!!Finalmente: "A Origem"!! Por Rod Castro!

20 de dez de 2010

Reflexões

Deitar a cabeça. Relaxar. Desprender-se por alguns segundos e ao abrir os olhos, notar que aquilo não passou de um sonho, apesar de toda a concentração e estímulos presentes – que deixam a experiência tão intensa e faz as pessoas confundirem imaginação com realidade. Isso todo ser humano sente, sentiu ou sentirá um dia.

A pergunta que se faz é: esse momento não remete ao mesmo de se entrar em uma sala de cinema, desprender-se do mundo real, viver intensamente os momentos e ao final, saindo da escuridão da sala (o abrir dos olhos?), notar que tudo não passou de uma experiência?

Talvez o diretor Chritopher Nolan percebeu o que ninguém tinha notado: assim como os sonhos de toda a noite, uma sessão de cinema é a possibilidade de ver o que sempre quis se ver, sem a necessidade de parâmetros ou verdade.

“Você está esperando por um trem. Um trem que levará você para bem longe. Sabe onde espera que este trem vá levar você, mas não sabe ao certo. Mas não importa. Como pode não importar aonde o trem levará você?”

“Porque estaremos juntos.”.

Isso é um resumo do que se trata o filme “A Origem” que poderia ter se chamado a “Inserção”. E as afirmações cometidas nos dois primeiros parágrafos ganham força por este texto falado tanto por Mal (Cotillard) quanto por Cobb (DiCaprio) em momentos-chave do filme.

Nolan mostra que tudo o que se passa na tela é tido como verdade por um compromisso já pré-estabelecido há dezenas de anos entre espectador e filme: vamos viajar por um lugar, você estará lá porque quer, não sabe como será tal viagem, mas o que importa é que você não estará sozinho.

A História

Parece complicado, mas não é. “A Origem” não é um filme de assalto, como muitos gostam de afirmar que o é. O estilo é emulado, assim como o estilo de se fazer um filme de ficção, outro de James Bond e um melodrama clássico. Mas o filme tem mais a apresentar do que estilos. Tem uma narrativa simples que se desprende ao mesmo tempo em que se apossa destes estilos e faz um turbilhão de informações ganhar nexo ao se raciocinar sobre o enredo.

Os militares bolaram um novo jeito de roubar informações de seus inimigos: uma máquina dá acesso aos sonhos e torna possível a chance de se entrar no subconsciente das pessoas – local em que preciosas informações são armazenadas. Para que isso aconteça é necessária a presença de um engenheiro para projetar o local em que o “assalto” será realizado.

Cobb (DiCaprio) é um dos mais experientes “engenheiros” desse projeto. Mas hoje vive de roubar idéias, o que o intitula como “Extrator”. Ele não pode voltar para casa, ver seus filhos, porque a polícia e seus empregadores pensam que ele assassinou sua esposa (Marion Cotillard, firmando-se como uma das melhores atrizes atuais).

O filme tem início com a segunda tentativa de Cobb e seu parceiro/engenheiro Arthur (o sempre competente Joseph Gordon-Levitt) de roubarem informações do empresário Saito (Watanabe) que possui defesas pré-concebidas em treinamentos para não ser enganado no mundo dos sonhos. A não realização permite que o empresário proponha uma nova missão para a dupla: inserir (Inception) uma idéia na cabeça de um empresário concorrente, Robert Fischer (o excepcional Cillian Murphy) – desmembrar o conglomerado assim que seu pai morrer.

Cobb topa a missão, desde que o empresário resolva a sua volta para casa. Para a inserção ele monta uma equipe, com: Arthur, a estudante de engenharia recomendada por seu pai (Michael Caine) Ariadne (Ellen Page), o falsário Eames (Tom Hardy faz deste o personagem mais bacana) e o químico Yusuf (Dileep Rao).

“Uma idéia é como um vírus: resistente. Altamente contagiosa. E a menor semente de uma idéia pode crescer. Pode crescer para definir ou destruir você.”.

