!!P. T. Saudações!!

8 de jul de 2011


“Um dos melhores diretores destes últimos 20 anos com certeza absoluta. O que vai de encontro a ele é: tem um comportamento recluso, não gosta muito de aparecer em entrevistas, em premiações e até mesmo em estreias dos seus filmes. Isso vai de encontro a nova Hollywood que vende um acesso direto aos seus astros via internet. Mas, um diretor não deve falar em entrevistas, deve falar através de suas lentes e histórias. Assim, desse jeito, é uma dos melhores, com sobras.”

Essa foi a minha resposta em um programa local de rádio, no ano de 2009, ao ser interrogado sobre qual era o melhor diretor daquele ano, o americano Paul Thomas Anderson. Um cara que sempre mostrou três interessantes características em suas obras: seus roteiros narram um espaço tempo na vida; seus elencos são grandiosos e sempre possuem atores primorosos em papéis-chave; a sensibilidade que sua câmera mostra ao registar o contexto dramático que apresenta em cena é por vezes emocionante – como na canção entoada por todo o elenco em “Magnólia” – e moderna - como nos planos sequência de “Boogie Nights” e os estáticos com tempo de exposição em “Sangue Negro”.

“Boogie, Boogie”

P.T. mostra ao elenco o tamanho do talento de Mark em "Boogie Nights"
Como deixar passar em branco uma história perfeita e inusitada como de “Boogie Nights”? Em que um rapaz, bem dotado, mas que é um “zé ninguém” e que por ter esse “apetrecho” citado entre vírgulas agorinha, vê sua vida dar uma guinada de 180 graus ao entrar para a indústria dos filmes pornôs? O contexto é mostrado das mais variadas formas e exaurido nos mais diversos contextos, como ápice, drogas, amores, entre e sai de personagens... por isso só já deveria ter um lugar especial na galeria de melhores filmes dos anos 90. Mas P.T. Anderson vai além.

Faz um plano sequência de quase três minutos, em que apresenta todos os principais personagens de seu filme; detalha em que década estamos – por roupa, falas e obviamente o som – e faz você ver como esta indústria – por muitas vezes retratada como nojenta pelos entendidos em cinema e milhares de cidadãos cheios de pudores – traz em si um fator mágico chamado “irmandade”, companheirismo. Tudo isso em um só take.

E por ser de Anderson, temos o take trabalhado de forma desafiadora. Com quebras de eixo. Com movimentos próximos a personagens e a objetos que refletiriam suas presença, mas tudo some em um movimento perfeito e cuidadoso. Essa marca está registrada em todos os seus trabalhos, seja em “Magnólia”, em “Embriagado de Amor”, em “Sangue Negro” e chega até aos trabalhos realizados por ele em vídeo clipes, como o que fez para a sua ex-namorada, na época, Fiona Apple.


Os elencos são o alicerce das histórias contadas por Paul. Aqui encontramos artistas que se dedicam de verdade ao seu papel, aceitam desafios, desfazem-se de suas características, como sempre argumento quanto a bons artistas: eles somem. Quem apostaria em Mark Whalberg como o personagem principal de seu primeiro filme de destaque? Ainda mais no longínquo ano de 1997? P.T. topou o desafio e Whalberg começou a ser levado a sério a partir dali.

E se a inglesa ruiva-repleta-de-sardas Julianne Moore pudesse agradecer pelo empurrão dado a sua carreira nos EUA, ela diria: “Valeu P.T. por ter me dado uma puta e uma interesseira, afinal o povo gosta dessas personagens até em novela, imagina em tela grande”. E não, isso não é uma crítica ao trabalho feito por Moore com outros diretores, mas com este, ela sempre foi além.

Com Jason Robards - que estava realmente com câncer em "Magnólia"
Falar de “Magnólia” é chover no molhado, uma chuva de sapos, para falar a verdade.  Mas é um dos filmes mais injustiçados em premiações do início dos anos 2000. 

Contar a história em espaço tempo real é algo desafiador. Juntar um imenso elenco ao redor desse espaço e tentar costurar um motivo que una tanta gente, maior ainda. Mas ele consegue e faz mais: mistura surrealismo, videoclipe, drama, melodrama – é diferente, viu? – e comédia, tudo em um contexto de fundo que mistura drogas, abuso sexual, competição, frustrações, biografia com realidade – um paralelo entre um garotinho e um homem que está e já esteve na mesma situação – pais afastados de filhos, pessoas perdidas – no espaço e em suas vidas – e paixão e ódio, sem essa ordem e nessa ordem.

Se em “Boogie” P.T. lança Wahlberg como ator sério. Em “Magnólia” ele recupera a figura de bom ator que um dia Oliver Stone também o tinha feito para com Tom Cruise em “Nascido em 04 de Julho”. O personagem de Tom Cruise é desfavorável o tempo inteiro para com o ator. Ele mostra um belo homem que é odiado pelas mulheres, um cara que podia ser aquele machista que representa por ter tido um pai típico – mas ele foi criado por uma mulher e nem ao menos conheceu seu pai – e a transformação proposta no texto é reflexiva e mostra mais nas entrelinhas do que nas imagens propostas.

Aliás, se há algo a se afirmar sobre “Magnólia” é isso: P.T. exercita em nossas mentes o sentimento do que não é mostrado pela câmera - como Ingmar Bergman tantas vezes o fez. É óbvio que ele registra as ações, mas o que sentimos ao ver tudo aquilo é o que ele realmente deseja mostrar.   

“O Ouro Negro”

Ensaiando com Daniel Day-Lewis em "Sangue Negro"
Mas porque escrever um texto grande, como este, agora? Neste momento? Por um motivo: Anderson completou seus 41 anos no último dia 26 do mês passado. E não vi, como sempre, muitos artigos ou contemplações sobre a carreira deste grande diretor americano.

Fazer um balanço sobre a carreira dele é tão prazeroso quanto rever antigos clássicos. Pois podemos ver um cinema apurado, com astros – afinal ele está em Hollywood e já que seus trabalhos não são de fácil associação, ele deve obedecer alguma das regras já pré-estabelecidas pelos engravatados de lá – mas que tem muito a oferecer a quem se dispõe a assisti-lo.

Seja na comédia pouco romântica (Ou seria no drama travestido de romance real – antes mesmo de “500 dias com ela” ganhar notoriedade – que ele exercita no subestimado “Embriagado de Amor”?) ou no seu melhor filme até aqui: “Sangue Negro” (que é tão natural – ao estilo Mallick – e contemplativo – ao estilo Kubrick – que nos soa vanguardista em todos os aspectos?), sempre há algo a que se admirar e se achar como um novo artífice de um cinema diferente e repleto de qualidade.





Este é P.T. anderson, um diretor que faz arte. Dá continuidade a dos outros - como quando codirigiu "A última noite" (2006), obra não concluída pelo seu mestre Robert Altman, falecido durante as gravações. Sempre espera um bom roteiro, quando não o escreve e tem a sua inteira disposição dezenas de astros prontos para renunciar seu status quo. Um dos melhores diretores de sua geração.