até mesmo Black Sabath. Talvez por esse peso ou estilo mais rock, menos poser, mais riffs, menos rádios, mais composições de verdade e menos falta de criatividade ou formulas, é que as duas foram postas de lado – mesmo quando uma ou duas músicas se destacavam nas rádios (quase sempre as baladas).

Uma pena. Nem Alice, nem Sound existem mais. Foram vitimas de seus vocalistas. Chris Cornell largou o som do jardim para viver sua carreira solo, em seguida virou o frontmen do alardeado Audioslave – que também não existe mais. Layne Staley se afundou de tal forma nas drogas, sua mudança visual e até mesmo de espírito era visível de lançamento de disco para outro, e acabou por falecer, aos 35 anos, em abril de 2002.

E é do Alice que vamos conversar um pouco a partir do próximo parágrafo. Para ser mais preciso, falaremos do seu segundo e poderoso disco: Dirt, lançado em 1992 e que adquiri de presente de natal encomendado com o meu Papai Noel (minha mãe), na loja das Americanas, no Centro de Manaus.

(Disco)nsiderados

A de Alice in Chains e seu primoroso Dirt

O que é pior: lançar um bom primeiro CD ou tentar a perfeição do segundo disco? Essa questão tem que ser resolvida por milhões de artistas que gravaram um dia. E quando o assunto é rock e temos a mesma questão levantada, a coisa vai além: pois há a tão famosa maldição do segundo disco.

Com ela vários artistas de potencial elevado são levados a crer que seu triunfo encerrou antes mesmo de começar. Se fossemos escolher uma banda que conseguiu se desvencilhar dessa tal lenda, e que por mais que falem, afirmo com veemência, nunca é lembrada por seu impressionante segundo trabalho, está e boa e velha Alice Acorrentada.

Em Dirt, nome mais perfeito impossível, já que seu som pesado se tornou mais sujo e denso como uma boa banda de rock tem que ser. O Alice foi além e mostrou que ser de Seatlle não era ser exemplo de adolescente problema, usar blusa de flanela, ter cabelos grandes e cavanhaques.

Era mostrar evolução – algo que em seu disco seguinte (Jar Of Flies) foi encarado como “eles tiraram o peso” e na verdade deveria ser encarado como “caraca é o Alice? Que bom!” – e ao mesmo tempo não largar o osso de banda mais pesada dentre as surgidas no movimento.

Se em Facelift eles começavam amassando seus tímpanos com We Die Young, aqui a coisa fica mais pesada com a pancada Them Bones. Que conta com gritos daqueles que assustam empregada doméstica “que tem fé em Deus” desde o primeiro press play.

A paulada desenfreava pelas segunda, terceira e quarta faixas – Dam That River, Rain When I Die e Sickman – até dar de encontro com uma das melhores músicas daquele ano de 92: Rooster.

Ali era possível ouvir e até mesmo sentir o que o Alice realmente tinha a oferecer.
Letra que remete a um veterano de guerra, que ficou bolado pelo fim do seu maior estímulo - Apocalypse Now seria um bom principio - e que convive com milhares de fantasmas que desejam lhe matar, em uma encruzilhada ou até mesmo em casa. Mas ao invés de a música ser atormentadora, há uma estrutura de baixo, vocais com direitos a “uhhhhhhh” e leves dedilhados de guitarra que descambam em um cenário de conflito com o passar e desdobramentos da canção.

Em seguida, sem pausa para pensar ou degustar um pouco mais de Rooster, você é arrastado para outro conflito interno e que deve refletir muito do que passava pelas cabeças de Laney e o guitarrista Jerry Cantrell, os letristas do Alice: “o que somos e o que poderemos ser ao nos tornarmos ‘rock stars’, tá tudo lá na letra de Junkhead, leia. Ou cante.

Dirt era o degrau criativo em camadas que era escalado de dois em dois pela banda: desde sua guitarra que remete ao oriente – algo nunca mais (tão bem) feito desde Kashmir do Zeppelin – ao vocal arrastado e a cozinha pesada, como sempre. E para não passar em branco, temos mais alguns conflitos de ordem psíquica dos letristas: “I’ve Tried To Hide Myself From What It’s Wrong For Me”, ou “You, you are so special. You have the talent to, make me feel like dirt. And you, you use your Talent. To dig me under, and cover me with dirt”.

Godsmack era mais uma paulada, que recebia em seqüência a companhia das não menos leves Iron Gland e a típica canção Alice in Chains com instrumentos descompassados que se unem para acabar com o seu tímpano Hate To Feel.