Cobb planeja entrar na cabeça de Fischer e plantar a idéia de dissolução da sua empresa de forma intensa, para isso bola dois sonhos dentro do próprio sonho, indo o mais fundo que pode no subconsciente do empresário. O que a maioria das pessoas do seu grupo não sabe é que Cobb sofre de uma psicose que faz com que uma projeção de sua personalidade assuma a imagem de sua mulher. E esta Mal sempre põe a percepção de sonho e realidade do extrator, e de todos ao seu redor, em risco.

“Você não é nem sombra da mulher que eu tive.”.

Mal é um capítulo a parte é o sub-enredo. Mas tem importância vital para o significado que Nolan quis dar ao seu filme. Mal e Cobb entraram de cabeça no mundo dos sonhos, ao ponto de dormirem alguns dias e por lá viverem por décadas. Mas ela não sabia mais o que era verdade e sonho. Para isso, Cobb correu um grande risco e fez uma “Inserção”, que resultou no suicídio de sua esposa.

Então como Mal aparece durante o filme? Cobb está sonhando? Não para as duas perguntas. Não é Mal que está em cena, aquilo é uma projeção do subconsciente de Cobb, idealizada, possessiva e repleta de falhas. E Cobb sempre está sonhando quando sua aliança está presente em sua mão, quando ele está na realidade, sua aliança desaparece.

Mas o que realmente importa em “A Origem”? Desvendar os mistérios que ali residem? Saber se o final é realidade ou sonho? Não, nada disso. O importante é notar a mensagem vital que Nolan tenta passar por Cobb – em vários momentos - e por Fischer – no momento em que ele se encontra com o seu pai ideal: aproveite os bons momentos que você tem com as pessoas que realmente importam para você. Simples assim.

Direção

Vou ser direto: Nolan fez de “A Origem” o seu melhor trabalho. Compará-lo com outros filmes é bobagem, um erro. Mas aqui cabem algumas anotações: mais uma vez ele se prendeu a filmar suas cenas de efeitos especiais ao invés de realizá-las em computação gráfica – como o restaurante que se inclina, o corredor sem gravidade e a avalanche que vem de encontro aos personagens; o roteiro demorou dez anos para chegar ao que é; e mais uma vez, ele fez um filme difícil embalado como blockbuster.

Caso as premiações ignorem “A Origem” é bem possível que Nolan ultrapasse limites no seu novo e último trabalho frente à série do Batman. Não pensem que não possa acontecer, já foi feito antes e duas vezes: “O Grande Truque” e “Batman, O Cavaleiro das Trevas”.

Mais uma coisa: este momento é o mais perigoso da carreira de Nolan. Ele sabe que é bom, que fez um filme maior que os demais e tem total liberdade do estúdio, Warner Brothers. Muitos grandes diretores mundiais encontraram-se nesta situação e pisaram na bola por se acharem maiores que Deus. Nolan pode surpreender, assim espero.

A Trilha

Tracei vários paralelos entre “A Origem” e “2001, Uma Odisséia no Espaço”, confira: os totens e o obelisco; o corredor sem gravidade de ambos; o cenário monocromático da cena de redenção de Fischer (de branco, como os astronautas); a reação da platéia a tudo que lhe foi mostrado (deve ter sido o mesmo sentimento); e o mais importante, a trilha.

Desde o cinema mudo, as histórias contadas em tela grande possuem trilha – um cara tocava piano. Este elemento se tornou essencial para o cinema com o passar do tempo e em “2001”, “Tubarão” e “Blade Runner” chega a ser um elemento vital para que a história se desenvolva.

Em “A Origem”, o maestro alemão Hans Zimmer – autor de mais de 130 trilhas sonoras, muitas premiadas – faz de sua trilha mais que um elemento. Tanto que a mesma fica na memória com o subir dos créditos. Desde o trabalho feito pelo argentino Gustavo Santaolalla, em “O Segredo de Brokeback Mountain” o cinema moderno não se encontrava com algo tão simples, mas poderoso e memorável. Outro merecedor de prêmios.

E agora?

Espero que Nolan não faça o que os Wachowski fizeram: não transforme seu filme bem resolvido em uma série de ação. Também espero que Joseph e Tom Hardy tenham seus trabalhos reconhecidos daqui pra frente. E que “A Origem” ganhe mais destaque pelo que faz com as emoções das pessoas do que por seus desdobramentos e segredos a serem desvendados.

Um clássico instantâneo. Nota 10.

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