!!Com a ajuda de quantos bons amigos Fincher criou este excelente filme? A Rede Social!! Por Rod Castro!

31 de dez de 2010

Recentemente falei aqui no A Sétima o quanto comparações fazem mais mal do que bem quando a questão é a análise de um filme. Uma obra (filme) é trabalhada de forma única, mesmo que ela em sua estrutura lembre algumas outras - e isso é mais do que normal quando notamos que a mídia em que ela foi produzida, no caso o cinema, possui mais de um século de vida.

Também por aqui, já falei o quanto aprecio o trabalho do diretor norte-americano David Fincher. De todos seus trabalhos em cinema, somente dois não me são bem quistos: “Alien 3” – que recebeu cargas massivas de intromissão de engravatados da 20th Century Fox - e o “thriller” “Quarto do Pânico” – lento, chato e com uma trama pífia.

Seus demais filmes sempre figuram em alguma lista organizada por este escriba. É impossível falar de cinema nos anos 90 e deixar “Se7en”, “Vidas Em Jogo” e “Clube da Luta” de fora. Assim como seria impossível não citar o belo “O Curioso Caso de Benjamin Button” e o neoclássico “Zodíaco”.

Mas confesso que Fincher deu um passo a mais em seu novo filme, um dos melhores do ano com certeza, “ A Rede Social”. Este movimento já havia sido ensaiado em outros bons filmes sobre seu comando, mas agora teve um resultado bem mais forte: ele descobriu o verdadeiro papel de um diretor.

Como assim?

No curso de cinema que faço, conversei com um dos meus professores e perguntei qual era a visão dele do papel de um diretor em um filme, ele me deu a resposta que sempre pensei ser a mais interessante:

“o diretor tem que ser como um árbitro num jogo de futebol. Não deve aparecer mais que o jogo e fazer o espetáculo fluir. E lembre-se: o erro faz parte do trabalho.”.

Com “A Rede Social” o ex-fazedor de clipes e comerciais, Fincher, realmente provou que sabe do que faz. Ele apenas vê, com olhar privilegiado e mostra com singela genialidade o seu filme para milhões de espectadores.

E o que torna “A Rede Social” um filme a ser admirado?

A diferença não está no ritmo lento dado em certos momentos, como já li em alguns sites, muito menos na quantidade de cortes – que segundo muitos o diretor teria diminuído (conte quantos cortes ele dá somente na cena em que Mark Zukeberg cria o Face Mesh e veja se ele realmente diminuiu o seu ritmo de contar uma história) e nas escolhas de ângulos ou estilo de câmera.

Ela reside no conjunto e no hábito de ter uma equipe boa em vários aspectos sob um comando experiente e até mesmo clássico de trabalhar que o diretor finalmente adquiriu – talvez seja mais o peso da idade do que meras preferências.

Técnicamente consigo enxergar filmes mais interessantes que “A Rede Social” neste ano de 2010, confira: a edição de “A Origem” e de “O Mundo Contra Scott Pillgrim” são superiores. A direção de arte do “Dr. Parnassus” é insuperável, assim como a trilha sonora de “A Origem”.

Mas em um quesito, um, o filme de Fincher deixa os demais para trás e isso é fato: seu elenco, afiado, sem exageros e o mais competente em ritmo de texto falado dos últimos anos e isso, ao contrário do que muitos afirmam, há muito de Fincher.

Teu passado te condena

Ter personagens falando intensamente textos afiados não é novidade na carreira de Fincher – que veio da publicidade/videoclipes. Dois de seus melhores filmes possuem diálogos marcantes sempre ditos por personagens principais.

John Doe (Kevin Spacey que é o produtor executivo de "A Rede Social") em determinado momento de “Se7en”, em que está levando os detetives para o deserto, fala um texto imenso, intenso e memorável; em dezenas de momentos Tyler Durden (Brad Pitt), em “O Clube da Luta”, fala palavras de protesto em textos gigantes em um enquadramento sombrio – tanto na cor (direção de arte) quanto no movimento (direção de fotografia).

Seria impossível afirmar que o elenco do filme tem o brilhante desempenho sem ter recebido uma bela colaboração de seu comandante maior.

Dupla Explosiva

Assim como em “Se7en”, também em “O Clube da Luta”, até mesmo em “Quarto do Pânico”, “Zodíaco” e “O Curioso Caso de Benjamin Button”, DF aposta com afinco em uma dupla de protagonistas – o já falado Zuckerberg e seu amigo brasileiro Eduardo - que contará a história do início ao fim.

A visão dessas pessoas será a mesma que teremos do início até antes dos momentos finais, isso porque o elemento surpresa surge e podemos notar algo de diferente do que já nos foi mostrado – como o aparecimento de Doe e a famigerada Marla.

Em “A Rede Social” não é diferente. O personagem falastrão e dono de “todo o conhecimento do mundo” é Sean Parker (criador do Napster) – interpretado pelo competente Justin Timberlake.

Mas que tal falarmos do que as pessoas que vão ao cinema realmente querem saber: a trama.

O filme

Mark Zuckerberg (magistral atuação de Jesse Eisenberg) é um nerd que não sabe lidar com a namorada nem com as pessoas que o cercam e em um rompante – ele leva um fora da namorada que já não aguenta mais seu jeito “acima de todos” de ser – cria, com a ajuda de alguns amigos, em especial o brasileiro Eduardo (Andrew Garfield, futuro Peter Parker) um site que compara as moças dos mais variados cursos de sua faculdade. Tal programa faz tanto sucesso que Mark derruba o sistema local de computadores e se torna uma lenda.

A fama o leva ao encontro de dois irmãos esportistas (interpretados pelo excelente Armie Hammer) e um nerd que o convocam para a criação de um novo site de relacionamentos exclusivo para os alunos de Harvard.

O que se vê a partir deste ponto é: como o Facebook foi criado; como o relacionamento entre Mark e Eduardo degringola; como os irmãos foram enganados por Mark; como a fama atraiu todo tipo de gente para perto dos verdadeiros criadores, desde fãs da faculdade, passando por meninas que eles nunca teriam a menor chance de ter algo, chegando ao derradeiro encontro com o soberbo Sean Parker; e como, novamente, Mark enganou o seu verdadeiro e único amigo “Duardo”.

Em meio a tudo isso, o passado, podemos ver o presente: em que Mark responde ao processo movido pelos irmãos e Eduardo. Uma trama simples e ao mesmo tempo complexa.

Este novo filme cutuca uma ferida que Fincher vem pondo o dedo há um certo tempo: a distância.

