!!A Trinca de ouro do Ano? Ou: como transformar blockbusters em verdadeiros filmes de arte pt. 3!! por Rod Castro

30 de jul de 2008




Há alguns anos me deparei com uma afirmação interessante que dizia que “fãs são a pior raça que existe no mundo: nunca estão satisfeitos com nada, sempre há ‘um porém’ e se você ia fazer uma adaptação de quadrinhos então, tivesse a certeza de que seria esculachado, por ‘expert’!”.

Não me lembro se foi um crítico de alguma mídia que falou isso ou se foi um diretor. Mas sendo fã, ao ler aquilo, em vez de ficar nervosinho ou ser irracional, pensei e disse, com muita humildade: era a mais pura verdade.

Lidar com alguém que necessita da sua própria criatividade para mover uma arte (o fã) – literatura principalmente – tinha seus problemas. Primeiro porque você (diretor) mostraria a sua visão daquele universo – competindo com milhões de outras visões. Segundo, porque são tantos anos de mitologia – quadrinhos então, você soma décadas e décadas – que a chance de você (diretor) cometer algum impropério quanto à saga do “meu herói favorito” era imensa.

Mas veio a adaptação de Richad Donner (final da década de 70) para o mais conhecido e amado herói de capa: “Superman, o Filme”. Ali foi criada a “fórmula” a ser seguida e que se inspirava na tese tão bem trabalhada por mestres da nona arte, como Stan Lee e Will Eisner: a identidade secreta é mais importante que o herói. Clark somos nós, Superman é quem desejamos ser.

“Superman” foi a construção do personagem, se tornando uma verdadeira aula, tanto de cinemão quanto de mitologia. Presenciávamos a explosão de Krypton; acompanhávamos seu último sobrevivente; identificávamos-nos com sua juventude “diferente de todos”; e seguíamos com ele para o meio dos leões (Metrópolis). Em pouco mais de uma hora de filme você entendia o personagem: um ET deslocado em meio a pior raça do mundo, nós ora bolas!

Dali para mostrar do que o “homem de aço” realmente era feito, foi um pulo, ou melhor: um salto que fez crianças, jovens e adultos realmente acreditarem que um homem podia voar. Depois disso, tirando os subestimados “O Corvo” e “Blade II”, o restante de filmes que tentaram seguir essa simples lição, ensinada pelo mestre Donner, de alguma forma errava e feio.

E o primeiro erro em escalas mundiais aconteceu com o herói que eu ou você poderíamos ser ao não acreditar mais no sistema e por não ter nenhum outro poder além do seu corpo, treinamento e mente: o Batman. Acho engaçado quando as pessoas dizem que o alemão Joel Schumacher estragou a série do morcego nos cinemas.

Porque Tim Burton cometeu três erros capitais nos dois primeiros filmes da série: escolheu muito mal seu Bruce Wayne – Michael Keaton não tinha condições! – ligou a origem do principal vilão do morcego a biografia de Wayne – perdendo tantas possibilidades que não vale a pena nem listar – e pior, chamou um grande astro para ser o rival – não fosse o bastante, Nicholson parece ter baseado seu trabalho na série de TV da dupla dinâmica que por aliás, era o contrário do que Burton queria para o filme.

E nem vou tecer meus comentário sobre a continuação de Burton em “O Retorno”. Tirando as cenas de Michelle Pfeiffer o resto é esquecível. Daí para o Schumacher assumir algo que já estava degringolando e ter todas as suas concepções deturpadas por engravatados que defendiam interesses de outras empresas (que tinham contrato com a linha “Batman”) - em “Batman e Robin” aquele monte de uniformes foi uma imposição de uma rede de lanchonetes Mcmundial, para servir de brindes em seu “lanche infeliz!” – foi fácil.

E é nesse momento de “eu não acredito mais em quadrinhos nos cinemas” é que eu e você voltamos atrás. Pois a primeira lição com relação a adaptações de quadrinhos na verdade não foi à fórmula pensada por Donner, partiu dos engravatados, que chamaram um diretor que comandasse bem qualquer tipo de filme e que não faria feio frente a um desafio mundial.

Assim surgiram nomes como Sam Raimi (“O Dom a Premonição”) no comando do Homem Aranha, Bryan Singer (“Os Suspeitos”) na linha de frente dos X-Men e Ang Lee (“O Tigre e o Dragão”) pilotando o “Hulk”. Nessa linha de tempo, adicionamos mais um elemento aquela equação traçada em “Superman”: bons personagens merecem bons diretores.

Nessa linha chegamos a melhor adaptação de quadrinhos para o cinema atual, “Batman Begins” (de Christopher Nolan). Que ganha seu devido reconhecimento com a chegada da obra-prima “O Cavaleiro das Trevas”.

Neste filme você conheceu Bruce em todas as suas nuances, viu o que o movia, sentiu o que sua cidade e moradores viviam nas ruas e presenciou a criação de um ícone, um símbolo que remetia a justiça e possibilidades de revanche – contra tudo e todos.

