!!Lobo em pele de cordeiro, será?... ou Acústico MTV Lobão!! por Rodrigo Castro

29 de mai de 2007


Sempre que me perguntam sobre um artista nacional acima da média e que foi e ainda é, muito subestimado, tanto por crítica quanto por público, a resposta é simples e sem nenhuma dúvida: Lobão.

Hoje em dia, graças à exposição de suas idéias e principalmente por estar na crista da onda como um grande salvador da cena “independente” musical, a maioria das pessoas também devem achar a mesma coisa. Mas há dez anos, duvido.

Lobão sempre foi deixado de lado e até recebeu a alcunha de “maconheiro louco que vive em um universo paralelo”. Não merecendo crédito, quanto mais aplausos. Seja por falar o que ninguém tinha coragem – ou doideira - de dizer, por ter feito uma verdadeira revolução no cenário musical nacional ou por ter comprado uma briga injusta contra os grandes estúdios fonográficos.

É com essa aura de guru, gênio e até mesmo de vendido, que ele lança seu “Acústico MTV”. Com este CD/DVD em lojas e graças a boa divulgação que está sendo dada a empreitada, tenha certeza: o pai do movimento “livres das grandes exploradoras” será chamado de mercenário ou de fanfarrão que cospe algumas verdades somente quando lhe convêm, o que é uma grande mentira.

A trajetória deste artista teve importância em minha vida em três situações. A primeira: quando fiz uma viagem, sozinho, para São Paulo. Nesta época, ainda criança, tinha comigo que o rock era o estilo que merecia minha atenção, ao invés de Balão Mágico, da Xuxa e até mesmo do Fofão.

Ali, só, com cinco anos de idade e uma imensa vontade de chorar, me viciei na rádio que rolava muitos hits de rock nacional da época. Entre uma e outra música, se destacava a excelente “Me chama” dele e os Ronaldos.

Uma década depois, saindo de uma fase nada boa em uma escola e indo para outra, um momento de definição importante e que tem grande peso no que faço hoje profissionalmente, lá estava ele de novo com mais uma excelente canção e que refletia o que se passava na minha cabeça: “A queda”.

Depois disso Lobão sumiu um tempo. E quando minha carreira tinha início, como produtor de um programa de rádio local, vi uma notícia de que seu contrato com sua antiga gravadora havia sido quebrado e que a partir daquele momento ele se dedicaria a gravar um álbum independente.

O fruto desta briga veio um ano depois com o melhor disco já feito por este incrível artista: “A Vida é Doce”. Com esta obra-prima a revolução teve início: discos foram numerados – algo que as grandes gravadoras tiveram que adotar por lei e que ele o fazia para ter melhor controle da produção – e a grana arrecadada pelo lobo foi a maior de sua carreira – quase quinze vezes mais do que já havia recebido com outros discos. Tudo isso sem contar que ali estava sua melhor canção: “Vou te Levar”.

Após o lançamento do petardo, consegui papear com ele, ou melhor, com Regina Lopes – sua esposa. Marquei uma entrevista, de meia hora que se transformou em uma e a divulgação desta nova empreitada rendeu alguns e-mails de agradecimento, tanto de Regina, quanto do próprio comedor de cordeiros.

Tempos depois destes encontros aplaudi sua força em lançar um disco ao vivo, no mesmo estilo independente, mas sem tanta divulgação apesar de ter uma boa música (“Mano Caetano”) que dava respostas às bobagens de Caetano Veloso – este sim, cada dia que passa, acaba por falar mais e mais atrocidades. E em 2005 chegava às bancas seu segundo disco inédito e independente também. Novamente sem grande divulgação, o que foi uma pena, pois merecia.

Nessas duas décadas e pouco de relacionamento auditivo, destaco três características interessantes em seu estilo de compor, que caem como uma luva para esta sua nova empreitada: a impressionante vontade de soar melancólico, letras soltas que possuem amarras firmes e um desleixo proposital na execução da música - tanto no tocar como no cantar.

“Acústico MTV” é bom para uma moçada que não lembrava – como alguns da minha idade - e nem conhecia – a moçada nova - grandes músicas como: “Canos Silenciosos”, “Corações Psicodélicos”, “Noite e Dia”, “Blá, Blá, Blá... Eu te Amo (Rádio Blá)”, “Essa Noite Não” e a sagaz “Decadance Avec Elegance”.

