!! A Trinca de ouro do Ano? Ou: como transformar blockbusters em verdadeiros filmes de arte pt.2!! por Rod Castro

28 de jul de 2008

Ao contrário do que falei no post anterior, não farei ainda um artigo a respeito do excelente “Batman, O Cavaleiro das Trevas”. Ainda irei assisti-lo mais uma vez para tecer meus comentários. Falaremos de outro elemento que complementa essa trinca de melhores filmes do ano, até o momento.

Elemento não, uma equipe. A Pixar nasceu nos cantinhos dedicados aos “esquisitos” dentro dos estúdios Disney. Explico: enquanto o mundo ainda respirava desenhos o estilo clássico – o jeito Disney de se fazer – em um cantinho do vasto estúdio, alguns nerds que se encantavam por tecnologia, tentavam o diferente e usavam computadores e programas que davam vida a projetos dedicados a animação.

O resultado foi mostrando bons resultados pouco a pouco. Mas ali foi feita a lição de casa que é: crianças não são bobas e muito menos vão sozinhas aos cinemas. É preciso mais que um lindo desenho ou efeitos especiais para que o encanto se transforme em um marco.

Assim eles se dedicavam a montar roteiros bem feitos e amarrados (uma base de três anos para cada). Que contavam histórias não somente para os pequenos, mas para os seus pais – a diversão tinha que ser completa. E acabaram por transformar a exceção em base para o futuro da animação mundial.

Essa pequena biografia da Pixar não é diferente da que contei ao falar de Julie Taymor e Christopher Nolan. Os “gênios” da Pixar ralaram muito, apostaram e subiram os mesmos degraus até se tornarem, para nós reles mortais, a verdadeira “Disney” do século 21 – e sem eles esse grande estúdio de animação entra na sala de U.T.I. e com grandes chances de não conseguir respirar nem com ajuda de aparelhos.

Tirando a Pixar, hoje, apenas três estúdios têm maiores destaques: o Estúdio Ghibli, do mestre Hayao Miyazaki (“O Castelo Animado e A Viagem de Chihiro”), o Blue Sky, que tem como um de seus líderes o brasileiro Carlos Saldanha (“A Era do Gelo”) e o PDI/Dreamworks, liderada pelo excêntrico Jeffrey Katzenberg (de “Formiguinha Z e Kung-Fu Panda”).
E não é que os renegados se tornaram os maiorais e fizeram dois dos melhores filmes feitos nesse século: “Os Incríveis” e o sensacional “Ratatouille”? O primeiro uma clara homenagem aos quadrinhos (“Watchmen e Quarteto Fantástico”), já o segundo uma obra-prima - nada de “pequena obra-prima”, grande, engraçada e clássica.
“Wall-e” - é com esse patamar que a Pixar consegue subir ao posto de melhor animadora em 3D que já existiu, com o excelente filme do robozinho que busca o amor. A primeira impressão que tive do filme, foi de que estava a minha frente um personagem que lembrava outros dois ícones do cinema: Carlitos (de Chaplin) e E.T (de Steven Spielberg). E compará-lo a ambos, não demérito pela inspiração, é uma sacada que somente as pessoas desse estúdio podiam fazer.
Não é qualquer filme hoje em dia que se dá o direito de ficar praticamente 30 minutos sem uma fala – aliás, vale lembrar que muitos disseram, após assistirem as sessões-testes, que duvidavam que as crianças não ficassem chateadas de o personagem principal não falar.

Não é qualquer estúdio “infantil” que investe em mostrar um planeta Terra desolado, poluído, repleto de tempestades e conseqüências dos maus tratos feitos pelos seus moradores – será que essa não é uma forma mais inteligente de mostrar o que está havendo com o planeta, M. Night Shyamalan?

Mas “Wall-e” é bem mais do que a superfície mostra, do que a técnica demonstra ou até do que uma simples lufada de vento criativo - que não espanta (abraços Shy!).

O filme tem referencias ao cinema no espaço - os cenários da nave lembram “THX” (de George Lucas), as linhas automáticas e pessoas que não raciocinam apenas cumprem o que deve ser feito de “Metrópolis” (de Fritz Lang), o balé no espaço e a anarquia do piloto automático tirados de “2001, uma Odisséia no Espaço” (de Stanley Kubrick), a nave injetável de “Alien” (de Ridley Scott) – que homenageiam não só ao gênero como reafirmam a idéia base que moveu cada filme citado: a insegurança e a negatividade que o futuro (será que já não seria o presente?) nos reserva.

Mas há um toque a mais em “Wall-e” e que me deixou cabisbaixo, como ser humano: como pode alguém “sem vida” ou alma (o robozinho) desejar tanto conhecer outros seres – colecionando objetos alheios e sonhando acordado com uma companheira – ao mesmo tempo em que milhões de outros que possuem tal possibilidade abdicam-na pelo comodismo e pela rotina que nos faz cada vez menos sociais - como na cena em que duas pessoas conversam lado a lado pela tela, mas nem ao menos notam que uma está ao lado da outra.

Ali está o grande papel do filme, não apenas divertir, mas passar aos futuros adultos e idosos – filhos e pais – o quão distante estamos de nos tornar verdadeiramente civilizados.

É dureza enfrentar algo imensamente pesado e pessimista em um filme de “crianças”? Nada, esse é o jeito Pixar de se fazer bons filmes: diversão sim, burrice não; efeitos e realismo? Com certeza, mas o principal ainda é a história e o contexto. E para quem sempre afirma que não vê filme de arte um aviso: ao subir as letrinhas desse filmão, você vai ter visto um fidedigno exemplar da arte de se fazer cinema. Nota 9,5.

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