Mas sinceramente, nada naquele ano iria te preparar para as três músicas seguintes que surgiriam no digital do seu recém comprado aparelho de CDs: Angry Chair, Down In A Hole e Would?. Três clássicos instantâneos e que praticamente demonstram na prática a fórmula criada
pelo Grunge.

Angry Chair mostrava em uma canção que o mar não era para peixe. Traduzindo: para ser uma banda de rock pesado era preciso mostrar seus espinhos e o Alice tinha uma cadeira repleta deles, com direito a candelabros vermelhos aos pares, sombras dançando ao redor do recinto, além de um dos melhores solos e riffs da geração feita pelo mestre Cantrell.

E se Angry Chair era o petardo. Down In A Hole era a leveza nunca encontrada. Com direito a arranjos de violões, batidinhas de leve nos pratos, vocal em dupla de Cantrell e Laney e um refrão grudento. Mas, como estamos falando do peso de Seatlle, essa não é a pluma que toca o coração ou muito menos viraria o hit dos casais, era apenas o suspiro para a introdução de uma música que pode ser chamada como a mais inspirada da banda.

Would? Foi feita especialmente para a trilha do filme Single, Vida de Solteiro – de Cameron Crowe (o mesmo diretor/roteirista de Quase Famosos). Leve e pesada, com um baixo estalando e dando o compasso desde o seu início, Would? Mostra que o Alice tinha mais que um bom vocalista, tinha dois. Cantrell era o tom e Laney era o estardalhaço unido a sustentação. Música que resume uma geração toda e é cantada em uníssono por seus apreciadores.

Semana que vem outro disco deixado de lado em várias listas e que é muito bom, senão, o melhor CD do Stone Temple Pilots: Tiny Music... Songs From The Vatican Giftshop.

!!Ele conseguiu... ou: Viva La Vida or Death And All His Friends!!by Rod Castro!!

12 de ago de 2008


Para onde Chris Martin vai. Ninguém sabe dizer. Mas ao contrário do que a sua letra em “God Put a Smile Upon Your Face” afirma, a sua graça e o seu estilo, a cada dia, tira um pouco do sorriso que ele pôs em minha face ao ouvir várias vezes os seus dois incríveis discos.

Isso porque há uma grande sombra que se projeta sobre qualquer disco lançado por sua banda. Aliás, uma não, duas: U2 e Radiohead. Para ser mais preciso quatro sombras: “Achtung Baby”, “Pop”, “The Bends” e “Ok, Computer”.

E isso mais prejudica do que ajuda. É fato: a cada entrada no estúdio feita por sua banda é notável que “a homenagem a quem me influencia” já se tornou uma incrível “perseguição ao status da nova banda do milênio” e que com o passar dos anos está se transformando na “eu já cresci e quero ser o RadiU2, ou o novo U2head”.

Sei que muitos vão falar que eu estou indo para um lado que não condiz, mas é impossível ouvir duas faixas de “Viva La Vida”, no caso “42” e “Lovers In Japan-Reing Of Love”, e se fingir de surdo cultural, apenas para dizer que eles são demais! Ambas estariam em qualquer disco do Radiohead e do U2.

Isso tira o talento deles? Não. Isso faz do Coldplay “a banda (da semana?) que vai salvar o rock neste novo milênio”? Também não. Mas caramba, como um cara que aprecia e muito a obra da banda, até o momento, me questiono onde foi parar a “fórmula Coldplay de se fazer canções”?

Que muitos sempre os compararam a U2 e Radiohead, isso não é novidade. E convenhamos que ser colocado lado a lado com duas lendas do rock de uma só vez, é para se ter um sorriso estampado na face. Mas daí a chupar seu estilo e colocar o nome da sua banda no lugar da referencia, na capa do CD, é outro caso. Disco fraco, o mais fraco d Coldplay.

E para não dizerem que é obsessão minha (meu nome não é Chris), advinha quem foi o produtor de “Viva La Vida”? Brian Eno, mais conhecido como o eterno produtor de Bono e companhia. Que voltem o tempo de “Yellow”, “Clocks” e “Speed Of Sound”. Nota 6,5!

Obs.: esse artigo não foi copiado de ninguém.

!!A Trinca de ouro do Ano? Ou: como transformar blockbusters em verdadeiros filmes de arte pt. 3!! por Rod Castro

30 de jul de 2008




Há alguns anos me deparei com uma afirmação interessante que dizia que “fãs são a pior raça que existe no mundo: nunca estão satisfeitos com nada, sempre há ‘um porém’ e se você ia fazer uma adaptação de quadrinhos então, tivesse a certeza de que seria esculachado, por ‘expert’!”.