Em um click: um amigo. Em outro: um bloqueio.

O elemento distância está presente no olhar vago e até mesmo cansado do detetive Somerset em “Se7en”, faz-se de forma engraçada (Bob) reflexiva (Jack) e sinistra (Tyler) em o “Clube da Luta” e ganha vida na obstinação do Inspetor David Toschi (Mark Ruffalo em “Zodíaco”).

Este mesmo elemento surge de forma mais alarmante em "A Rede Social" e infelizmente parece fazer parte somente da vida de um personagem, mas não assim. Mark realmente é a distância em pessoa. Mas Eduardo se torna distante com o passar do tempo e mais ainda ao perceber no que havia se metido. Os gêmeos se distanciam até mesmo de seus preceitos para conseguir a tão esperada fama e Sean Parker paga um preço alto por se achar um gênio revolucionário.

Essa transformação é o principal objetivo que Fincher e sua equipe tentam mostrar: o que é verdadeiro hoje em dia? O que é a distância? Como você pode passar por cima de amizades e até mesmo conceitos, para se tornar famoso ou receber o que sempre sonhou, mesmo que não seja de uma forma concreta?

Este filme é a cara desta geração: que se importa com o outro sim, desde que o mesmo lhe renda cifrões, concordâncias ou elogios. Um dos melhores filmes do ano, nota 10.

!!A Lista dos outros!!

30 de dez de 2010

Recentemente fiz uma lista falando quais eram os 20 melhores filmes que vi nesta década - entre 2000 e 2009. Em alguns sites fui questionado - principalmente por "Homem Aranha 2" e até mesmo "Cidade de Deus" - e em outros cheguei a ser ofendido de forma pública, mas listas são assim.

Não devemos avacalhar com o que pensa uma pessoa porque ela não tem a mesma visão que temos do que é um bom cinema. Listas na verdade, servem para nos indicar caminhos, afinal você que lê uma lista dificilmente viu todos os filmes ali postos em ordem.

Um fato que gostaria de fixar: a lista não possui nenhum filme de animação simplesmente porque os mesmos estão em outra lista, feita a parte e que merece ser conferida também, vasculhe aqui no site que vale a pena.

Mas, paremos de falar da minha e vamos a dos outros? Então, o uol acaba de divulgar a lista de seus críticos, vale a pena conferir, há filmes que nem tinha ouvido falar e outros que eu quero ver, mas não tenho como (o do De Palma sobre a guerra no Iraque). Segura:

Cássio Starling Carlos:
1 - Cidade dos Sonhos de David Lynch (vi)
2 - 2046, Os Segredos do Amor de Wong Kar-Wai (não vi)
3 - O Pântano de Lucrecia Martel (não vi)
4 - Jogo de Cena de Eduardo Coutinho (não vi)
5 - A Vila de M. Night Shyamalan (Vi)
6 - Em Busca da Vida (não vi)
7 - O Céu de Suely (vi)
8 - A Arca Russa (não vi)
9 - Redacted, A Guerra Sem Cortes de Brian De Palma (não vi)
10 - Mal dos Trópicos de Apichatpong Weerensenthakul (não vi)

José Geraldo Couto:
1 - Dogville de Lars Von Trier (vi)
2 - Cidade dos Sonhos de David Lynch (vi)
3 - O Pântano de Lucrecia Martel (não vi)
4 - Sobre Meninos e Lobos de Clint Eastwood (vi)
5 - A Fita Branca de Michael Haneke (vi)
6 - Elefante de Gus Van Sant (vi)
7 - Jogo de Cena de Eduardo Coutinho (não vi)
8 - Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino (vi)
9 - Serras da Desordem (não vi)
10 - Os Sonhadores de Bernardo Bertolucci (não vi)

Inácio Araújo:
1 - Redacted, A Guerra Sem Cortes de Brian De Palma (não vi)
2 - A Inglesa e o Duque de Eric Rhomer (não vi)
3 - Jogo de Cena de Eduardo Coutinho (não vi)
4 - Serras da Desordem (não vi)
5 - Cidade dos Sonhos de David Lynch (vi)
6 - O Signo do Caos (não vi)
7 - Marcas da Violência Cronenberg (vi)
8 - Five (não vi)
9 - Palavra e Utópia de Manoel de Oliveira (não vi)
10 - Gran Torino de clint Eastwood (vi)

Ana Paula Sousa:
1 - Fale Com Ela de Pedro Almodóvar (vi)
2 - Paranoid Park de Gus Van Sant (vi)
3 - Marcas da Violência de David Cronenberg (vi)
4 - Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood (vi)
5 - Jogo de Cena de Eduardo Coutinho (não vi)
6 - Lavoura Arcáica de Luiz Fernando Carvalho (vi)
7 - Entre os Muros da Escola (não vi)
8 - Wall-e (vi)
9 - Cinemas, Asperinas e Urubus (vi)
10 - O Pântano de Lucrecia Martel (não vi)

Sérgio Alpendre:
1 - Os Amores de Astrée e Céladon de Eric Rhomer (não vi)
2 - Marcas da Violência de David Cronenberg (vi)
3 - O Quinto império, Ontem como Hoje (não vi)
4 - Menina de Ouro de Clint Eastwood (Vi)
5 - A Hora da Religião (não vi)
6 - Vai e Vem de João César Monteiro (não vi)
7 - Maria de Abel Ferrara (não vi)
8 - Mal dos Trópicos de Apichatpong Weerensenthakul (não vi)
9 - A Espiã de Paul Verhoeven (não vi)
10 - O Signo do Caos (não vi)

Alessandro Giannini
1 - A Viagem de Chihiro de Hayao Miyazaki (vi)
2 - Cidade dos Sonhos de David Lynch (vi)
3 - Cidade de Deus de Fernando Meirelles (vi)
4 - Fahrenheit 11 de Setembro de Michael Moore (vi)
5 - Colateral de Michael Mann (vi)
6 - Caché de Michael Haneke (vi)
7 - Guerra Ao Terror de Kathryn Bigelow (vi)
8 - Avatar de James Cameron (vi)
9 - Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino (vi)
10 - A Rede Social de David Fincher (vi)

Roberto Sadovski
1 - Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel de Peter Jackson (vi)
2 - Sangue Negro de Paul Thomas Anderson (vi)
3 - Batman, O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan (vi)
4 - O Labirinto do Fauno de Guillermo del Toro (vi)
5 - Cidade de Deus de Fernando Meirelles (vi)
6 - A Viagem de Chihiro de Hayao Miyazaki (vi)
7 - Old Boy de Chan Wook-Park
8 - A Vida dos Outros de Florian Hanckel von Donnemsmarck (vi)
9 - Requiem por um Sonho de Darren Aronofsky (vi)
10 - O Âncora (Vi)

