!!Os esquecidos do Oscar, ou: “A Estrada” e “Onde Vivem os Monstros”!! por Rod Castro!

3 de mar de 2010

Que o Oscar é uma cerimônia voltada para o próprio umbigo da indústria que mantém Hollywood de pé, você já deve saber ou ter se questionado sobre tal afirmação. Mas o que realmente faz alguém pensar assim a poucos dias de mais uma festa do “cinema mundial”?

As razoes são diversas, mas na maioria das vezes é elevada as mentes questionadoras principalmente por dois fatores: os filmes fora de Hollywood – ou melhor, fora EUA – passam quase sempre em branco, ou são no máximo lembrados com uma indicaçãozinha aqui outra acolá; a segunda: a injustiça com filmes realmente bons, que não tiveram seus marketings tão bem trabalhados, mas que possuem histórias e até mesmo técnicas melhores.

E aí você me pergunta: tá, fala o nome de um cineasta fora Hollywood que vem fazendo excelentes trabalhos longe dessa indústria “dos sonhos”. E aí eu respondo: só um mesmo? Têm tantos. Mas vamos lá: Chan-Wook Park. O diretor coreano que mais produz em seu país nunca em qualquer momento teve presença em premiações dentro dos EUA.

E seu talento não merece nenhum questionamento. Que diretor americano, tirando Michael Mann e Christopher Nolan – já que Woody Allen se afastou por completo dos EUA – possui uma sequência de bons filmes, alguns até obras-prima, como o coreano possui. Quem tem em seu currículo obras como: “Mr. Vingança”, “Lady Vingança”, “Oldboy”, “Zona de Conflito” e o recém magistral filme de vampiro “Sede de Sangue”?

Mas isto denigre a premiação deste ano? Não, já é costumeiro. Mas o que realmente levanta um questionamento quanto a classificação usada pelos votantes do Oscar na escolha dos filmes que devem ser premiados é quando se nota que a própria indústria vira as costas para filmes exemplares – se bobear o melhor trabalho de ambos – como o excelente “Inimigos Públicos e O Grande Truque”, dos já citados diretores, ano, após ano.

Este ano parece não ser tão diferente dos outros já que o muito bom “Onde Vivem os Monstros” de Spike Jonze (o mesmo de “Quero Ser John Malkovich e Adaptação”) e o excelente “A Estrada” não se apresentam em nenhuma das mais importantes categorias da premiação.

Mas em vez de nos lamentarmos, que tal enaltecermos? Confira os breves artigos abaixo sobre esses filmes, que infelizmente não chegaram à Manaus (sim, eu sei que o segundo passou no nosso Festival de Cinema e até premiado o foi, mas quantos o viram?).

“A Estrada”: Filmes catástrofes se prendem a belos efeitos que justifiquem o terror durante a exibição da película. Mas como o mestre do suspense (Hitchcock) uma vez tão bem falou: mostre pouco e o terror, o medo, estará mais presente e vivo na mente de quem sempre teve imaginação – tá, não foi assim, mas este era o espírito. Esta fórmula pouco seguida em Hollywood foi à melhor arma do diretor John Hillcoat.

Um belo dia, ou melhor, em uma bela noite, um casal a pouco tempo de ter o seu primeiro filho, é acordado a noite pelo fogo que toma conta da sua fazenda. Em seguida o diretor corta para mostrar o pai da família (Viggo Mortensen ignorado pela academia, mais uma vez) barbado, sujo e com o seu filho já com 11 anos.

O mundo ao redor parece abandonado, destruído e não se vê tantas pessoas pelas ruas. O que ocorreu com o planeta, onde a maioria das pessoas se refugiou, onde foi parar a esposa (Charlize Theron, que também foi ignorada pela Academia) e onde pai e filho, em uma relação realista de cuidado e preocupação do pai para com o garoto, como se tentasse dar continuidade a sua “espécie” - mesmo em uma vida tão destrocada - irão chegar, são as maiores perguntas desse filme de fotografia fantástica, repleto de excelentes atuações (o senhor é Robert Duval e caçador que ajuda o garoto ao final é Guy Pearce), caprichada maquiagem e direção de arte impecável.