E a empreitada soa melhor ainda aos que não tiveram a grande oportunidade de conhecer a fase independente deste artista, com belas canções: “El Desdichado II”, “Quente”, “Você e a Noite Escura”, “Pra Onde Você Vai” e “O Mistério”.



O formato dá a impressão de que o lobo está manso e domado. Quase um cordeirinho. Mas as impressões enganam e agora, talvez, ele esteja sendo mais esperto do que muitos porquinhos que andam nas gravadoras e até mesmo na mídia.


!!Nolan é o Coperfield do cinema?... ou: Abracadabra!! por Rodrigo Castro

28 de mai de 2007


Ontem de manhã, meu pai me encontrou na cozinha. Enquanto ele se arrumava para ir ao trabalho eu tomava água. Com um certo ar de surpreendido, ele me fala de um filme que alugou:


“Rodrigo, faz tempo que não vejo um filme tão bom. Que história interessante e que atuações. Este ‘O Grande Truque’ é um filmão.”.

Terminando de virar o copo e já esboçando um sorriso, afirmo: “Já falei pro senhor que tem bons filmes hoje em dia. O problema é que a mídia não dá a devida atenção e o filme acaba passando batido.”.

Graças a este papo matinal, republico a minha crítica sobre este excelente filme de Christopher Nolan e que recentemente chegou as locadoras. Senhoras e senhores, com vocês: “O Grande Truque”.

Em determinado momento de “O grande truque” – filme que recentemente estreou nas salas de cinema em Manaus – o espectador não contém a curiosidade e começa a fazer comentários com a pessoa mais próxima, tentando descobrir o que realmente acontece diante de seus olhos. O diretor então consegue o que queria: faz com que o seu público tenha a mesma reação de quem assiste ao incompreensível através de um número de mágica.

Costumo afirmar que grandes diretores sempre contam a mesma história em seus filmes, tentando provar uma teoria, ou até mesmo perpetuar algo interno, como um trauma. Mas a história sempre tem um personagem e uma situação diferente. E Christopher Nolan e o seu irmão, o redator/roteirista Jonathan Nolan, põem a minha teoria em prática ao realizar este excelente filme.

O centro nervoso das obras dos irmãos Nolan passa por duas palavras: obsessão e vingança. No primeiro trabalho, “Amnésia”, há um homem que perde a memória e busca encontrar e matar o homem que assassinou sua esposa. Em “Insônia”, um policial procura redenção por sua má conduta em um caso envolvendo um serial killer , numa cidade onde nunca anoitece. E em “Batman Begins” encontramos um Bruce Wayne até mais importante que o próprio homem morcego. Mais um personagem em busca da vingança para justificar seus atos.

“O Grande Truque” não difere deste estilo de fazer cinema. Pelo contrario, extrapola todos os elementos já antes utilizados. Se em “Amnésia” você perdia o centro do que acontecia por sua montagem de trás para frente; se a fotografia era praticamente uma personagem em “Insônia”, fazendo você perder a noção de realidade e até mesmo de tempo; e se em “Batman Begins” você encontrava personagens fantásticos se utilizando de equipamentos reais para exercer sua magia diante das câmeras, neste novo filme Nolan joga todos esses elementos em uma cartola. Fala a palavra mágica “arte” e entrega ao público o seu melhor filme.

No filme, dois mágicos (Bale e Jackman) passam sua vida em busca de vingança e de ascensão profissional. Por terem se envolvido de tal maneira com o seu trabalho, não diferenciam bem do mal, cometendo então atos cruéis para roubar os truques um do outro. Mas a equação não é tão simples como escrevi acima. Pelo contrário, este é o filme mais inteligente a passar nos cinemas este ano e falar mais iria estragar o espetáculo. E acredite: o melhor de um ato de ilusão é você não entender como ele é feito, mas sim o efeito que ele exerce sobre a sua pessoa.

Um conselho: olhe bem de perto. Não acredite em seus olhos. Não busque elementos verdadeiros, pois tudo pode não passar de uma mera ilusão. E sempre, sempre desconfie de tudo e de todos, afinal estamos em contato com o mundo falso e repleto de mentiras, em que somos maravilhosamente ludibriados por luzes, gestos, lindas mulheres e engenhocas simples e complexas.


