Bundas, a salvação do brasileiro. (by Alexandre Santana)

27 de abr de 2007


Pra não mexer na poupança, Romualdo precisou vender sua Bundas.

Calma, que eu explico: Romualdo tava numa pendura daquelas. Bicho-Grilo típico, dos que nunca terminam o curso na Federal e gastam com goró e sacanagem toda a (pouca) grana que ganham, viu-se sem um vintém pra pagar o aluguel de seu muquifo - que já tava bem atrasado. Revira daqui, baculeja dali, Romualdo encontrou um monte de livros velhos e uma tornozeleira de ouro, que uma vagaba qualquer perdera por lá.

Vendeu os livros pro sebo e pôs a tornozeleira no prego. Mas recebeu como paga uma merreca, que mal limpava os juros das contas vencidas.

Daí Romualdo resolveu radicalizar: apelou para sua caixa de "tesouros". Por tesouros, leia-se aquele lixo supostamente cultural que todo intelectual-indie-neo-comunista-blasé junta só pra criar mofo, até esquecer que existe, mas que se alguém pedir emprestado eles não liberam nem sob tortura. Encontrou uns bolachões acabados do Raulzito, uns fanzines do Cucos e... Tchã-rã! O primeiro exemplar da revista Bundas.

Aqui cabe um parêntese: Bundas foi aquela revista que o Ziraldo lançou em 99 (ou 2000, vai lembrar) . Era uma espécie de Pasquim depois da plástica (bem-sucedida, aliás: a leitura ficou mais gostosa em todos os sentidos). A Bundas era mesmo um desbunde. Uma rebolada de humor, redondinha em suas críticas sacanas (a começar pelo título, óbvia provocação com a "Caras"). Infelizmente, apesar de tanta gente boa segurando (o próprio Ziraldo, Jô, Millor, Jaguar, Veríssimo, Chico e Paulo Caruso, Miguel Paiva, Angeli...), a Bundas caiu. Mas até hoje é artigo de luxo entre colecionadores - especialmente o exemplar nº 1, que esgotou nas bancas em pouco mais de uma semana.

Justamente o exemplar que Romualdo tinha em casa. E fecha parênteses.

Catando na internet, Romualdo rapidinho achou um doido que pagava até 100 paus por Bundas (ôpa!) em bom estado. Daí o liso não se fez de rogado: apesar de lamentar por sua Bundas quase sem uso, vendeu-a sem dó nem piedade (pra sair do aperreio, vale tudo). Catou a grana, emprestou o que restava e pagou o aluguel que devia, sem precisar apelar para sua minguada poupança (no bom sentido).

Moral da História nº 1: Sim, é possível vender Bundas mantendo a dignidade.

Moral da História nº 2: Independente das circunstâncias, todos reconhecem o ótimo desempenho de nossa preferência nacional no mercado financeiro. Tá cheio de brasileiro por aí tendo que vender bundas pra sobreviver.

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