Ana Maria Bahiana
1 - A Origem de Christopher Nolan (vi)
2 - Sangue Negro de Paul Thomas Anderson (vi)
3 - Avatar de James Cameron (vi)
4 - Wall-e (vi)
5 - Onde Os Fracos Não Tem Vez dos irmãos Coen (vi)
6 - Amnésia de Christopher Nolan (vi)
7 - Filhos da Esperança de Alfuonso Cuarón (vi)
8 - Cidade de Deus de Fernando Meirelles (vi)
9 - O Labirinto do Fauno de Guillermo del Toro (vi)
10 - Quase Famosos de Cameron Crowe (vi)

!!Finalmente: "A Origem"!! Por Rod Castro!

20 de dez de 2010

Reflexões

Deitar a cabeça. Relaxar. Desprender-se por alguns segundos e ao abrir os olhos, notar que aquilo não passou de um sonho, apesar de toda a concentração e estímulos presentes – que deixam a experiência tão intensa e faz as pessoas confundirem imaginação com realidade. Isso todo ser humano sente, sentiu ou sentirá um dia.

A pergunta que se faz é: esse momento não remete ao mesmo de se entrar em uma sala de cinema, desprender-se do mundo real, viver intensamente os momentos e ao final, saindo da escuridão da sala (o abrir dos olhos?), notar que tudo não passou de uma experiência?

Talvez o diretor Chritopher Nolan percebeu o que ninguém tinha notado: assim como os sonhos de toda a noite, uma sessão de cinema é a possibilidade de ver o que sempre quis se ver, sem a necessidade de parâmetros ou verdade.

“Você está esperando por um trem. Um trem que levará você para bem longe. Sabe onde espera que este trem vá levar você, mas não sabe ao certo. Mas não importa. Como pode não importar aonde o trem levará você?”

“Porque estaremos juntos.”.

Isso é um resumo do que se trata o filme “A Origem” que poderia ter se chamado a “Inserção”. E as afirmações cometidas nos dois primeiros parágrafos ganham força por este texto falado tanto por Mal (Cotillard) quanto por Cobb (DiCaprio) em momentos-chave do filme.

Nolan mostra que tudo o que se passa na tela é tido como verdade por um compromisso já pré-estabelecido há dezenas de anos entre espectador e filme: vamos viajar por um lugar, você estará lá porque quer, não sabe como será tal viagem, mas o que importa é que você não estará sozinho.

A História

Parece complicado, mas não é. “A Origem” não é um filme de assalto, como muitos gostam de afirmar que o é. O estilo é emulado, assim como o estilo de se fazer um filme de ficção, outro de James Bond e um melodrama clássico. Mas o filme tem mais a apresentar do que estilos. Tem uma narrativa simples que se desprende ao mesmo tempo em que se apossa destes estilos e faz um turbilhão de informações ganhar nexo ao se raciocinar sobre o enredo.

Os militares bolaram um novo jeito de roubar informações de seus inimigos: uma máquina dá acesso aos sonhos e torna possível a chance de se entrar no subconsciente das pessoas – local em que preciosas informações são armazenadas. Para que isso aconteça é necessária a presença de um engenheiro para projetar o local em que o “assalto” será realizado.

Cobb (DiCaprio) é um dos mais experientes “engenheiros” desse projeto. Mas hoje vive de roubar idéias, o que o intitula como “Extrator”. Ele não pode voltar para casa, ver seus filhos, porque a polícia e seus empregadores pensam que ele assassinou sua esposa (Marion Cotillard, firmando-se como uma das melhores atrizes atuais).

O filme tem início com a segunda tentativa de Cobb e seu parceiro/engenheiro Arthur (o sempre competente Joseph Gordon-Levitt) de roubarem informações do empresário Saito (Watanabe) que possui defesas pré-concebidas em treinamentos para não ser enganado no mundo dos sonhos. A não realização permite que o empresário proponha uma nova missão para a dupla: inserir (Inception) uma idéia na cabeça de um empresário concorrente, Robert Fischer (o excepcional Cillian Murphy) – desmembrar o conglomerado assim que seu pai morrer.

Cobb topa a missão, desde que o empresário resolva a sua volta para casa. Para a inserção ele monta uma equipe, com: Arthur, a estudante de engenharia recomendada por seu pai (Michael Caine) Ariadne (Ellen Page), o falsário Eames (Tom Hardy faz deste o personagem mais bacana) e o químico Yusuf (Dileep Rao).

“Uma idéia é como um vírus: resistente. Altamente contagiosa. E a menor semente de uma idéia pode crescer. Pode crescer para definir ou destruir você.”.

Cobb planeja entrar na cabeça de Fischer e plantar a idéia de dissolução da sua empresa de forma intensa, para isso bola dois sonhos dentro do próprio sonho, indo o mais fundo que pode no subconsciente do empresário. O que a maioria das pessoas do seu grupo não sabe é que Cobb sofre de uma psicose que faz com que uma projeção de sua personalidade assuma a imagem de sua mulher. E esta Mal sempre põe a percepção de sonho e realidade do extrator, e de todos ao seu redor, em risco.

“Você não é nem sombra da mulher que eu tive.”.

Mal é um capítulo a parte é o sub-enredo. Mas tem importância vital para o significado que Nolan quis dar ao seu filme. Mal e Cobb entraram de cabeça no mundo dos sonhos, ao ponto de dormirem alguns dias e por lá viverem por décadas. Mas ela não sabia mais o que era verdade e sonho. Para isso, Cobb correu um grande risco e fez uma “Inserção”, que resultou no suicídio de sua esposa.

Então como Mal aparece durante o filme? Cobb está sonhando? Não para as duas perguntas. Não é Mal que está em cena, aquilo é uma projeção do subconsciente de Cobb, idealizada, possessiva e repleta de falhas. E Cobb sempre está sonhando quando sua aliança está presente em sua mão, quando ele está na realidade, sua aliança desaparece.

Mas o que realmente importa em “A Origem”? Desvendar os mistérios que ali residem? Saber se o final é realidade ou sonho? Não, nada disso. O importante é notar a mensagem vital que Nolan tenta passar por Cobb – em vários momentos - e por Fischer – no momento em que ele se encontra com o seu pai ideal: aproveite os bons momentos que você tem com as pessoas que realmente importam para você. Simples assim.

