!!O melhor CD do ano... ou: 'Our Love To Admire' do Interpol!! por Rodrigo Castro

5 de jul de 2007

Dezembro de 2004. Ouvindo um CD tenho o seguinte pensamento: “Ainda bem que eles não tocam na rádio ou muito menos fazem sucesso. Isso estraga, pior ainda: desfaz o artista em algo mais palatável, desrespeitando seus fãs e pondo vírgulas após seus trabalhos em vez de reticências.”.

Pois bem, três anos e muitas reticências depois o Interpol, quarteto americano que agora é um quinteto (o tecladista está fixo), assinou contrato com uma grande gravadora e após alguns meses enclausurados em um estúdio de Nova Iorque põe em todas as lojas do mundo o seu novo CD, “Our Love To Admire”.

Ainda refém do primeiro parágrafo, pensei com os meus botões que este disco seria mais comercial. Após o anúncio do acordo então, minha imaginação fértil deu abertura para a seguinte cena:

Em uma grande sala de reunião, com suas paredes repletas de discos de ouro e diamante de artistas mais conhecidos, sentados a frente de uma grande mesa estão vários homens, todos engravatados e sérios. No fim desta longa mesa estão os cinco integrantes do Interpol. Da cabeceira, lá distante, sai a voz do senhor que parece ser o rei do pedaço.

Ele começa: “Sabe como é: você faz o que quer quando não tem uma grande estrutura por trás e agora os tempos são outros. Assim, aquele ‘estilão’ de vocês, com roupas escuras, cabelos da década de setenta e referências a bandas que só um dentre cem adolescentes conhece, podem esquecer!”.

O chefão se engasga ao final da frase, como se fosse uma praga enviada por Ian Curtis e após tomar um copo de água Perrier, completa: “Em resumo, nada de climas estranhos nas músicas, letras ácidas e “diferentes”. Ah, e escrevam aí, antes de entrar naquele estúdio de gravações: ‘Alegria, amor e sons mais dançantes’.”.


Ok, isso é imaginação. Algo intocável. Minha tranqüilidade, só foi retomada após o lançamento do primeiro single, no final de Abril, “Heinrich Maneuver”. Está tudo lá: baixo centrado, bateria cadenciada, guitarras esquisitas, teclado base e um vocal retirado de uma banda cover do Joy Division.

Respirei fundo, ri meio que sem graça, por meus questionamentos de que se o comercial tiraria o lugar do independente. E agora, em luz baixa e voz sussurrante digo para você o que esperar de “Our Love To Admire” e suas onze canções. Caso queira ler roendo as unhas, fique a vontade, mas antes pressione a setinha do cursor para baixo.

O Interpol mudou sim. Apesar de “Heinrich” mostrar o contrário, a banda sofreu grande mudança em seu som. O estilo é o mesmo, algumas linhas de baixo e ritmos de bateria continuam como os de discos anteriores, mas após ouvir muitas vezes este novo álbum, afirmo que há uma mudança significativa e, suspirem agora, é para melhor.

Aqui um parêntese: 2007 está sendo um excelente ano para o lançamento de trabalhos de bandas de rock. E com certeza uma das melhores, entre poucas hoje em dia, não podia ficar de fora deste movimento. De todos os álbuns que me chegaram aos ouvidos, até o momento, e não foram poucos, “Our Love To Admire” é o melhor.

Há pelo menos seis músicas que merecem sua atenção. Todas com certeza devem marcar presença em um best of – isso agora é realidade na história do quinteto graças ao contrato com a major, certo? Assim como um ‘acústico’ e um disco ‘ao vivo em algum estádio’ – mas precisam ser absorvidas por você e seu bom gosto musical neste instante, são elas:

“Pioneer on The Falls” – Abre o disco e mostra porque afirmo que a banda mudou. Um misto de trilha sonora (o teclado foi roubado da trilha do “Poderoso Chefão”) com sons descompromissados. A melhor canção lenta já feita por eles. Antes de pestanejar ouça.

