“Cisne Negro” de Darren Aronofsky

15 de fev de 2011

Há quase uma semana, revi “Cisne Negro”. A primeira vez foi em casa, em uma cópia passada pelo meu primo que havia descido o filme da internet. Como eu tinha certeza que o mesmo não passaria nas salas locais, afinal, nenhum filme de Aronofsky havia passado, resolvi assisti-lo numa manhã de sábado.

O filme termina e um sorriso paira sobre meus lábios. A primeira conclusão: ele fez um filme de terror, horripilantemente perfeito.

Na segunda vez que vi o filme, outra conclusão, esta mais centrada na observação entre o enredo e o estilo com que Darren produziu o filme: ele misturou o aspecto psicológico e até a fotografia de “Persona”, de Ingmar Bergman, com o seu primeiro trabalho, o transtornado “Pi”.

Esta segunda conclusão não vai de encontro a primeira, ao contrário a endossa. Afinal, “Pi” é um filme de terror, ou não?

Mas para explicar o que vi em “Cisne Negro” a melhor forma de contar essas observações é dividindo este artigo em três partes: “Persona”, “fotografia” e “atuações”.

“Persona”

Este é o melhor filme que vi do mestre sueco Ingmar Bergman. Nele é trabalhado o tema dupla personalidade de uma forma única: uma mulher passa por um trauma, isola-se em uma ilha para ser tratada por uma enfermeira. Com cenas muito bem tramadas – repletas de reflexos em espelhos e vidros, assim como imagens milimetricamente realizadas para as duas personagens ficarem sobrepostas – Bergman mostra como o nosso Ego é capaz de suprir a necessidade até de outra pessoa, para a resolução de um problema que o Id não tem forcas para solucionar.

É impossível assistir ao “Cisne Negro” e não se lembrar de “Persona”. Aronofsky se utiliza infinitamente de espelhos, às vezes multifacetados, como a imagem que você dever ter cansado de ver por aí – aquele espelho que está na sala da casa da mãe de Nina (Natalie Portman) – e às vezes até multiplica a imagem de Nina, como em uma cena vital para percebermos o que rola na cabeça de sua personagem.

A diferença na trama reside na necessidade de Nina em se apoiar em outras personagens femininas para criar o seu novo eu – ela é chamada para fazer o papel principal, duplo, de O Lago dos Cisnes: começa pela sua mãe (Superego?), ex-bailarina e agora pintora, que a trata como uma criança; depois pela personagem da ex-principal estrela de sua companhia de balé, a esquentada e dramática ao extremo, Beth Macintyre (Wynona Rider); e chega a uma obsessão doentia e até mesmo sexual, assim como no filme de Bergman, com a novata Lilly (Mila Kunis se estabelecendo como uma atriz versátil, além de linda).

Não há a mais no trabalho de Darren. Pelo contrário, acho que de certa forma ele foi feliz em dois fatores, que passam próximo do que Nolan está fazendo hoje em dia: produziu um filme que precisa de observação e participação mental do espectador e o vendeu como um filme segmentado ou de gênero, como alguns preferem, trazendo o mais variado público, boa parte nem conhece os trabalhos anteriores do diretor.

O trailer – a idéia mais próxima de venda de um filme - foi feito sob medida para parecer somente mais um filme de terror. Não o é, mas também não explora as maiores facetas do personagem como Bergman o fez. Não é um demérito, mas é algo a se pensar.

“Fotografia”

Somente um filme supera o trabalho de câmera realizado em “Cisne Negro”: o de “Bravura Indômita” – do mestre Roger Deakins, o mesmo de “O Assassinato de Jesse James”, “O Homem Que Não Estava Lá” e “Soldado Anônimo”. Tirando este, o de “Cisne Negro”, feito por Matthew Libatique – o mesmo de “Pi”, “Homem de Ferro” e “Fonte da Vida” – beira a perfeição.

Filmar com câmera na mão um espetáculo de balé, rodeando os bailarinos e manter o foco ao mesmo tempo em que registra a dramaticidade, retratando o que realmente interessa ao diretor e ao espectador, é de se aplaudir. Mas o momento que a fotografia de “Cisne Negro” salta aos olhos são os ensaios.As dezenas de espelhos ao redor dos atores, que tem a preocupação de interpretar e de se posicionarem corretamente em cena, são mostrados sem ao menos notarmos o reflexo do operador de câmera – não sei se foi realizado algum efeito que apagasse tal presença, senão o foi, merece mais aplausos o que fez Libatique.

Há outro aspecto interessante na formatação do estilo mostrado em cena: a câmera de mão ou ombro, como alguns retrataram. Não muito comum nos três primeiros trabalhos de Aronofsky, que de alguma forma seguiam a tendência acadêmica e clássica de filmar, mas usado e abusado em seu trabalho anterior: “O Lutador”.