Direção

Vou ser direto: Nolan fez de “A Origem” o seu melhor trabalho. Compará-lo com outros filmes é bobagem, um erro. Mas aqui cabem algumas anotações: mais uma vez ele se prendeu a filmar suas cenas de efeitos especiais ao invés de realizá-las em computação gráfica – como o restaurante que se inclina, o corredor sem gravidade e a avalanche que vem de encontro aos personagens; o roteiro demorou dez anos para chegar ao que é; e mais uma vez, ele fez um filme difícil embalado como blockbuster.

Caso as premiações ignorem “A Origem” é bem possível que Nolan ultrapasse limites no seu novo e último trabalho frente à série do Batman. Não pensem que não possa acontecer, já foi feito antes e duas vezes: “O Grande Truque” e “Batman, O Cavaleiro das Trevas”.

Mais uma coisa: este momento é o mais perigoso da carreira de Nolan. Ele sabe que é bom, que fez um filme maior que os demais e tem total liberdade do estúdio, Warner Brothers. Muitos grandes diretores mundiais encontraram-se nesta situação e pisaram na bola por se acharem maiores que Deus. Nolan pode surpreender, assim espero.

A Trilha

Tracei vários paralelos entre “A Origem” e “2001, Uma Odisséia no Espaço”, confira: os totens e o obelisco; o corredor sem gravidade de ambos; o cenário monocromático da cena de redenção de Fischer (de branco, como os astronautas); a reação da platéia a tudo que lhe foi mostrado (deve ter sido o mesmo sentimento); e o mais importante, a trilha.

Desde o cinema mudo, as histórias contadas em tela grande possuem trilha – um cara tocava piano. Este elemento se tornou essencial para o cinema com o passar do tempo e em “2001”, “Tubarão” e “Blade Runner” chega a ser um elemento vital para que a história se desenvolva.

Em “A Origem”, o maestro alemão Hans Zimmer – autor de mais de 130 trilhas sonoras, muitas premiadas – faz de sua trilha mais que um elemento. Tanto que a mesma fica na memória com o subir dos créditos. Desde o trabalho feito pelo argentino Gustavo Santaolalla, em “O Segredo de Brokeback Mountain” o cinema moderno não se encontrava com algo tão simples, mas poderoso e memorável. Outro merecedor de prêmios.

E agora?

Espero que Nolan não faça o que os Wachowski fizeram: não transforme seu filme bem resolvido em uma série de ação. Também espero que Joseph e Tom Hardy tenham seus trabalhos reconhecidos daqui pra frente. E que “A Origem” ganhe mais destaque pelo que faz com as emoções das pessoas do que por seus desdobramentos e segredos a serem desvendados.

Um clássico instantâneo. Nota 10.

!!Dois dos melhores filmes do ano em um só post: “Zona Verde” e “Scott Pilgrim Contra o Mundo”!! por Rod Castro!

9 de dez de 2010

Como é bom fazer um post assim: com nenhuma possibilidade de falar sobre um filme ruim. Apenas bons filmes e que devem estar na lista de melhores do ano, sem dúvida, ao lado de “A Rede Social” e “A Origem”.

Também é bom ver dois excelentes diretores pondo rédeas curtas em sua produção e apostando muito em seus atores – engraçado que os dois filmes possuem um grande elenco, afinado e na perfeita inteiração com seu tema – até os exageros foram bem-vindos.

Um já passou por Manaus e saiu recentemente em DVD (“Zona Verde”). O outro (“Scott Pilgrim”) por ter entrado em circuito com poucas cópias deve ser confeido na sua versão pirata descida por algum nerd que não aguenta esperar - o mesmo chegando aos cinemas merece mais uma conferida! Vamos ao que interessa.

“Zona Verde” – Paul Greengrass é um dos meus diretores favoritos dos anos 2000. Muitas pessoas me perguntaram porque nenhum de seus filmes se destacou na lista de melhores dos anos 2000-2009. Simplesmente porque acredito que estes filmes são apenas o início de uma carreira prolífica – mas que me doeu muito deixar “Domingo Sangrento” e “Voo United 93” de fora, ah isso doeu.

Mas barco que segue: este filme é a nova parceria do diretor com o ator Matt Damon. A dupla comandou com maestria os últimos dois filmes do espião desmemoriado Jason Bourne. E nesta nova empreitada faz um pouco do que já fazia, mas com temática realista.

“Zona Verde” é a área tranquila de Bagdá. Aquela que os americanos estabeleceram como sua base, para tentar mostrar ao mundo que tudo estava dominado e que eles tinham total segurança do que faziam – no caso, procurando as nunca encontradas ameaças químicas que Saddam planejava jogar por todo o Planeta.

E onde se encaixa Damon? Aqui: ele lidera um grupo de soldados que busca as tais armas. Nunca as acha, põe as informações “certas” em questionamento e em um belo dia se defronta com um Iraquiano que “dedura” onde alguns dos homens mais importantes de Saddam encontram-se, as escondidas, tramando uma possível revolução.

Daí para frente o filme entra em um turbilhão de mascaras caídas, confrontos nos bastidores - para derrubar a missão do personagem de Damon - e em mais de 30 minutos ficamos sabendo

o que hoje sabemos, mas que na época ninguém nem sonhava ser mentira: um homem de Saddam deu a informação (mentirosa) para os americanos após um acordo para se ver livre do que o seu país se tornaria.

O roteiro de Brian Helgeland (o mesmo roteirista do excelente “Los Angeles: Cidade Príbida”) não poupa ninguém. Este é o atestado de que Greengrass deve, com o passar do tempo, tornar-se uma espécie de Sam Peckinpah do nosso tempo. Excelente filme, com as eternas boas cenas de ação que permeiam as obras da dupla já citada.

Pena que o filme não teve a renda esperada e foi praticamente abandonado a sorte nos cinemas mundiais. Nota 8,5.

“Scott Pilgrim Contra o Mundo” – Uma das missões mais difíceis do cinema é transformar séries de video game em filmes de sucesso. Ainda não há uma grande franquia do segmento que mais arrecada com diversão no mundo – vai falar que você pensava que era o cinema? – com total aprovação do público e de seus fiéis seguidores.

Bem, não havia, pois a receita para que a mesma exista é esta adaptação de quadrinhos. Engraçado né? Um diretor conseguiu puxar de um segmento (games) as referências necessárias para adaptar outra arte (quadrinhos) em outra (cinema).

