!!Leve 6 e deva todos, ou: “Infância Roubada”, “Baixio das Bestas”, “Saneamento Básico", “O Grande Golpe”, “A Maldição da Flor Dourada” e "Inferno 17"

4 de mar de 2008

Já falei há tempos que o cara que inventou o DVD deveria ser canonizado? Acho que sim.

Os motivos são muitos, mas entre eles: os discos de extras – em que você aprende muito mais sobre cinema do que em algumas revistas que se dedicam ao assunto – a qualidade de imagem, o conforto de poder parar o filme e rever certas cenas, a grande oportunidade de ver uma infinidade de bons filmes que já foram lançados e que você ainda não assistiu e o preço de um aluguel que nunca vai se comparar ao do cinema.

Assim listo 6 filmes que aluguei dia desses e que merecem comentários. Simbá?

“Infância Roubada” – É incrível como Hollywood e sua academia fazem bobagens por ano e se arrependem tentando compensar de alguma forma algo parecido com o que foi deixado de lado. Entendeu? Não? Explico: na capa desse DVD há uma chamada no mínimo risível: “O Cidade de Deus africano!”.

E sinceramente, o dia que esse filmeco se comparar a um clássico moderno como “Cidade de Deus”, mudo até de nome.
História básica: garoto pobre que vive na marginalidade, rouba um carro e acaba seqüestrando por acidente um garotinho com alguns meses de vida. O filme gira em torno das situações que uma ocasião como essa pode render e? Como assim, e? Só. Palmas para academia que elege mais uma porcaria como algo muito bom.

O diretor do filme é Gavin Hood que está na Austrália filmando o filme solo do Wolverine, tomara que não saia o novo “Cidade de Deus Australiano”. Nota 4,5.

“Baixio das Bestas” – Dia desses aqui no trabalho, em uma conversa franca sobre o atual cinema brasileiro, alguém fala que não agüenta mais filmes sobre o nordeste, como se o Brasil fosse somente isso. Em seguida foram enumerados uma seqüência gigantesca de filmes que se utilizam da seca e da “vida mardita” que seus personagens levam.

Faltou um novo filme: “Baixio das Bestas”. Que é um filme médio. Não pode ser encaixado no formato “povo esquecido” dos demais, mas também não pode ser utilizado como mais um daqueles filmes modernosos que todos os anos chegam às telas de cinema de todo o país – com ou sem incentivo federal.

A história fala de uma pequena cidade do nordeste, em que: um avô explora a beleza de sua netinha – menina com no máximo 14 anos de idade – para ganhar um dinheiro de caminhoneiros, nos fundos de um bar de estrada; um grupo de garotos que não tem o que fazer da vida, mas tem dinheiro e pais que mandam e desmandam tocam o terror; e ainda mostra um prostíbulo que possui somente garotas de programa que gostam do que fazem.

O resto: palavrões, diálogos sem nexo, modernidade contrastando com o antigo e atuações risíveis – tirando a garotinha, o avô e a Dira Paes. Nota 4,5!

“Saneamento Básico, o Filme”: Jorge Furtado, o respeito por seus roteiros. Mas como diretor não. Falta algo, sua direção peca pela simplicidade exacerbada. Seus roteiros são bem elaborados e alguns, talvez você nem saiba, já o fizeram rir e se divertir, como: “Caramuru, a Invenção do Brasil”, “Lisbela e o Prisioneiro” e “Os Normais, o Filme”.

Mas os seus filmes autorais – os que ele mesmo escreveu o roteiro, como “O Homem Que Copiava”, “Meu Tio Matou um Cara” e esse “Saneamento Básico, o filme” – sempre me deixam um gosto de “faltou algo”.

A idéia de se mostrar como é feito um filme, desde a sua concepção, passando por todos os estágios de produção não é original, mas até que diverte, ainda mais pelo elenco – Wagner Moura, Lázaro Ramos e Fernanda Torres arrebentam - e alguns diálogos – principalmente os que têm a presença dos fabulosos Paulo José e Tonico Pereira. Nota 7,0.

“O Grande Golpe”: Se um dia alguém lhe perguntasse: diga o nome de cinco diretores que possuem trabalhos distintos, incríveis e que são referenciais de um bom cinema? Responderia de primeira: Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman, Billy Wilder, Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola.

Dos cinco listados, somente um é Americano – Coppola – o restante são europeus e por tradição praticaram um cinema diversificado e com um olhar diferente dos demais. Kubrick é um deles e primou por ser um diretor onipresente e ao mesmo tempo minimalista em suas obras.

Sejam elas: uma ficção cientifica fria (“2001, Uma Odisséia no Espaço”), uma comédia surreal e com humor negro (“Dr. Fantástico”), ou uma ficção dramática e revolucionaria (“Laranja Mecânica”), em todas elas a sua forma distante, como se apenas documentasse o que acontecia, acabou por se tornar uma marca registrada.

