!!O Superestimado do ano... ou: “Tropa de Elite”!!

27 de dez de 2007

“O policial tem medo, policial tem família, amigo. É por isso que nessa cidade todo policial tem que escolher: ou se corrompe, ou se omite ou vai pra guerra.”

Tenho 29 anos. Desses, acho que mais de 25 se passaram com pelo menos dez visitas aos cinemas a cada 4 meses. Vi de tudo nesse período, desde os filmes dos Trapalhões – principalmente na época em que Zacarias e Mussum ainda eram vivos (tempo bom que não volta mais!) – até as mais complexas obras do cinema racional, que vi com tremenda atenção.

E nunca, afirmo com total convicção: nunca vi um filme com tamanho extremismo como o “fenômeno” do atual cinema nacional “Tropa de Elite”. Antes que você comece a pestanejar do outro lado da tela, faço a seguinte pergunta: para um advogado exercer sua função, existiria somente três caminhos? Seriam eles: a justiça, a corrupção ou a omissão? Caso você fosse um publicitário, para por em prática seus conhecimentos, você teria somente três caminhos: mentir, prometer ou comunicar?

A vida não é tão simples como um regime de doutrina planeja estabelecer. Pelo contrario, sistemas não se resumem a possibilidades tão mínimas quanto a percepção de um cão adestrado que atende a cada comando dado. Há variáveis por todos os caminhos e a cada escolha feita. Desde a carreira até mesmo como se relacionar com os problemas que nos cercam.

Afirmo o parágrafo acima por uma simples questão que move todo esse filme: o diretor – o qual me recuso a mencionar o nome - vendeu sua obra, logo no início da divulgação da idéia, como algo baseado em fatos reais. Aí está o seu calcanhar de Aquiles. Como uma pessoa vende uma realidade deturpada do dia-a-dia de uma corporação policial que se dedica a combater o crime de forma diferenciada das demais, se baseando somente nos relatos de policiais que fazem parte da mesma?

“O que me fode é o sujeito que nasce com oportunidade e acaba entrando nessa vida.”

Onde está à contra parte de quem convive com os mesmos policiais dessa tal Tropa de Elite e que não são nem os traficantes, ou os policiais militares corruptos? E por favor, não me venha falar dos filhinhos de papai que só servem para ser traficante de universidade ou para serem intitulados como maconheiros bitolados que estudam nas melhores escolas do país e que tiveram oportunidade na vida, mas não souberam aproveitar – por isso o “Nice”mento pode descer a mão a vontade.

O problema que faz com que este filme não seja levado em consideração por quem pelo menos uma vez na vida já subiu um morro de noite para estudar – não para comprar um baseado e ser esbofeteado – é que ele é totalmente voltado para um só tipo de realidade: mostrar que ser extremista, seja de qual lado você for, é o melhor caminho.

“O homem com a farda preta entra na favela é para matar, nunca para morrer.”

Uma vez, vi um documentário em que um dos chefões da SS (a Tropa de Elite do Hitler) era interrogado sobre o porquê do reich gostar tanto que seus discursos encenados em imensos ginásios fossem reproduzidos nos cinemas da Alemanha e do mundo. Ele respondeu: “no cinema, o grau de concentração do espectador é muito grande. Além disso, a tela é imensa, o que multiplica o impacto da mensagem e o som é estridente ao ponto de ecoar nas mais escondidas idéias de seu córtex.”.

É nessa parte que eu pergunto: quantas pessoas que não consomem drogas, como eu, não ficaram feliz em ver “Nice”mento meter a mão na cara do playboy maconheirinho, que (mais extremista que isso impossível, como se variáveis como políticos corruptos, financiadores e contrabandistas não fizessem parte desse grupo) é o principal culpado pelo trafico reinar no Rio de Janeiro?

Quantas outras pessoas não acharam bonito (e até mesmo se espantaram com) a forma espartana de como os aspirantes a soldados do Bope são treinados, como verdadeiros guerreiros sedentos por dar fim aos corruptos – até mesmo os que freqüentam o curso de treinamento – e aos vilões espalhados pelos morros formado unicamente por traficantes – é amigo, aquelas pessoas se abaixando com seus filhos voltando da escola, enquanto o “Caveirão” entra na favela (imagens que passam nas reportagens que mostram as verdadeiras ações do Bope no Rio de Janeiro) dando tiro a torto e a direita devem ser ilusão (i) de ótica, minha e sua.

Qualidades? O filme tem três:

As cenas de ação – que muito nego pensa que é mérito total do diretor sem nome, mas que é fruto do treinamento dado pelo mesmo diretor de cenas de ação de alguns filmes do Ridley Scott (que dizem ter aplicado o curso em duas semanas e foi mandado embora, assim que todo mundo aprendeu tudo o que tinha de aprender);

O Wagner Moura, pelo qual tenho grande admiração e que fez realmente bem seu trabalho, mas sinceramente é uma pena que o grande público tenha conhecido o seu trabalho nesse ano de 2007 por este filme e por um trabalho mais ou menos em uma novela de grande emissora – se você quer um bom referencial do que este excelente baiano é capaz de fazer, assista ao estupendo “Cidade Baixa”, com Lázaro Ramos.

E o marketing feito nacionalmente pela equipe do filme que se utilizou de uma falha interna para tentar justificar um possível fracasso nas telas grandes, afirmando que como o filme havia sido pirateado, dificilmente teria o resultado tão esperado. Mais outro equivoco por parte do “não falo o nome dele de jeito e maneira” diretor do filme. Já que o mesmo se tornou o mais assistido do ano.

Tirando essas, sinceramente? Não aposto em nada ali. E antes do fim, duas coisas: quanto ao parágrafo anterior, o diretor - esse sim eu escrevo o nome e até em caixa alta – FERNANDO MEIRELLES afirmou em uma entrevista que seria maravilhoso se o seu “Cidade de Deus” tivesse sido copiado (pirateado, sniff, sniff!), pois o público teria com certeza ido mais vezes ao cinema para vê-lo com maior qualidade.

“Eles (os fascista) afirmavam que apenas um governo ditatorial fortemente nacionalista poderia resolver a crise que havia se instalado na Itália.”

História, Conceitos e Procedimentos de Ricardo Dreguer e Eliete Toledo

E por último: filmes influenciam sim. E é uma pena que em um país tão miscigenado como o nosso e tão cheio de junções, em pleno o século XXI, exiba um filme que prega as diferenças e a perseguição aos estereótipos como algo importante - senão vai pro “saco”.

Ainda bem que Hitler e Mussolini estão mortos, senão aplaudiriam de pé, dariam cinco estrelas ou ainda apoiariam uma candidatura para o Oscar.

Sem nota, pois sou um fanfarrão.

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