Mas se permitir misturar é um hábito na carreira de Edgar Wright. É dele um dos melhores filmes de zumbis destes anos 2000: “Todo Mundo Quase Morto”. O trabalho feito pelo diretor, então estreante, é um belo exemplar de como misturar estilos cinematográficos. Sempre tirando o melhor da experiência e fazendo com que o espectador se divirta e ache as referências mais que homenagens.

Em “Scott” ele acerta a mão e entrega sua melhor obra. A diversão está em todos os lugares, espalhados nos recordatórios (elemento natural dos quadrinhos e que tem destaque na série de Scott em HQ), nas onomatopeias espalhadas e chupadas de séries glams (como a do Batman de 60 a 70) e nos pensamentos transformados em elementos gráficos - como a vida (1up) que Scott ganha ao vencer uma de suas batalhas.

O plot: Scott (Michael Cera, inicialmente morno e depois no ponto certo) é o baixista de uma banda de rock menor; que foi chutado por uma, hoje, famosa cantora de outra banda; que divide um cubículo com seu amigo gay (Kieran Culkin, irmão de Macaulay, em seu melhor papel); que namora uma colegial chinesa (Knives Chau, interpretada pela ótima Ellen Wong,); e que numa festa se apaixona por Ramona (a linda Mary Elizabeth Winstead).

O que Scott não sabe, nem nós, é que Ramona teve sete ex-namorados. Eles formaram uma superliga de vilões que vivem a detonar todo e qualquer novo candidato amoroso da moça de cabelos coloridos. Cada ex é um capítulo a parte, assim como as batalhas pelo amor de Ramona.

Duas importantes características deste filme e que devem ditar moda nos próximos do mesmo segmento: ação desenfreada, colorida e com edição frenética – acho impossível as maiores premiações do mundo do cinema fecharem os olhos para o trabalho de direção de arte, figurino e a já citada edição. Ah, cuecas: que elenco feminino, hein? Nota 9,0.

!!Nerds Stuff: Ninja Assassin, Fúria de Titãs, Losers e RED!! Por Rod Castro!

6 de dez de 2010

Aqui vai uma leva daquelas dicas que já estão em DVD/Blu-Ray e você facilmente pode ver na comodidade do seu quarto, deitado na sua cama, numa boa e sem barulhos de pipoca, gente falando e demais frescurites.

“Ninja Assassino” – poucas vezes em minha vida vi um filme tão sanguinolento quanto esse. Exagero/estilos a parte a história é mais do mesmo: rapaz treinado para ser ninja, passa por um trauma que o faz questionar o seu mestre, daí por diante ele segue, mundo afora, atrás dos seus ex-colegas que matam conforme a encomenda.

Filme fraco, com pouquíssimas boas cenas. As lutas estão bem coreografadas, mas duram tanto que às vezes chegam a ser sacais – tirando a do final que plasticamente consegue se diferenciar. A produção foi dos, cada vez mais em declínio, Irmãos Wachowski (“Matrix”) e teve direção, do sempre questionável, James Mc Teigue (de “V De Vingança”). Nada demais: 5,5!

“The Losers, Os Perdedores” – Em meio a tantas adaptações de quadrinhos para o cinema, está é uma que não chegou às telas de Manaus. Mas você deve dar uma olhada. Os motivos: vários!

O gibi, lançado pelo selo Vertigo (da DC), é criação da dupla inglesa Andy Diggle (argumento) e Jock (desenho). Tornou-se a sensação da temporada quando lançado nos EUA em 2004. Chegou ao Brasil entre 2006/07, senão me engano, e tem bons momentos, mas nada que possa intitular a obra como indispensável.

Levar “Os Perdedores” para as telas grandes não seria nenhum sacrifício, primeiro que a DC faz parte do conglomerado da Warner Brothers. Segundo: por se tratar de uma história em quadrinhos sem nenhuma participação de super heróis, traduzindo: o gasto com efeitos especiais é mínimo. E o terceiro maior motivo, cinematográfico, no caso: é um filme que fala de mercenários machões que são traídos em uma operação e tramam sua vingança – história já repetida dezenas de vezes no cinema e que sempre rendem boas bilheterias.

No elenco apenas quatro “conhecidos”: Jeffrey Dean Morgan que fez outro papel em adaptação de quadrinhos para a DC, o Comediante de Watchmen; Zoe Saldaña que anda sumida de Hollywood desde a frustrada tentativa de torná-la Bondie Girl em “Missão impossível 2”; Jason Patric, que durante muito tempo foi vendido como um grande talento, mas não passa de mais um ator qualquer; e o mais reconhecível Chris Evans que já foi o Tocha Humana em “O Quarteto Fantástico” e será o “Capitão América”.

A direção estilosa de Sylvain White unida a uma boa edição, dezenas de cenas de luta e algumas pitadas de humor por todo o filme, acabam por tornar o espetáculo prazeroso e até mesmo recomendável, mas poderia ser melhor. Não pelo filme em si, mas pela história que não tem tanta força no gibi, mas rende uma linha de raciocínio que poderia oferecer mais.

Com o resultado pífio nas bilheterias é certa a não continuidade da série. Nota 7,0.

“Fúria de Titãs” – O francês Louis Leterrier tem bons trabalhos no currículo: o impensável “Carga Explosiva”, o subestimado “Cão de Briga”, o impensável dois “Carga Explosiva 2”, o novamente subestimado “Incrível Hulk” e esta nova versão de “Fúria de Titãs”.

Após ouvir tantos comentários saudosistas conferi o filme com total falta de vontade, aquela obrigação de ver “mesmo sabendo que não presta” e não é que me surpreendi? O filme tem sim a ver com o clássico da Sessão da Tarde e que também foi repetido milhares de vezes nas sessões especiais do SBT.

Lógico que houve alterações, principalmente no desenvolvimento da trama. Como sempre penso que uma nova versão pede novos pensamentos sobre o que já havia sido feito, o resultado foi melhor do que esperei: filme repleto de ação, com boas cenas referenciais, um bom herói – mil vezes o Sam Whorthington que o ator original – e o elenco de apoio teve boas participações, como a de Ralph Fiennes e Liam Neeson.

O aparte é feito a dona Gemma Arterton dona de beleza singular e que tem tudo para emplacar mais filmes de grande público, com este, já é o segundo (“Principe da Pérsia” foi o outro) – ela acaba de filmar um drama com o mestre Stephen Frears (“Tamara Drewe”) e estará presente no mais novo filme da franquia “Homens de Preto”.