Aliás, o paralelo entre o personagem de Rourke e de Portman é mais que acertado e passa pelos desafios, pressão, doença, sacrifício final, até chegar a fotografia, mais íntima, que segue o personagem principal por diversos locais, físicos ou mentais.

“Elenco”

Apesar de fazer outro filme focado em um personagem principal, como no já citado “O Lutador”, Aronofsky, mais uma vez, acerta ao escolher seus coadjuvantes e a ter em mãos um elenco tão numeroso, que permite manobras dramáticas deveras interessantes.

Os coadjuvantes ajudam Portman ao mesmo tempo em que a desafiam. O que parece mais se divertir é o francês, marido da beldade Monica Belluci, Vicent Cassel. Como Thomas, o dono da companhia de balé que montará o espetáculo, ele trabalha os olhares e trejeitos necessários e que passam veracidade aos bastidores do balé.

A já citada Mila Kunis se mostra mais que um belo rosto, algo que já tinha feito ano passado em “O Livro de Eli”. Sua Lilly é uma despojada atuação que chama atenção e transtorna, ao mesmo tempo em que conquista, Nina. Seus olhares de sedução e total despretensão com o comprometimento habitual de um bailarino traz o espectador para dentro do filme.

Duas outras atrizes, com poucas cenas, mas que rendem de forma interessante é a sumida Wynona Rider e Barbara Hershey. A presença de ambas reforça o turbilhão de impressões verdadeiras e imaginarias de Nina em um momento inspirado de Natalie.

Por último, Natalie Portman. Você que acompanha aqui o A Sétima, sabe o quanto tenho antipatia pela Portman. Cheguei a apelidá-la de “InsuPortman”. Mas seu trabalho é bem acima da média, que ela mesma já o faz.

Sua Nina infantil dá espaço a uma adolescente, que se transforma em uma mulher, até se tornar uma vilã de primeira grandeza. Aliás, quando a transformação ocorre e ela mata a pureza daquela personagem perdida, aprisionada por hábitos e que sofria uma grande repressão por parte de sua mãe é que se nota a grandeza do trabalho dela.

Muda-se o olhar e a expressão corporal. E o Cisne Negro finalmente surge. Perfeita, como ela mesma diz ao encerrar o filme.

Um excelente filme, não é o melhor de Aronofsky. Acho que "O Lutador" e "Réquiem por um Sonho" ainda o superam, mas é mais um com qualidades de um grande. Nota 9,0.

5 comentários:

Breno Yared Pinto disse...

Muito legal a sacada do Persona, Rodrigo. Acho que faz uns 10 anos que vi o filme do Bargman - nem lembro mais de muita coisa - que nem associei ao do Darren. E apasar de ser um elemento dramático importante ao filme, como sempre, o Darren exagera e até banaliza-o em vários momentos. Ainda assim gostei muito de "Cisne Negro".

E de jeito nenhum eu assistiria-o antes em cópia da net. O filme já tinha data marcada de estreia no Brasil. Esperaria até ter certeza de que não chegaria nos cinemas daqui.

Rod Castro disse...

É mas essa garantia me fez ver o "Fonte da Vida" com quase 07 meses d ediferença. Assim como "O Lutador", que eu peguei porque não havia como ver no cinema. Lembrando o que já falei no texto: este é o primeiro filme do Darren a passar em cinemas locais.

Essa é outra boa sacada dele ao ter chamado a Natalie, que é uma atriz reconhecida...

Rod Castro disse...

E bicho, vou dar uma polemizada por aqui: creio que o melhor filme que vi - falta o "Discurso do Rei" - dentre todos esses indicados ao Oscar desse ano, pra mim, o melhor é a regravação de "Bravura indômita" dos Coen.

Melhor até que o "Rede Social".

manjaro disse...

Acho que ele abusa de artifícios de gênero. Nem todas as alucinações precisavam de um santo efeito sonoro ou uma trilha que me dizendo o que eu devo sentir, mas é só um ponto de vista né.
Tirando isso o filme é FANTÁSTICO. Ainda não vi Bravura Indômita ou Discurso do rei, torcia por Social Network ganhar o oscar até assistir esse.
Ganhou minha torcida, meu filme favorito de 2010.

Rod Castro disse...

Acho que o abuso é proposital mesmo Manjaro. É o chega mais de Darren no público mais diverso saca? Como o próprio Nolan o vem fazendo.

Acho que os grandes diretores dos tempos modernos estão assinando em baixo algo que eu já falo há um certo tempo: é impossível que um artista não queira ter seu trabalho reconhecido.

Acho um bom filme, mas penso que Bravura seja melhor.