Não me lembro se foi um crítico de alguma mídia que falou isso ou se foi um diretor. Mas sendo fã, ao ler aquilo, em vez de ficar nervosinho ou ser irracional, pensei e disse, com muita humildade: era a mais pura verdade.

Lidar com alguém que necessita da sua própria criatividade para mover uma arte (o fã) – literatura principalmente – tinha seus problemas. Primeiro porque você (diretor) mostraria a sua visão daquele universo – competindo com milhões de outras visões. Segundo, porque são tantos anos de mitologia – quadrinhos então, você soma décadas e décadas – que a chance de você (diretor) cometer algum impropério quanto à saga do “meu herói favorito” era imensa.

Mas veio a adaptação de Richad Donner (final da década de 70) para o mais conhecido e amado herói de capa: “Superman, o Filme”. Ali foi criada a “fórmula” a ser seguida e que se inspirava na tese tão bem trabalhada por mestres da nona arte, como Stan Lee e Will Eisner: a identidade secreta é mais importante que o herói. Clark somos nós, Superman é quem desejamos ser.

“Superman” foi a construção do personagem, se tornando uma verdadeira aula, tanto de cinemão quanto de mitologia. Presenciávamos a explosão de Krypton; acompanhávamos seu último sobrevivente; identificávamos-nos com sua juventude “diferente de todos”; e seguíamos com ele para o meio dos leões (Metrópolis). Em pouco mais de uma hora de filme você entendia o personagem: um ET deslocado em meio a pior raça do mundo, nós ora bolas!

Dali para mostrar do que o “homem de aço” realmente era feito, foi um pulo, ou melhor: um salto que fez crianças, jovens e adultos realmente acreditarem que um homem podia voar. Depois disso, tirando os subestimados “O Corvo” e “Blade II”, o restante de filmes que tentaram seguir essa simples lição, ensinada pelo mestre Donner, de alguma forma errava e feio.

E o primeiro erro em escalas mundiais aconteceu com o herói que eu ou você poderíamos ser ao não acreditar mais no sistema e por não ter nenhum outro poder além do seu corpo, treinamento e mente: o Batman. Acho engaçado quando as pessoas dizem que o alemão Joel Schumacher estragou a série do morcego nos cinemas.

Porque Tim Burton cometeu três erros capitais nos dois primeiros filmes da série: escolheu muito mal seu Bruce Wayne – Michael Keaton não tinha condições! – ligou a origem do principal vilão do morcego a biografia de Wayne – perdendo tantas possibilidades que não vale a pena nem listar – e pior, chamou um grande astro para ser o rival – não fosse o bastante, Nicholson parece ter baseado seu trabalho na série de TV da dupla dinâmica que por aliás, era o contrário do que Burton queria para o filme.

E nem vou tecer meus comentário sobre a continuação de Burton em “O Retorno”. Tirando as cenas de Michelle Pfeiffer o resto é esquecível. Daí para o Schumacher assumir algo que já estava degringolando e ter todas as suas concepções deturpadas por engravatados que defendiam interesses de outras empresas (que tinham contrato com a linha “Batman”) - em “Batman e Robin” aquele monte de uniformes foi uma imposição de uma rede de lanchonetes Mcmundial, para servir de brindes em seu “lanche infeliz!” – foi fácil.

E é nesse momento de “eu não acredito mais em quadrinhos nos cinemas” é que eu e você voltamos atrás. Pois a primeira lição com relação a adaptações de quadrinhos na verdade não foi à fórmula pensada por Donner, partiu dos engravatados, que chamaram um diretor que comandasse bem qualquer tipo de filme e que não faria feio frente a um desafio mundial.

Assim surgiram nomes como Sam Raimi (“O Dom a Premonição”) no comando do Homem Aranha, Bryan Singer (“Os Suspeitos”) na linha de frente dos X-Men e Ang Lee (“O Tigre e o Dragão”) pilotando o “Hulk”. Nessa linha de tempo, adicionamos mais um elemento aquela equação traçada em “Superman”: bons personagens merecem bons diretores.

Nessa linha chegamos a melhor adaptação de quadrinhos para o cinema atual, “Batman Begins” (de Christopher Nolan). Que ganha seu devido reconhecimento com a chegada da obra-prima “O Cavaleiro das Trevas”.

Neste filme você conheceu Bruce em todas as suas nuances, viu o que o movia, sentiu o que sua cidade e moradores viviam nas ruas e presenciou a criação de um ícone, um símbolo que remetia a justiça e possibilidades de revanche – contra tudo e todos.