A moça além de bonita sabe interpretar bem e faz sua parte em cenas de ação. É esperar pra ver: nota 7,5!

“RED”

Este é o filme surpresa de final de ano nas bilheterias. O elenco estrelado, mas com feras Oscarizáveis – que nunca garante real boa renda – liderados por Bruce Willis, fez bonito na arrecadação e deve garantir uma continuidade para o grupo de ex-agentes que socorrem um amigo em situação inesperada.

“RED – Aposentados e Perigosos” é outra adaptação de quadrinhos que a Warner pegou de sua filial DC Comics. Escrito pelo talentoso Warren Ellis e desenhado por Cully Hammer. A história gira em torno de uma perseguição ao agente Frank Moses, por ele ter feito algo terrível e que pode comprometer a agência. O novo chefe de comando designa um esquadrão para executá-lo e por razoes óbvias, Moses decide revidar.

Daí toma tiro pra todos os lados até o derradeiro final em que ele se encontra em situação difícil, fim. O filme toma emprestado o nome do agente, seu jeito físico, suas habilidades e o lance da Agência se livrar dele, sendo que o motivo é diferente.

Daí pra frente, tudo é novo: o agente vai atrás de um interesse amoroso, acaba pedindo ajuda de alguns ex-agentes e até inimigos e desvenda toda a trama por detrás da perseguição. Outra diferença, que veio pra somar a história original é que há muito humor durante todo o filme e humor quando não é piegas sempre faz bem a qualquer história.

O elenco é recheado de atores “sérios” que estão visivelmente se divertindo as pencas: Morgan Freeman –quase numa ponta – John Malkovich – engraçadíssimo – Hellen Mirren – mortiferamente perfeita – e Brian Cox – no papel de um ex-comandante de espionagem russo no seu módulo mais engraçado em toda a carreira.

Bruce Willis repete o papel de durão, mas que tem um lado humano que salta aos olhos quando se depara com situações incríveis. O final é meio frustrante, mas o filme pela experiência em si, vale ser conferido. Divertido e ao mesmo tempo violento. Nota 8,0.

2 de dez de 2010

Agora os dez mais desta última década!

10 – Vermelho Como o Céu (2006):

Explicar o cinema é algo que a própria mídia tenta há anos. No cinema italiano essa temática é um pouco mais freqüente do que nos demais cinemas mundiais. A diferença passa pela emoção, como o clássico “Cinema Paradiso” já o fez.

Em “Vermelho como o Céu” não é diferente. Uma das maiores homenagens ao som do cinema: garotos cegos de uma escola repressiva acabam se realizando através da experiência que somente o cinema pode dispensar.

Uma homenagem a inocência, a irmandade, as verdadeiras amizades e no querer fazer diferente. Prepare o lenço e não tenha vergonha, afinal, cinema é emoção.

09 – O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003):

Em 2002 “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions” chegaram aos cinemas com crédito e fãs de sobra. O último filme decepcionou, frustrou milhões de fãs que acreditavam poder assistir a algo tão poderoso quanto foi a trilogia de “O Poderoso Chefão”.

Esta possibilidade ficou para o ano seguinte, quando Peter Jackson levou para os cinemas a sua versão da última parte de sua trilogia baseada na obra de J.R.Tolkien. A plateia vibrava, os atores se divertiam e por mais de dois anos o mundo virou refém das estréias de final de ano, mas sem Frodo e seus companheiros de aventura da Terra Média. Feliz final cinematográfico para uma obra que tantas vezes foi chamada de impossível de ser adaptada para o cinema.


08 – O Grande Truque (2006):

“Amnésia”. “Insônia”, “Batman Beggins”. Uma adaptação de um conto. Outra de um filme sueco. E uma readaptação de um mito para os anos 2000. Nolan precisava de algo seu, mesmo que contasse com a ajuda do irmão/parceiro das obras anteriores.

“O Grande Truque” é um desafio, tanto para o diretor quanto para os espectadores. São tantas nuances, tantos aspectos e possibilidades que é impossível assistir ao filme mais uma vez e não perceber algo novo.Traz a mente a mesma sensação de quando você assiste ao mesmo espetáculo de um mágico e vê o truque da noite de uma forma diferente, mas ainda espetacular como da primeira vez.

07 – O Lutador (2008):

Darren Aronofsky consegue vender mentira como realidade.

Ele traz algo de verdade em suas obras que faz com que as pessoas se sintam dentro da história contada, como se fossem um personagem e não meros observadores. Não é somente um estilo de fazer filmes, tem isso, mas é muito mais.

É a vontade de contar algo único, de forma tocante, com personagens reais em histórias comuns, mas que se tornam impactantes pelo jeito com que ele narra imageticamente. Não há exageros em o “Lutador” um grande contraste com o personagem escolhido, um lutador de luta livre – que sempre ensaia suas lutas.

Não há como deixar passar uma atuação como a de Rourke no papel de Randy. Não há como conter as lágrimas ao final do filme.

06 – O Jardineiro Fiel (2005):

“X-Men 3”, a nova franquia de “James Bond” e mais um filme de imenso orçamento - dizem que o novo Batman, que seria de Nolan.

Três projetos oferecidos ao mesmo diretor, no caso, Fernando Meirelles - por cima após ter feito "Cidade de Deus". O que ele faz? Escolhe a adaptação de um consagrado livro de um dos autores mais difíceis de lidar no mundo: “O Jardineiro Fiel, de John le Carrè”.

Denso, fiel ao argumento original, dono de atuações poderosas e repleto de viradas calculadamente realizadas. Não é a toa que Meirelles escolheu o projeto, as possibilidades oferecidas ao diretor e ao público eram irrecusáveis.

Mesmo depois de 05 anos, rever “O Jardineiro Fiel” é sofrer o seu duro impacto, mesmo com uma cena tão bonita como a dos meninos que correm atrás da câmera. Reflexivo e emocionante.

05 – Bastardos Inglórios (2009):

O único filme de Quentin presente na lista. Mas acredite: “Kill Bill Vol. II” por muito pouco não teve seu espaço aqui. A recompensa vem em forma de insanidade - : já cometida nos dois volumes de kung-fu do queixada; ganha forma com personagens históricos retratados de forma exagerada em um roteiro peculiarmente realizado com total originalidade; e tem o famoso personagem Tarantinesco - falastrão e visivelmente perigoso - Hans Landa, o caçador de judeus.

Como o diretor mesmo fala, através de seu personagem principal, em seu já manjado take-assinatura: está é a sua obra-prima.