E quando você constrói um alicerce como esse, que Nolan fez, fica mais fácil construir um monumento como ele pretende ao realizar a série de Batman nas grandes telas. Mas como toda obra(-prima?) é necessário o cimento (roteiro), os tijolos (elenco) e um mestre de obra (ou um coringa?) para dar continuidade a esse grande empreendimento.

É com um sorriso de ponta a ponta da orelha (lembra alguém?) feito à navalha ou faca, afirmo que Nolan e companhia conseguiram fazer o mais perfeito filme do ano até o momento, o que deve estar fritando a língua de muita gente (como a do meu chapa, Breno Yared, por exemplo).

Sem contar que esse filme posiciona o segmento de “adaptações de quadrinhos para cinema” ao lado da nomenclatura “obra de arte”, o que resultara em muita dor de cabeça para os “gênios” de hoje em dia que “trabalham o conceito e não para a indústria”.

“Batman, O Cavaleiro das Trevas” ou: “Eu Acredito em Chris Nolan!”

“Gosto de filmes que ficam girando na sua cabeça depois de você os assistir. Sempre espero que as pessoas saiam do cinema tendo se divertido com a história, mas que também tenham ressonâncias... sei lá, que tenham idéias interessantes para pensar.” Christopher Nolan.

Após acompanharmos os primeiros dias de Batman por uma Gothan abandonada a má sorte e tendo em seu comando bandidos comuns e chefões do crime organizado, o desafio agora é outro para Bruce Wayne e o morcego em seu peito: vários cidadãos de Gotham “assumiram” a fantasia de Batman; um vilão insano (?) literalmente rouba a cena a cada aparição; a disputa pelo amor de sua vida (Rachel agora é vivida por uma atriz um trilhão de vezes superior, Maggie Gyllenhaal) com outro personagem que também será seu aliado nessa nova etapa (Harvey Dent); e o pior, como se olhassem no espelho, ele encara o reflexo de uma personalidade que ele mesmo poderia ter assumido, senão tivesse tomado conta da situação em “Begins” – em uma cena que relembra a excelente história em quadrinhos “A Piada Mortal” de Alan Moore.

E aqui entra não o dedo de Nolan – e seus colaboradores, o redator de gibis David S. Goyer e o seu irmão roteirista de “Amnésia” e “O Grande Truque”, Jonathan – mas a sua privilegiada cabeça para montar um verdadeiro jogo de gato e rato que há tempos o cinema não assistia.

Ao mesmo instante presenciamos o surgimento de um ícone do cinema moderno, uma experiência verdadeiramente feita e pensada para ser vivida com a loucura e a tensão que o personagem sempre foi realizado nos quadrinhos – com direito um violino incomodo que remete as trilhas “friamente raciocinadas” de Hitchcock.

Esse personagem é o Coringa de Ledger que é: perturbador, magnético, estranhamente engraçado, de espírito pecador e, estrategicamente manipulador ao mesmo tempo em que é inteligente ao macabro. Sua presença na tela eclipsa qualquer outro personagem – não pelos exageros Jack! – mas porque a cada passada de língua em sua boca rasgada, pressupõem um ataque e uma atitude impensada – como ele declara sua filosofia ao citar o “cachorro que corre atrás do carro, mas não sabe o que fazer, caso o carro pare”.

É com esse estilo “real” de se fazer adaptações, com cenas de assalto criativas, criação de novos e estilosos vilões e até mesmo de construir uma estrutura clássica de cinema pensante para “um público-avo” que só consome baboseiras, é que o “Cavaleiro das Trevas” rouba a cena.

E não pense que não escrevi mais porque é somente isso. Há mais, mas cinema foi feito para ser visto, não lido – como um filósofo da internet me recomendou, dia desses. Mas é uma pena que Ledger não esteja vivo para ver o temor nos olhos dos espectadores, a cada risada e olhar ameaçador traçado por ele nesse papel.

Aliás chega a ser uma piada de mal gosto do destino para com um ator que já deveria ter recebido seu reconhecimento – pelo belo trabalho em “O Segredo de Brokeback Mountain”. Nota 10 (Sem duas - caras ou piadinhas).

Obs.: você notou que a cena em que Batman segura o Coringa por um cabo, eles ficam inversamente proporcionais na tela? O que lembra a figura de um rei na carta do baralho e mque a mesma imagem fica posicionada ao inverso. Afirmando que amobs fazem parte da mesma moeda, mas pertencem a lados diferentes (um se tornou um sociopata e outro um potencial psicopata). Mais interessante ainda é ver que na mesma seqüência, mesmo de cabeça para baixo, Nolan inverte a câmera até que os dois fiquem "frente a frente" e se encarem, como um reflexo distorcido de sua figura. Isso meu amigo é arte.

Um comentário:

rafinha disse...

Ei, sei que ce me julga preguiçoso mas, eu sabia que ia valer a pena esperar para ler, e depois de muitos parágrafos dizer que me deliciei com seu texto sobre o filme.

E, engraçado é porque mesmo com essa comoção toda pela morte de Ledger, muitos que o não conheciam viraram fãs. Eu, e sei que você também, já sabia que Heath ia conseguir receber exatamente o que você falou dos espectadores ao vê-lo nas telas.