Uma pena que não ganhou o cartaz merecido. Mas com certeza terá sua atenção. Essa estrada leva a uma das experiências mais interessantes do bom cinema: a reflexão. Nota 9,0.

“Onde Vivem os Monstros” – Lembra da pergunta anterior lá do diretor em atividade que podia ser escalado lado a lado de Park, assim como Nolan e Mann? Spike Jonze poderia ser uma das respostas, se, somente se, ele se dedicasse mais a sua carreira de cineasta do que a de diretor de videoclipes.

Nada contra seus vídeos, mas desde que ele filmou o excelente “Adaptação” (segundo trabalho com o autor Charlie Kaufman, o primeiro foi “Quero Ser John Malkovich”) de 2002, o diretor virou as costas para a indústria e se dedicou totalmente aos artistas musicais que apostam em suas malucas ideias de vídeos, como Bjork e Beastie Boys por exemplo. E como não afirmar que este “Onde Vivem os Monstros” está mais próximo dos vídeos do que dos filmes já rodados pelo diretor?

Está tudo ali: o elemento mágico ou fantástico que se torna presente nas telas das MTVs do mundo todo; a direção de arte simples e suja; a fotografia maravilhosa em planos abertos e sensível nos aproximados (merecia uma indicação ao Oscar; um personagem magnético, mesmo que você o esteja vendo pela primeira vez; e uma trilha sonora magnífica (outra indicação) e que retrata o espírito da mensagem principal.

A história parece simples, como as dos filmes anteriores de Spike (um cara que vai trabalhar num escritório em que um andar foi mal construído; um roteirista que sofre para adaptar um trabalho de um escritor): um garoto, filho de pais separados não consegue se comunicar com a irmã adolescente, que um dia foi sua principal amada e sua mãe que hoje tem muito trabalho e amanhã tem um encontro com um possível namorado.

O personagem é brilhantemente interpretado, como nos outros dois filmes já citados (John Cusack é a alma de vários perdedores que se tornam vencedores; um irmão sério que trabalha muito e outro que vive a vida como um fanfarrão, ambos interpretado com vigor por Nicolas Cage): e Max, um garoto incrivelmente garoto, que tem uma sensibilidade magnífica, uma imaginação surreal e um ator magnético Max Records, no papel de Max.

A virada mágica também está presente, como em, ah você já sabe (o homem descobre que há uma passagem no seu escritório para a mente de John Malkovich; um personagem se passa por outro e começa a raciocinar pelo olhar do outro, o que faz o filme se reencenado na sua frente bem depois dos 40 minutos de projeção): o garoto briga com sua mãe e descobre um local repleto de monstros, assim como ele, que refletem suas personalidade e que o tem como seu novo líder.

Parece simples, mas é mais um belo filme de Spike. E ao contrário da maioria dos críticos que afirmavam que o filme não era para crianças, acho sim que "Onde Vivem os Monstros" foi feito para crianças e é bom que elas estejam acompanhadas e em seguida digam: mulher, alimente-me. Nota 9,0!

3 comentários:

Leonardo J. Mancini disse...

Rapaz, se tu curtiste The Road, PIRARÁS em Le Temp De Loup. Aliás, curti mto The Road, puta filme denso e real, não aquela baboseira hollywoodiana onde todo mundo é bonzinho. E o "...Monstros" me emocionou fodido. Minha infância era tipo a do moleque, chuif.

Leonardo J. Mancini disse...

Exceto pelo fato do meu pai não ser o Mark Ruffalo numa ponta de nanosegundos.

Rod Castro disse...

The Road foi um risco né velho? Onde que um filme como aquele poderia ter sido feito por um grande estúdio americano? É óbvio que seria um fracasso, mas isso, hoje, virou atestado de bons filmes, não?

Quanto ao excelente e subestimado "Onde Vivem..." fico triste em ver um filme tão bme fotografado e editado, passar reto em premiações mundiais.