“O Grande Truque” é cinema com “C” maiúsculo, de clássico. Ainda bem que surgiu agora e pode ser visto por você em um cinema e não somente daqui a alguns anos, quando algum espertinho se apoderar de seus números e jogá-los como uma novidade num futuro próximo em uma sala de cinema. Abracadabra.

!!No escurinho do sarcasmo... ou Cinema Noir (1), por Rod Castro!!


Em meu quarto, com minha persiana entreaberta - daquele jeito que faz com que a luz de fora desenhe listras claras e escuras nas paredes – penso em qual segmento de cinema mais me agrada como cinéfilo.

Minha mente vagueia pelo suspense, passa com calma pelo cinema pensante e de arte, freia ao recordar das escolas que se dedicaram ao inusitado, mas prossegue até encontrar os filmes biográficos e os de ficção. Quando minha viagem chega ao ponto fundamental de minha indagação é exatamente quando meus olhos se encontram com as listras de minhas persianas: o cinema Noir (lê-se NOÁR).

Respiro. Abro um sorriso sarcástico. E algumas imagens me vêem a cabeça, como flashes velozes de uma lembrança que faz pensar, analisar, sorrir, questionar e me maravilhar com as possibilidades que o cinema realmente pode trazer para a vida de quem o tem como hábito e alimento cultural.

Entre as principais imagens, está a de um policial perseguindo uma andróide em uma cidade onde chove sem parar, retratando um futuro caótico e sem perspectivas de felicidade (“Blade Runner – O Caçador de Andróides”). Também vejo a história de um magnata (“Cidadão Kane”) que dedicou sua vida a comunicação, ser contada de forma sombria e recheada de pormenores. Ao fim dessa linha de lembranças ainda consigo ouvir as palavras de Orson Welles: Rosebud.

O Noir também me faz recordar de “Laura”, uma mulher inesquecível e linda que tem o mundo – na verdade homens das mais diversas categorias e idades – aos seus pés e que às vezes nem percebe seu encanto, mesmo quando está “morta”. Assim como me traz memórias de um certo policial correto, e extremista, que guarda um grande segredo - que é pequeno perto do que a sua própria esposa tem mantido em seu âmago - e que se depara com uma situação nunca imaginada, nem por ele, ou muito menos por você espectador (“Chagas de Fogo”).

E só de pensar em três grandes obras-primas desse estilo inconfundível de se fazer cinema, me entrego à escuridão da arte: “O Crepúsculo dos Deuses” “Um Corpo que Cai” e “A Relíquia Macabra – O Falcão Maltês”. Histórias bem dirigidas, com personagens magníficos, repletas de falas que ressoam em minha mente quando me recordo de diálogos marcantes e atores no auge de sua capacidade dramática em papeis únicos, que merecem não só uma simples homenagem de um amante do cinema como eu, mas o reconhecimento de todos os que deixam suas emoções transbordarem a cada cena passada em uma grande tela.


Fico feliz em ver que uma nova onda de filmes com notável inspiração Noir começa a tomar conta do mercado cinematográfico. São filmes dúbios. Com excelentes histórias. Investigativos e com fotografia marcante. Se você se interessar em fazer uma pequena lista para ter um prazer gigantesco em se embrenhar neste universo sujo, mal, repleto de mulheres tão estonteantes quanto perigosas, prepare a caneta rapazes – e moças também – e vá para a locadora mais próxima: “Seven – Os Sete Crimes Capitais”, “Los Angeles: a Cidade Proibida”, “Os Suspeitos”, “Vidas em Jogo”, “Mulholland Drive”, “Femme Fatale”, “Sin City – A Cidade do Pecado”, “Boa Noite e Boa Sorte” e “A Verdade Nua”. Ou espere pelo novo rebento do mestre Brian de Palma, “A Dália Negra” que estreou nos cinemas este ano.

Obs.: A primeira vez que tive algum contato com "O Falcão Maltês - A Relíquia Macabra" foi através de um pôster que vi atrás da mesa do escritório de Joaquim Marinho - ainda quando havia a sua rede de cinemas do Centro de Manaus. A curiosidade que aquela imagem teve sobre mim se refletiu com a minha ida a locadora mais próxima - que tinha o DVD .