“No I in Threesome” – Um primor de canção. Pode soar esquisito para você, mas é uma música que pode ser tocada tanto em uma festa de colegial - bem na hora em que o cara apaixonado caminha para se declarar a amada e vê seu objeto de desejo ser “roubado” pelo valentão – quanto em uma praia – de preferência no pôr do sol e com o mar de ressaca.

“Heinrich Maneuver”- É o Interpol das antigas e sobrecarregado de atitude musical. As “freadas” propositais de bateria e baixo são de fundamental diferença para que não seja “mais do mesmo”. Duvido você não cantarolar por aí “Today, my heart swings”, após ouvi-la.

“Pace Is The Trick” – Linda. Ao mesmo tempo suave, grave, bela e brutal. Parece passar por todos os elementos e características de estilo que a banda tem a oferecer em sua essência. Se concentre na linha de baixo e entenda porque Carlos D é um dos melhores de sua geração.

“Mammoth” – Parece o que já foi feito, mas não é. Entendeu? Baixo e bateria afiados, riffs bem postos, vocal estranho e sons de órgão tirados de um filme de Tim Burton. Mas a “paradinha” com fundo de teclado e guitarra destoante rouba tudo e a transforma em uma nova canção.

“All Fired Up” – Se o Franz Ferdinand tivesse coragem para soar mais adulto e seu vocalista pegasse uma gripe ou gostasse de cinema Noir, eles ainda teriam que ralar muito para se aproximar deste som. Muito mesmo. E isso não é um demérito aos escoceses. Podia até tocar em rádio, será? Nops.


E as demais cinco canções – “Scale”, “Rest My Chemistry”, “Who Do you Think?”, “Wrecking Ball” e “Lighthouse” – que compõem o disco não fazem feio, longe disso. Merecem ser conferidas, com o mesmo entusiasmo das demais.

O Interpol conseguiu: assinou com uma grande gravadora, impôs seu estilo e entregou aos fãs e ao público em geral o seu melhor disco, compre, roube, empreste... enfim: tenha!

Nota: 9,5

2 comentários:

Anônimo disse...

Realmente, Primo, esse novo do Interpol é um ESCÂNDALO! Das 6 melhores q vc listou, trocaria Mammoth por Scale q, para mim, tá no mesmo nível de Pioneers e Pace. Ah, e Lighthouse, hein? O q é aquilo?? A maior viagem alucinógena q o Interpol já fez. Acho q qq dúvida q ainda possa restar de q o Interpol "vendeu a alma a uma gde gravadora" se desfaz auqi. Essa faixa é um tapa na cara de quem pense isso. Diz q outra banda atualmente teria teria coragem de terminar um CD com uma música tão apoteótica como aquela? Alí é o Interpol dizendo "aqui (visualize pulsos) ninguém pega".

Bjs,
Val

Anônimo disse...

Anos depois...

E para ratificar minha opinião sobre Lighthouse, olha só o q encontrei no site do Amazon:

"Our Love to Admire closes with "The Lighthouse," a funereal dirge that is among the most unexpected and memorable songs ever recorded by the band. Almost entirely percussion-free, the song is constructed around Daniel's mournful guitar and Paul's sparten lyrics. Not only is it one of their finest moments to date, it provides the album's most goose-bump inducing moment, the very same reflex shivers that make Interpol live shows such an exhilarating experience. As the very last song the band recorded for the album it was, they say, the hardest to play. The hypnotic guitar part was played on a 50-year-old guitar that had toxins on the strings, providing Daniel with a blistering and painful sensation in his fingers. The band weren't even sure the track would make it out of the studio, but once they heard Paul's remarkable vocals they were floored. The song – and the album – doesn’t so much end as it bleeds to a close with a long, echoey coda filled with feedback and strings. A fittingly dramatic end to a stunning and emotional journey. Interpol is back, every bit as good as before but charged with a new spirit, a new direction, a new label and, most of all, a new confidence."

http://www.amazon.com/Our-Love-Admire-Interpol/dp/B000PY32CO

será q eu tava certa?

bjs,
Val