Neste bom “O Grande Golpe”, um trabalho em início de carreira do inglês, dá para se ter noção de que o talento e o jeito de dirigir do mestre Kubrick, ainda buscava forma e principalmente: um estilo. E Stanley encontrou ambos em uma história entrecortada no bom e velho estilo noir de se fazer cinema.

O filme conta como um assalto a um hipódromo se transforma em uma situação violenta. Mostra tudo: como a ação foi planejada, quais pessoas estão envolvidas – preste atenção nos personagens que não são diretamente ligados ao fato principal, elas ganham incrível importância para a conclusão da trama – como ocorre o assalto e qual será a sua conclusão – frustrante e muito bem pensada. Bom filme. Nota 8,0!

“A Maldição da Flor Dourada”: Um dia, quando assisti ao excelente “Máscara Negra” com Jet Li – se você ainda não assistiu recomendo, principalmente se for fã de “Matrix” – pensei: “esses orientais manjam muito, quem dera um grande estúdio encostasse neles e bancasse uma estrutura maior para os seus filmes...”.

Dois ou três anos depois, em um cinema no centro da cidade, assistindo ao magnífico “O Tigre e o Dragão”, vi minhas palavras serem perpetuadas – a Sony Classics bancava toda a produção do filme de Ang Lee e abria, com essa atitude, espaço para dezenas de excelentes diretores orientais colocarem seus filmes “de arte” nos cinemas mais distantes do mundo (inclua Manaus nessa rota).

E você sabe que quando “passa um boi, passa a boiada”. Assim, pouco tempo depois desse renomado filme, outros dois, também com guerreiros que voam com espadas nas mãos em cenários mágicos e com coreografias malucas, fariam sucesso junto ao grande público e festivais de cinema: “O Clã das Adagas Voadoras” e “Herói” – ambos de Yimou Zhang.

É de Zhang também o excelente “A Maldição da Flor Dourada” que não passou nos cinemas de Manaus, mas que já se encontra nas locadoras de DVD da cidade.

Todos os componentes que estruturam os filmes do diretor chinês de 56 anos e que possui mais de 15 filmes em seu currículo, estão presentes: visual embasbacador – as cores dos corredores da residência imperial são impressionantes e lindos – fotografia vigorosa – Zhang foi diretor de fotografia de outros filmes antes de ser Diretor de seus filmes – roupas estilosas e adereços reluzentes e coreografias milimetricamente ensaiadas. Mais um que vai para a minha estante de DVDs: nota 8,5!

“Inferno 17”: Se você me encontrasse há uns 3 ou 4 anos atrás, eu seria uma pessoa que com convicção inabalável afirmaria que o maior diretor de todos os tempos se chamava Alfred Hitchcock. A justificativa seria a de que ele dirigiu todos os estilos e tipos de atores, com maestria.

Se a pergunta me fosse feita há dois anos, minha resposta mudaria para Ingmar Bergman. Tanto pelo seu singelo estilo de escrever uma história, quanto pela sua direção precisa e técnica. E com certeza o sueco foi o maior diretor de histórias femininas de todos os tempos.

Se a pergunta me fosse feita agora eu teria dificuldade de responder, mas um nome me viria imediatamente à cabeça: Billy Wilder. O baixinho polonês que fugiu da Segunda Guerra para fazer cinema nos EUA é autor de clássicos que tem presença obrigatória na DVDteca de um cinéfilo, como: “Pacto de Sangue” – o criador do estilo noir de fazer filmes - “Farrapo Humano” – o twist do final ligado ao início do filme lembra o de “Pavor nos Bastidores” de Hitch, mas é melhor – e “Crepúsculo dos Deuses” – o filme que está entre os cinco melhores que já assisti em minha vida.

“Stalag 17”, ou “Inferno 17” não fica atrás e tem que estar na sua estante, ao lado de outros bons filmes do carequinha preferido de Marilyn Monroe. Quem? Wilder, oras.

Como todos os filmes deste grande diretor, o estilo teatral de como tudo se desenvolve, a trama sarcástica, as atuações primorosas – William Holden (que trabalhou com Wilder em mais um par de filmes) recebeu o Oscar por seu trabalho – o domínio de câmera diferenciado e o sarcasmo de seu texto - iniciar um filme de guerra falando em off que um dos personagens odeia os filmes sobre guerra é de um humor maravilhoso - marcam essa história que fala sobre o dia-a-dia de pilotos de aviões de combate americano que estão presos em um campo nazista.

O drama e a trama se desenvolvem em cima do personagem de Holden que é suspeito de vender informações de como as coisas andam dentro de um dos pavilhões do campo, o tal Stalag 17. Filmão, para se assistir logo no primeiro dia do ano, como fiz. E em boa companhia, a de Wilder, no caso. Nota 9,0!

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