!!Tupiniquim sim e com muito orgulho!! (by Rod Castro)

24 de mai de 2007



“Eu não vejo cinema nacional. Filme brasileiro é a mesma história: mulher pelada, povo preguiçoso e samba. Tirando isso, parece novela da ‘plin-plin’, ou aquelas bobagens com os Trapalhões e a Xuxa.”. Várias pessoas me falaram isso durante muito tempo. Quase todas tinham razão, sendo que, em minha opinião, há bons filmes dos Trapalhões – mas isso era quando se podia ouvir um “caçildis” vindo da boca do Mussum.

Mas faz certo tempo que o cinema nacional melhorou. São filmes mais próximos da realidade e com personificações até mesmo mais dignas do povo que somos e dos nossos costumes. Além disso: os profissionais envolvidos com a sétima arte em solo nacional são tão bons quanto os de fora.

Exemplos? Toda a equipe de Cidade de Deus hoje trabalha com medalhões do cinema: o roteirista, o diretor de fotografia, o editor e principalmente, o diretor geral da produção, Fernando Meireles – que hoje trabalha do jeito que quer e ainda pode contar com liberdade artística para realizar suas obras.

Além desses profissionais citados acima, há mais nomes, como o do diretor Walter Salles. Sim, ele tropeçou ao realizar a “versão americana” de Água Negra, mas foi apenas este erro. Além disso, Walter fez um dos filmes mais importantes para América Latina ao adaptar o clássico livro do jovem Ernesto ‘Che’ Guevara, no bom Diários de Motocicleta.

E mesmo no tropeço, dizem por aí que houve muita interferência do estúdio no trabalho final em Água Negra, Walter fez bonito: o filme foi uma das melhores estréias de um diretor sul americano no mercado cinematográfico dos Estados Unidos. Fato que ganha peso pelo filme ser uma regravação.

Talvez o grande mal do brasileiro sejam dois, quando o assunto é cinema nacional: novelas e o hábito de falar mal do que está em franco progresso. O primeiro é até compreensível pela força que tal “arte” tem na vida dos espectadores e por sua fórmula repetida ao infinito na TV.

Já o segundo chega a ser vergonhoso, pois quanto mais o cinema nacional crescer melhores trabalhos teremos a oferecer, desde mão de obra especializada até locais de gravação – as famosas locações. E com isso muita gente sai ganhando, começando com os artistas e chegando até o público.

Se você quer dar uma conferida em dois belos exemplares de bom cinema tupiniquim pode ir à locadora mais próxima da sua casa – se os filmes não estiverem lá, cobre! - e peça ao balconista os excelentes “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “O Céu de Suely”.

Ambos são importantes por retratarem o país de forma verdadeira, sem “maquiagem” e com diálogos realistas. Além disso, “Cinema” e o “Céu” estão dando vez ao imenso mundo que existe no Nordeste do nosso país: com seu povo único, de percepção apurada do que é e o que não é viver e sofrer.

Acredite: o cinema nacional ainda não está no mesmo nível que o da Argentina – principalmente pela palhaçada que o Collor fez quando estava no poder – e o do México (que começou a ser reconhecido de verdade em 2006 por três filmes realizados por diretores de lá: O Labirinto do Fauno, Filhos da Esperança e Babel).

Mas a sétima arte brasileira caminha a passos largos e rumo a um cinema de qualidade, com obras bem estruturadas e histórias inusitadas. “Espere e confie”, como falava o Didi dos velhos tempos.

!!A segunda vez a gente nunca esquece. Ou: a macacada reunida (por Rodrigo Castro)!!

18 de mai de 2007


Há tempos escrevi um artigo falando de “Under The Iron Sea”, o segundo disco (coisa de velho né? O correto seria CD, mas vai disco mesmo!) lançado pela boa banda britânica Keane. No texto citava vários exemplos de grupos que acabaram sendo destroçadas ou que até mesmo se destroçaram por realizarem um regular/péssimo segundo disco.

Essa “maldição” assola de 60 a 75% (segundo estudos do Data Foda-se Rodriguiano) das bandas que foram a maior sensação dos últimos segundos ao lançar seu primeiro rebento que necessita de um play para ser compreendido por seus ouvintes, ou seja: bandas novatas que acertaram a mão logo na sua estréia.

Poucas bandas de rock conseguem se livrar do “mais do mesmo” que permeia a vontade dos seus fãs de carteirinha (vale lembrar que em caso de banda nova, esse lance é esquisito, já que eles não deveriam ter tantos fãs assim, certo?), que buscam a cada faixa tocada resquícios de sons que lembrem as músicas que davam corpo a sua primeira investida sonora.