04 – Filhos da Esperança (2006):

Depois de dois filmes nos EUA, o mexicano Alfonso Cuarón largou a América e voltou para sua terra. Ali rodou o excelente “E Sua Mãe Também”, concorreu a dois Oscars – roteiro e filme estrangeiro – e em seguida retornou triunfante ao mercado que o subestimou, com o terceiro capítulo da série Harry Potter – inebriando o universo infantil e colorido do pequeno mágico, em “O Prisioneiro de Azhaban”.

Pronto, ele podia fazer o que quisesse, até realizar uma obra dita inadaptável, a ficção cientifica apocalíptica, “Filhos da Esperança”. Na história, por alguma razão as mulheres não conseguem mais engravidar – será? – e o último ser humano mais novo do mundo acaba de ser assassinado.

A história começa daí, passa por três espetaculares planos-sequência e chega a um final emocionante e memorável. Talvez o filme mais subestimado da década, mas isso o dignifica para se tornar o que já é: cult.

03 – Cidade de Deus (2002):

Um japonês (“Os Sete Samurais”). Um italiano, com produção americana (“Três Homens em Conflito”). Um brasileiro, “Cidade De Deus”. Estes são os únicos “estrangeiros” presentes na lista dos 250 melhores filmes de todos os tempos segundo o IMDB – lista feita por avaliação do público na internet.

Se formos levar em consideração somente os filmes dos anos 2000, apenas “A Origem”, “O Cavaleiro das Trevas” e “O Senhor dos Anéis: o Retorno do Rei” fazem companhia ao filme de Meirelles. Em tempo em que o Rio de Janeiro finalmente combate o tráfico e vence, nada como entender como a história começou.

Modernamente clássico, ou você tem dúvidas de que uma frase como “Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno, porra.” não tem a mesma expressão para a história do cinema atual que “Rosebud”?

02 – Batman, O Cavaleiro das Trevas (2008):

Este filme nada mais é do que uma experiência de Nolan. Ele misturou o novo com o clásico e deu dois passos adiante, construindo um novo cinema, não só moderno, mas histórico.

Veja o elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Heath Ledger, Morgan Freeman, Maggie Gyllenhall e Michael Kane. Veja a montagem: construção elementar de um personagem perigoso que tem sua presença marcada por um som (“Psicose?”).

Note o momento da virada brutal e confrontadora entre os dois personagens principais do filme, com direito a comparações ideológicas e possíveis traições de contexto (“O Poderoso Chefão 2”?) e antes do fim: perceba que um filme dramático fabuloso foi embalado como blockbuster serial para consumo regado a pipoca e refrigerante. Como se Nolan perguntasse aos críticos: “Why so serious, aaaa?”.

01 – Sangue Negro (2009):

Se Nolan, agora a pouco, orquestrou a modernização do estilo trabalhado por Coppola em “Batman, O Cavaleiro das Trevas”, Paul Thomas Anderson mexeu em um vespeiro maior: “Cidadão Kane” de Orson Welles.

Sei que comparações estragam conceitos, mas é impossível ver a figura excêntrica de Daniel Plainview, o imperador do petróleo e não se lembrar de Foster Kane, o imperador da mídia.

A diferença passa pela condução magistral de Anderson, assim como a atuação de Daniel Day-Lewis, que era muito melhor que Welles, muito melhor mesmo. Este é o papel derradeiro do inglês e olha que estamos falando de um ator que fez Christy Brown de “Meu Pé Esquerdo” e Bill, O Açougueiro de “Gangues de N. Y.”.

Denso como petróleo e com a atuação mais inflamável dos anos 2000. O filme que não pode deixar de ser visto durante os próximos dez anos.

!!Os 20 melhores filmes da década 00 – 2000 a 2009!! Por Rod Castro!

1 de dez de 2010

Dia desses, via Orkut, um grande conhecedor de cinema, meu velho amigo João - na opinião do escrevinhador aqui, o melhor vendedor de filmes de Manaus – provocou-me com a seguinte pergunta: e os melhores filmes dessa década zero-zero? Eu tinha que responder.

Que trabalheira isso me deu, viu João? Mas valeu a pena para notar que os anos 2000 foram muito melhores do que algumas pessoas dizem não terem sido. Ficaram praticamente 35 filmes de fora da lista dos 20 melhores. Você leu? 35 bons filmes ficaram de fora.

E isso só ocorreu porque as animações – em 2D ou 3D – ganharam uma lista a parte: “As Dez Melhores Animações dos anos 2000”, este post dá pra achar aqui no histórico do A Sétima.

Mas vamos ao que interessa, lembrando que os filmes que postei este ano, mas que eu deveria ter visto no ano passado, vão estar presente na próxima lista, na próxima década. Então nada de choramingar, ok?

20 – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)

Romantismo. Arte. Uma personagem que remete a infância de quase todos os criativos. Um diretor destruído pela mídia após um fracasso. Este enredo é o que sublima tudo por trás do melhor filme francês dos anos 2000 – muitos vão lembrar também de “Cachè”, mas prefiro o amor que a crueza.

Amélie ficou no subconsciente de milhões de mulheres espalhadas pelo globo, assim como a dezena de personagens que a cercam. Filme para se ver juntos ou até mesmo sozinho, mas bem acompanhado.

19 - O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004):

Se ao final dos anos 2000 Charlie Kaufman havia deixado sua marca na indústria do entretenimento com um filme pensante (“Quero Ser John Malkovich”), os anos seguintes foram à confirmação de sua presença como autor dos roteiros mais originais do novo milênio.

Em menos de 05 anos ele produziu mais 04 roteiros interessantes. Sendo que o mais dinâmico, inspirador e porque não, o melhor deles, ganhou a companhia de um diretor simples (Michel Gondry) inteligente e que comandou atuações magistrais (Jim Carrey e Kate Winslet). “O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” é inclassificável como todos os filmes de Kaufman, mas ganha, com o passar dos anos, o ar de obra-prima.

18 – Boa Noite e Boa Sorte (2005):

Este pode ser o filme mais injustiçado da última década. Mas penso que George Clooney e todos os envolvidos já imaginavam isso. Seria impossível realizar um filme tão sério, com uma verve política tão forte e agradar a todos.

É o filme certo na hora certa – fazia pouco tempo que Michael Moore havia realizado um filme denúncia contra o sistema de informações falsas do Governo Bush – tem direção firme do naquela época não levado a sério Clooney (que também participou do roteiro) e tem em seu protagonista – uma excelente atuação de David Strathairn - a imagem do que é ser um verdadeiro jornalista. Merece ser redescoberto por muitos que não o viram.

