!!É tão bom voltar triunfante... ou: 'O Vencedor'” Por Rod Castro!

17 de fev de 2011

Parabéns. Essa é a primeira palavra dita a três pessoas envolvidas com o projeto chamado “O Vencedor”. As três, por ordem de importância são: David O. Russel, Christian Bale e Amy Adams.

Russel, que já fez dois filmes interessantes bem acima da média, comédias inteligentes e que merecem indicações aqui do A Sétima - “Procurando Encrenca” (de 1996) e “Três Reis” de 1999 - acertou a mão mais uma vez. Mas surpreendeu por sair de um território dominado – o do cômico – para abordar o drama com tons de Neo-Realismo que orgulharia os mestres Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Roberto Rossellini.

Sua câmera registra, sem ter o compromisso de se fixar ou ao menos parecer ter obedecido uma marcação. Desde o primeiro take, em que é registrado um depoimento feito pelos personagens principais, passando pela sequência em que eles asfaltam algumas ruas e por último, os acompanhando ao descer uma importante rua de seu bairro e interagindo com os moradores “reais” do local, a liberdade dada transparece a fuga do segmento drama clássico.

Outro acerto de Russel está na condução de sua história e na condução de seus personagens. Nas duas situações ele se espelha no estilo empregado para registrar o filme: naturalidade e liberdade, tanto de movimentação quanto de tempo.

Assim, não temos a típica cena de treino dentro de um ginásio. Ela ocorre, na hora certa, no meio das ruas, com a participação dos transeuntes. Nada de uma família funcional que apóia seu vencedor, ela é mais um obstáculo para que ele se torne um campeão de sua categoria. Também não temos a companheira funcional e muito menos trilha crescendo ao redor dos momentos dramáticos.

E para mostrar que Russel acredita em seu trabalho, dá mais importância para o que ocorre fora do ringue do que dentro e o momento mais “especial” da história, quando seu personagem sagra-se campeão, ele transforma a luta em algo secundário.

Christian Bale, já fez personagens que impressionam. Tanto pelas suas características e histórias, chegando até a transformação que o ator se propõe a sofrer, para que a caracterização se torne perfeita.

Foi assim com o seu repórter com tendências homossexuais em “Velvet Goldmine”, seu psicopata de musculatura performática em “Psicopata Americano”, seu “guerreiro medieval futurista” no subestimado “Reino de Fogo”, o esquelético paranóico de “O Operário” e as duas versões completamente diferentes de Bob Dylan em “Não Estou Lá”.

Não seria diferente agora. Inicialmente o seu papel de irmão mais velho (Dick Englund) que já foi um vencedor no boxe, mas que foi derrotado pelas drogas – o vício do crack – não impressiona, pelo contrário, trás um ranço de exagero. Mas com o passar do filme, a construção feita é perfeita. Bale rouba toda e qualquer cena em que esteja presente e seu personagem totalmente falho nocauteia o público.

Impressiona mais ainda ao final do filme quando vimos o verdadeiro Dicky em ação. É um competidor forte em qualquer competição artística na categoria de ator coadjuvante, levou peia no Bafta, mas se consolidou no Globo de Ouro. Será o seu primeiro Oscar? Esperemos.

Detalhe: interessante, mais uma vez, o ator que marca a tela junto ao público maior do cinema, ao encarnar nada menos que Bruce Wayne/Batman, desaparece imageticamente e até personificadamente. Mais mérito que isso?

Amy Adams é jovial, linda e até excêntrica. Remete a uma pureza necessária para os eternos papéis de moca legal de uma comédia romântica. Pois ela encarna com maestria o seu oposto em todos os quesitos. E o sentido de realidade utilizado por todo o filme não escapa de sua personagem que além de se vestir mal, chamar palavrões por tudo, ter uma independência física amorosa e ser uma das poucas pessoas a encarar a mãe (Melissa Leo) do Vencedor (Mark Whalberg) e seu irmão ex-boxer (Bale), está visivelmente fora de forma – o que de certa forma até choca os espectadores que sempre idealizam a mulher do herói.

Suas cenas, na maioria das ocasiões, são o alívio cômico do filme. Mas sem ser gratuito, nada em cima de algo já pensado, são ações naturais do desenvolvimento da história – como na hora em que ela sai na mão com as sete irmãs de seu namorado, arrebentando a cara de uma delas.

Como então, um filme que passa raspando por três “gêneros”- como o do boxe, o do drama familiar e o das drogas - consegue se diferenciar de todos eles, sem apelar para algo recorrente e ao mesmo tempo, ao subir dos créditos, triunfar? Simples: risco.

E esse risco que muitos sempre tanto valorizam e acabam não correndo é o maior acerto por parte de quem comprou esse desafio de levar as telas um filme tão bom como este “O Vencedor”. Imperdível, nota 9,0.

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