Mas como fazer para que tudo isso vá atrapalhar outra banda e não a sua? Acho que uma novata que chega a sua segunda tentativa de seqüestrar o mundo do rock para si, os ingleses do Arctic Monkeys, tem a resposta na ponta da língua: escreva letras baseadas nas histórias que estão presente no seu dia a dia, toque do jeito que você preferir e sem se preocupar com limpeza ou referencias e principalmente: faça o que lhe for dá cabeça, afinal de contas é uma banda de rock, ora bolas!

Assim, ao comprar ou ouvir “Favourite Worst Nightmare”, que saiu em CD há poucos dias no mundo e que chegou aos meus ouvidos há mais de um mês, você ira: se divertir, curtir, balançar a cabeça, se impressionar com a vontade de fazer música de qualidade sem se preocupar com o que já foi feito e terá, a cada música tocada mais motivos para ouvir este discão várias e várias vezes, sem direito a Stop.

Não busque novas “I Bet You Look Good on The Dancefloor” ou “Dancing Shoes”, essas músicas fazem parte de “Whatever People Say I am, That’s What I’m Not”, disco de estréia dos Macacos Árticos, e é lá que devem ficar. “Favourite Worst Nightmare” (O pior pesadelo favorito) é uma resposta e talvez até mesmo uma receita de como tirar expectativas de fãs e de como rebater artigos de cri-críticos, que adoram detonar qualquer coisa que lembre o que já foi feito, mas agora mais interessante do que no primeiro trabalho.

O que realmente impressiona nessa jovem banda: eles lançam seu segundo rebento quase um ano após ter surgido para o mundo, através da Internet, diga-se de passagem. Ou seja: aquele lance de banda que faz uma grande turnê após mandar seus discos para rádios e lojas e que quase um ano depois, quando deveria lançar mais canções para abastecer seus ouvintes, se encontra cansada ou até mesmo sem criatividade suficiente para um bom trabalho, é reduzido a uma palavra pelos macaquitos gelados: balela ou falta de vontade e criatividade.

Não cabe aqui falar de uma música ou duas. Todas as canções feitas para este segundo disco são boas, no mínimo. Sim, eles amadureceram, mas somente um ano, não duas décadas e acredite: esse fator é essencial para a qualidade demonstrada. E é impressionante que ao fim de cada canção você fica com uma grande vontade de dizer “Play It Again Sam”.

As perguntas que cabem mesmo são:

1 - Será que as outras bandas que lançam seus segundo discos vão ter desculpas para não terem evoluído ou terem realizado álbuns próximos do que se esperava? O que elas dirão?

2 – O Arctic conseguirá lançar um terceiro disco tão bom quanto este segundo? Será que a praga do segundo disco ganhará a alcunha de a maldição do “terceiro disco” e dezenas de historias interessantíssimas que compõem a mitologia do rock irão por água abaixo?
3 – A mais importante delas: você está preparado para ver o seu planeta ser dominado por Macacos Árticos inteligentes e primitivamente criativos? Tomara que sim! Pois este fato é mera questão de tempo e isso para eles pode significar somente um ano.


Confira o vídeo das viciantes Brianstorm (http://www.youtube.com/watch?v=30w8DyEJ__0) e Teddy Picker (http://www.youtube.com/watch?v=pObM9xAMa8g)

!!Para ficar na memória (por Rodrigo Castro)!!

16 de mai de 2007





“Seria preguiça? Talvez o costume? Ou, pior: a imposição de um formato?”

Essas são as perguntas que me vêem a cabeça quando me deparo com algumas pessoas chateadas, às vezes até mesmo furiosas, levantando-se de suas poltronas após assistir a mais um filme que termina sem explicar tim-tim por tim-tim o que realmente aconteceu – ali, diante dos seus olhos. Ou melhor: sem dizer quem ficou com quem, porque aquilo foi feito daquela maneira, ou até mesmo porque se optou por um fim que não tem um mero “The End”.

Já pensei nisso por várias horas e em boa parte das vezes, acabo formulando um raciocínio em cima da última opção listada no início desse texto. Talvez a maior culpada pela fórmula “começo-meio-e fim” seja a televisão, que durante anos bate a porta da imaginação de bilhões de telespectadores do mundo todo com histórias mais palpáveis e mais fáceis de serem digeridas.