E quando você constrói um alicerce como esse, que Nolan fez, fica mais fácil construir um monumento como ele pretende ao realizar a série de Batman nas grandes telas. Mas como toda obra(-prima?) é necessário o cimento (roteiro), os tijolos (elenco) e um mestre de obra (ou um coringa?) para dar continuidade a esse grande empreendimento.

É com um sorriso de ponta a ponta da orelha (lembra alguém?) feito à navalha ou faca, afirmo que Nolan e companhia conseguiram fazer o mais perfeito filme do ano até o momento, o que deve estar fritando a língua de muita gente (como a do meu chapa, Breno Yared, por exemplo).

Sem contar que esse filme posiciona o segmento de “adaptações de quadrinhos para cinema” ao lado da nomenclatura “obra de arte”, o que resultara em muita dor de cabeça para os “gênios” de hoje em dia que “trabalham o conceito e não para a indústria”.

“Batman, O Cavaleiro das Trevas” ou: “Eu Acredito em Chris Nolan!”

“Gosto de filmes que ficam girando na sua cabeça depois de você os assistir. Sempre espero que as pessoas saiam do cinema tendo se divertido com a história, mas que também tenham ressonâncias... sei lá, que tenham idéias interessantes para pensar.” Christopher Nolan.

Após acompanharmos os primeiros dias de Batman por uma Gothan abandonada a má sorte e tendo em seu comando bandidos comuns e chefões do crime organizado, o desafio agora é outro para Bruce Wayne e o morcego em seu peito: vários cidadãos de Gotham “assumiram” a fantasia de Batman; um vilão insano (?) literalmente rouba a cena a cada aparição; a disputa pelo amor de sua vida (Rachel agora é vivida por uma atriz um trilhão de vezes superior, Maggie Gyllenhaal) com outro personagem que também será seu aliado nessa nova etapa (Harvey Dent); e o pior, como se olhassem no espelho, ele encara o reflexo de uma personalidade que ele mesmo poderia ter assumido, senão tivesse tomado conta da situação em “Begins” – em uma cena que relembra a excelente história em quadrinhos “A Piada Mortal” de Alan Moore.

E aqui entra não o dedo de Nolan – e seus colaboradores, o redator de gibis David S. Goyer e o seu irmão roteirista de “Amnésia” e “O Grande Truque”, Jonathan – mas a sua privilegiada cabeça para montar um verdadeiro jogo de gato e rato que há tempos o cinema não assistia.

Ao mesmo instante presenciamos o surgimento de um ícone do cinema moderno, uma experiência verdadeiramente feita e pensada para ser vivida com a loucura e a tensão que o personagem sempre foi realizado nos quadrinhos – com direito um violino incomodo que remete as trilhas “friamente raciocinadas” de Hitchcock.

Esse personagem é o Coringa de Ledger que é: perturbador, magnético, estranhamente engraçado, de espírito pecador e, estrategicamente manipulador ao mesmo tempo em que é inteligente ao macabro. Sua presença na tela eclipsa qualquer outro personagem – não pelos exageros Jack! – mas porque a cada passada de língua em sua boca rasgada, pressupõem um ataque e uma atitude impensada – como ele declara sua filosofia ao citar o “cachorro que corre atrás do carro, mas não sabe o que fazer, caso o carro pare”.

É com esse estilo “real” de se fazer adaptações, com cenas de assalto criativas, criação de novos e estilosos vilões e até mesmo de construir uma estrutura clássica de cinema pensante para “um público-avo” que só consome baboseiras, é que o “Cavaleiro das Trevas” rouba a cena.

E não pense que não escrevi mais porque é somente isso. Há mais, mas cinema foi feito para ser visto, não lido – como um filósofo da internet me recomendou, dia desses. Mas é uma pena que Ledger não esteja vivo para ver o temor nos olhos dos espectadores, a cada risada e olhar ameaçador traçado por ele nesse papel.

Aliás chega a ser uma piada de mal gosto do destino para com um ator que já deveria ter recebido seu reconhecimento – pelo belo trabalho em “O Segredo de Brokeback Mountain”. Nota 10 (Sem duas - caras ou piadinhas).

Obs.: você notou que a cena em que Batman segura o Coringa por um cabo, eles ficam inversamente proporcionais na tela? O que lembra a figura de um rei na carta do baralho e mque a mesma imagem fica posicionada ao inverso. Afirmando que amobs fazem parte da mesma moeda, mas pertencem a lados diferentes (um se tornou um sociopata e outro um potencial psicopata). Mais interessante ainda é ver que na mesma seqüência, mesmo de cabeça para baixo, Nolan inverte a câmera até que os dois fiquem "frente a frente" e se encarem, como um reflexo distorcido de sua figura. Isso meu amigo é arte.