O Godzilla ataca: Van Halen "A diferent kind of truth"

11 de fev de 2012

Em 1984 o Brasil estava repleto de programas de vídeo clipes. Todas as emissoras se beneficiavam da não existência da MTV por estas bandas e por isso mesmo tacavam um monte de gente com roupas horríveis e coloridas a frente de cenários verdes – que passavam imagens “transadas” – apresentado programas de clipes.

Em um destes programas, não lembro qual, vi a primeira vez algo diferente: uma banda de hard rock que parecia se divertir mesmo espancando os ouvidos dos ouvintes com sua potência, era o Van Halen.

Tirando aquelas roupas ridículas – de todos os membros da banda e principalmente as usadas pelo vocal David Lee Roth – a banda ria, agitava e parecia ser mais do que demonstrava. Uma coisa ficava clara logo de cara: eles tinham o melhor guitarrista daquela geração e isso não há um mortal capaz afirmar o contrário, os anos 80 tem o seu melhor guitarra com nome e sobrenome, Eddie Van Halen.

O cara era tão bom que recebia convites para fazer solos de menos de um minuto para propagandas e de mestres do pop, como Michael Jackson, como em “Beat It”. Aquele Van Halen, o primeiro, era tudo isso que falei acima e tinha mais: músicas impressionantemente grudentas e videoclipes engraçados ao extremo.

Nunca me interessei em saber porque David decidiu largar a banda. Pois em menos tempo do que pudéssemos digerir tal problema, a banda, através de uma indicação de Frank Zappa, conseguiu outro vocalista, menos espalhafatoso é verdade, mas tão competente quanto: Sammy Haggar.

Teve início a história de um Van Halen mais sério. Dono de um peso extremo e baladas marcantes. Eles emplacaram sucessos como “Dreams” e “Right Now“. Até que Sammy foi convidado a se retirar e de uma só vez, tínhamos David de volta para uma reunião de lançamento do 1o. Best Of da banda. Como era de praxe, eles novamente se separariam. E em 1998 emendaram a terceira parceria, agora com Gary Cherone, vocal do extinto Extreme.

Pronto, a banda sumiu. Tentou voltas com David, mas nada trazia aquele sentimento de que era de vez. Desde os problemas de saúde de Eddie, passando pela saída do baixista original Marc Anthony. Mas em 2009 eles deram sinal de vida: Lee Roth estava em forma, Eddie recuperado e no baixo estava Wolfgang Van Halen, filho de Eddie e sobrinho de Alex – o baterista.

Agora? Lançar CD novo, oras? E vou falar de cara: que CD é este “A Different Kind Of Truth”, viu? Daqueles que você compra e ouve em repeat infinito. Tudo o que gostamos no Van Halen aqui está e com uma regularidade impressionante.

O CD inicia com o petardo “Tattoo”. Música grudenta, mostrando a versatilidade e até mesmo a experiência que Lee Roth hoje tem; a bateria precisa de Alex que cadencia o ritmo sem exageros; uma linha de baixo compassada com a bateria, feita com competência por Wolfgang; e um Eddie em forma, com riffs loucos, mas que se tornam simples em suas mãos.

Sim, o Van Halen voltou a falar de mulheres, até porque elas sempre foram maioria em seus shows. E por isso mesmo, a sequência de “Tattoo” pede uma paulada “She’s The Woman” e a semi balada “You And Your Blues” – que tem uma cozinha fenomenal, dando espaço para riffs desconcertantes e que lá pro seu meio tempo desenvolve um dos melhores solos do CD, assim como em “Blood And Fire”.

Não sei se você sabe, mas em uma entrevista, perguntado como descreveria o som da sua banda, Eddie tascou a clássica resposta: “é como se o Godzilla estivesse despertando”. Em “Chinatown” – mostras audíveis que Lee Roth tem a mesma potência das antigas – “The Trouble With Never” e “Blood And Fire” – em que Wolfgang acompanha em tons mais graves todas as manobras do tio e pai – não há como descordar da máxima.

Mas se há algo de realmente “diferente e novo” neste som do Van Halen é que as músicas não são longas – como em “Outta Space” – e terminam na hora certa, deixando saudades. E olha que muita gente já afirmou que as composições são todas do fim dos anos 70 e foram reaproveitadas. Será?

Mas como justificar o rock pesado de “Bullethead”– uma das músicas que mais quero ver ao vivo – ou o estupro sonoro de “Honeybabysweetiedoll”? E olha que ainda há espaço para fazer uma canção que remete a competência de um Led Zeppelin, como em “As Is” – repleta de notas palhetadas na velocidade da luz.

Deixar este novo trabalho do VH ouvindo as duas últimas faixas,  “Big River” e “Beats Workin”, é querer ouvir novamente o CD do início ao fim. A primeira parece uma versão mais pesada de “Tattoo” e tem uma pegada de som parecidíssima com as canções do primeiro disco “Van Halen” – sendo uma co-irmã de “Running With The Devil”. A segunda é sensacional e podia ser a primeira faixa de “A Different Kind Of Truth.

Mas quem sabe o intuito tenha sido: vamos terminar este trabalho como iniciamos, por cima. Assim os fãs e quem sempre ouviu falar da gente pensa umas quinhentas vezes antes de afirmar que não voltamos a velha forma.

Sim, o Van Halen está de volta, como nunca foi e retornou com um dos melhores discos de rock deste ano e 2012.  Nota 10!