Mas ao mesmo tempo em que formulo esse tipo de pensamento, acaba por passar na minha cabeça, que hoje boa parte das pessoas, sejam velhos, novos, ou de meia-idade, não tem mais o costume de exercitar sua imaginação e preferem sim algo mais leve e que não as faça pensar.

Uma das maiores provas dessa nova mania, que ganha força em filmes simples e que não necessitam da participação do público para que os mesmos se tornem mais agradáveis, é que, com o passar dos anos, as pessoas vêm lendo cada vez menos. Acredite: leitura e cinema têm muito a ver. São artes que recorrem aos seus pensamentos e que pedem, chegam até mesmo a clamar pela sua interpretação e vivência.

Uma das vezes em que me peguei em uma discussão sobre o lance de raciocinar e pedir algo mais das pessoas que presenciaram um filme diferente, foi quando a última parte da trilogia “The Matrix”, “Revolutions”, chegou às telas e várias e várias pessoas se questionavam: “Cadê o fim? Não se explica nada!”. Achava interessante esse tipo de acusação, por um simples fato: se você já assistiu aos dois filmes anteriores dessa trilogia, verá que nenhum deles tem um final concreto. Principalmente o primeiro, que deixa possibilidades e mais possibilidades de continuações em aberto e que não tem tantas amarras visíveis em sua continuação, o “Reloaded”.

Anos depois pegaria uma sessão de um filme em que boa parte das pessoas, antes mesmo do fim, já saíam revoltadas, enquanto eu e mais uns três ou quatro ficávamos embasbacados com tamanha inteligência do diretor e roteiristas: “21 gramas”. Após essa sessão e ao ver as reações dos demais espectadores, fiquei imaginando qual deve ter sido a reação do público ao assistir pela primeira vez filmes como “Cão Andaluz” ou “O Anjo Exterminador” – ambos de Luis Buñuel – “Pavor nos Bastidores”, “Psicose” ou “Quando Fala o Coração” – de Alfred Hitchcock.

Cinema, assim como as demais artes, como pintura, música, fotografia, teatro, quadrinhos, entre outras, tem como função principal chamar seu cérebro para um debate de idéias. Fazendo com que você mesmo tenha suas próprias conclusões e suas próprias formas de enxergar aquela realidade. Como diz o roteirista vencedor de três Oscar de roteiro original Charlie Kaufman: “Adoro a sensação de ver as pessoas resolvendo meus filmes em suas cabeças e com suas idéias!”.


Se você gosta de raciocinar no cinema, tome nota e dê o seu “fim” para cada um desses excelentes filmes: “Donnie Darko”,”Amores Brutos”, “Amnésia”, “Blade Runner”, “A Estrada Perdida”, “Cubo”, “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação” e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” – os últimos três de Kaufman.

!!Crise de meia-idade 3 (por Marco Antonio - o animal)!!

14 de mai de 2007

Continuando a saga que tenho enfrentado para aceitar que o tempo não para e queimando a língua sobre um comentário específico que fiz no primeiro texto, resolvi encarar o show de Caetano Veloso, da turnê que divulga o novo disco, Cê, realizado em Manaus, no dia cinco de maio.

Como já era de se esperar, o cheiro de mofo imperava no local, bem mais do que do show de Léo Jaime e cia. Afinal, trata-se de um artista que já fazia exame da próstata quando o Marcelo Nova nasceu. Cheguei bem no inicio e, numa rápida varredura pelo local, me senti no set de filmagem de algum filme de zumbi e até cheguei a procurar o Zé do Caixão pra ver se ele estava aproveitando as imagens para o seu próximo thriller. Não estava. A velharada era real mesmo. Bom, resolvi prestar atenção ao show mas com um certo medo de alguém morder minha cabeça querendo comer meu cérebro.

O novo disco até que é bom. Nada de violinos, violões, oboés e afins. A coisa é crua, bem simples, baixo, guitarra e bateria. A banda é jovem e o som está antenado com o que de melhor se faz no hype rock and roll atual. Algumas músicas são chatas mas a banda compensa.