17 – Corpo Fechado (2000):

M. Night Shyamalan um dia foi descrito por este redator como o novo Steven Spielberg dos anos 2000. Não foi a toa: seu primeiro filme de mistério (“O Sexto Sentido”) arrebentou com a bilheteria e levou a crítica a reverenciá-lo – assim como aconteceu com Spielberg em “Tubarão”.

Em seu segundo filme de destaque – Shyamalan fez outro filme menor ainda nos anos 90, além de “Sexto Sentido” – o diretor dá a sua fórmula de como fazer um filme de super-heróis: cria um enredo de mistério ao contar a vida do único sobrevivente de um desastre de trem; mostra como ele começa a se dar conta de que é alguém especial; cria dois personagens magníficos – o “sidekick” perfeito: o filho do herói, e o vilão mais que perfeito: o amigo adverso; transforma a cena de heroísmo em um sofrimento real; e faz de suas últimas cenas as mais criativas de toda a sua carreira, apesar das mesmas lembrarem o fim de seu primeiro grande sucesso. Se Shyamalan tivesse continuado assim, hoje seria o rei do cinema moderno.

16 – Homem Aranha 2 (2004):

Sam Raimi acertou em quase tudo no seu primeiro filme de super-herói: criou um personagem clássico, colocou em seu caminho um romance impossível e fez triunfá-lo no final. Mas espere, não estou falando de “Homem Aranha”, não, estou falando de “Darkman”. No primeiro filme do teioso ele na verdade fez um esboço do que seria, caso o público e o estúdio realmente lhe dessem liberdade para trabalhar.

Em “Homem Aranha 2” Raimi multiplica as expectativas e tece a teia perfeita para prender todo e qualquer admirador de filmes de ação, ou fãs de quadrinhos: realizou uma das melhores cenas de suspense do cinema de aventura (o “nascimento” do DR. Octopus), transforma seu Peter Parker em um cara “cool” e deu vida a um dos melhores embates entre vilão e herói de todos os tempos (a já famosa briga do metrô). Uma pena que ele errou a mão na terceira parte, mas com o Venom, o que se poderia esperar?

15 – 21 gramas (2003):

“Amores Brutos” de Iñarritú foi um choque para os cinéfilos e toda crítica: a modernidade aplicada a sua edição, a crueza com que os mais diversos seres humanos foram retratados, os temas atuais abordados sem distorção e um dos acidentes de carro mais poderosos da história do cinema moderno – assim como aquele que ocorre em “Adaptação” – foram alguns dos elementos que fizeram deste filme um marco nos anos 2000.

Pulo no tempo. O diretor mexicano entra na maior indústria de cinema. Em vez de se deixar levar pelas fórmulas de se contar um novo drama, impõe o seu jeito de contar a vida de: um homem prestes a morrer – a melhor atuação da carreira de Sean Penn; uma viúva que não sabe como reparar suas perdas – Naomi Watts no mesmo módulo de Penn; e um preso arrependido que terá sua fé questionada - assim como seus companheiros, o melhor papel de Benício Del Toro.

É assim, com retalhos soltos, que são costurados pelo público, como se fosse um desafio emocional a ser travado com total atenção, que Iñarritu realizou a sua primeira-obra prima. O desafio dessa próxima década para o mexicano: realizar outro filme tão poderoso como este sem a parceria do seu roteirista Guillermo Arriaga.

14 – Réquiem por um Sonho (2000):

Reflexão. Está é a primeira reação de todo e qualquer espectador que se deparou a primeira vez com este filme. Segundos, talvez até minutos de silêncio sejam naturais após um dos finais mais chocantes dos anos 2000.

O poder de Réquiem está espalhado por tantos fatores que fica difícil de retratar somente um: o som é feito na medida, a edição é frenética no momento certo e lenta em momentos capitais, as atuações são perfeitas – aqui fica a lembrança de uma das maiores injustiças cometidas nos Oscars dos anos 2000: Ellen Burstyn mais que merecia este prêmio.

Este foi o primeiro passo de Aronofsky rumo a sua obra-prima, que está mais a frente nesta lista. Ah, não dê bola para milhares de pessoas que falam que “Réquiem” é um filme deprimente e que não deve ser assistido várias vezes.

13 – Donnie Darko (2001):

Se os anos 90 possuem um personagem emblemático, ele se chama Tyler Durden. E nos anos 2000? Fácil resposta: Donnie. Um garoto que acorda em lugares inesperados, veste-se como uma caveira no dia do Halloween, teve a vida salva pelo seu sonambulismo e misteriosamente costuma ver um coelho horrível em vários lugares.

Há tantos modos de se ver a trama de Donnie Darko que você ficaria abismado em notar como há sites e mais sites dedicados a mitologia ao redor do personagem, com teorias que deixariam os fãs de Lost perdidinhos. Se há um filme que deve ser visto dentre todos esses aqui listados pela experiência que pode propiciar, este é Donnie Darko.

12 – Deixa Ela Entrar (2009):

Na década de 80, tivemos a sensualidade e a desilusão do mito em “Fome de Viver”. Na de 90, a glorificação do clássico com “Drácula de Bram Stoker”. Nos anos 2000 nada de Crepúsculo. A verdadeira mitificação do eterno chupador de sangue veio de forma delicada e aterradora com o sueco “Deixa Ela Entrar”.

Como Hitchcock tantas vezes afirmou: a simplicidade assusta. E quando ela ganha contornos delicados como o rosto de crianças, se eterniza, assim como a lenda. Filme de orçamento mínimo e que não teve o devido reconhecimento nas mais importantes premiações, mas não é assim que se constroem os mitos?


11 – O Segredo de Brokeback Mountain (2005):

Depois de “O Tigre e o Dragão”. Depois de “Donnie Darko”. Um pouco antes de “O Cavaleiro das Trevas”. É com essa pencha, hoje, que “O Segredo de Brokeback Mountain” é lembrado.

Mas antes do filme ganhar as telas, ficou conhecido como o projeto que podia “chocar” seus espectadores. Este talvez seja o filme mais corajoso dos anos 2000, também um dos mais delicados e com certeza o que encarou uma história de amor impossível, mas moderna.

Mas tudo isso ocorre pelo comando firme, sem exageros e humano de Ang Lee. Obrigatório para entender o cinema dos anos 2000, importante para entender que Ledger tinha muito mais talento dentro de sua cabeça do que beleza em seu rosto.

Amanhã posto os dez mais!