Eu, pensando com os meus botões, fiquei observando o cara que um dia enfrentou um estádio cheio berrando que todos ali presentes não estavam entendendo absolutamente nada. Magrelinho como sempre, cabelos grisalhos, mas com a voz até que mais ou menos, Caetano desfilou o repertorio do CD novo mesclado com sucessos certeiros. A surpresa ficou mesmo para os arranjos. Por exemplo, apesar de não ser novidade, a levada blues para Como Dois e Dois foi extraordinária. Roberto Carlos imortalizou a canção em formato soul mas a banda Talkin Blues já havia tido a excelente idéia de regravar com roupagem blueseira. Mas Caetano superou as duas. Outra coisa legal foram as versões quase irreconhecíveis de Sampa e London London (que o mais novos lembraram por ter sido gravada pelo finado RPM). Nada de banquinho e violão. O baixo de Ricardo Gomes e a bateria de Marcelo Callado deram a tônica aos clássicos. O guitarrista Pedro Sá completava a banda que foi apresentada umas cinco vezes pelo sexagenário (talvez seja indicação de um inicio de mal de Alzheimer).

Outro ponto alto foi o resgate de duas obras-primas do melhor disco gravado pelo baiano em toda sua carreira. Trata-se de Transa (o disco, lançado em 1972) de onde foram desenterradas as geniais You Don’t Know Me e Nine Out Of Ten. Foi uma verdadeira volta às raízes e que, confesso, mareou os meus olhos e arrepiaram os mais escondidos pelinhos do meu corpo.

O público, é claro, não estava entendendo absolutamente nada. Álias, era um divertimento ‘a parte. Volta e meia se ouvia um grito rouco de “toca Leãozinho”, seguido de uma tosse seca, um ruído de queda e um corre-corre da equipe de socorro. Para melhor atender ao público idoso, havia umas 50 equipes do corpo de bombeiros espalhada pelo local, todas munidas com tubos de oxigênio e equipamento para ressussitacão.

Caetano, por sua vez, apesar de ser quase centenário, mostrou muita energia no palco. Correu uns dois metros, dançou três passos de um frevo, tocou na mão do pessoal do gargarejo e até mostrou a barriga (flácida) para horror dos presentes. Tive impressão que haviam umas cordinhas vindas do teto segurando o músico enquanto ele fazia movimentos mais ousados. Mas acho que foi só impressão.

No fim das contas, depois do segundo bis em que ele tocou a mesma musica que iniciou a apresentação (um roadie foi ao palco dizer que o show estava no fim e não início. Caetano fez uma cara de “ah é, é?” e foi conduzido aos bastidores) me senti jovem de novo. No meio de tanto formol e botox, me vi como um garoto novamente. Só fiquei um pouco preocupado de quase ter causado um infarto num velhinho na minha frente quando, após a vibrante e pesada Rocks, eu berrei um ROCK AND ROLL a lá Ozzy. Só deu tempo de ele dizer um “ai jesus” e cair.

Enquanto a equipe dos bombeiros abria caminho para acudir o coitado, eu fugia para o bar que, além de cerveja e água, contava com serviço extra de distribuição de mingau de aveia para os mais fracos. Cheguei à conclusão que um show deste é uma ótima terapia para os paranóicos que, como eu, têm medo de chegar à idade de voltar a usar fraudas. Afinal, estou na flor da idade, cheio de vitalidade. E, como dizia minha saudosa avó, que morreu aos 98: “velho é o mundo, ora pois” (e o Caetano também, vovó).

!!Guts (por Chuck Palahniuk)!!

9 de mai de 2007


Toda vez que me perguntam qual é o melhor escritor da atualidade só consigo lembrar de um cara: Chuck Palahniuk. Nunca ouviu falar? Sério? Pois o dito cujo é pai de um dos personagens mais queridos dos cinéfilos modernosos, meu preferido também: Tyler Durden, do Clube da Luta.


Isso mesmo cinemaníaco: Tyler não é uma invenção do mesmo diretor de Seven. Foi imaginado e contextualizado por esse mestre das palavras. Para você ter noção da capacidade deste monstro (já foram lançados cinco livros dele no Brasil: "Clube da Luta", "O Sobrevivente", "Cantiga de Ninar", "Choke" e "O Diário" - todos estão em minha estante), público um conto produzido especialmente para a Playboy americana: Guts.


Aviso importante: os textos de Chuck são fortes - para você ter uma idéia, o final do filme não chega aos pés do livro de "O Clube da Luta" - então se prepare para o soco no estômago e para a falta de ar. Segue o texto abaixo! Boa imaginação para vocês.


GUTS (de Chuck Palahniuk)


Inspire.Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.


Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre "fio-terra". Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.


Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.


Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.


Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.


As pessoas na França possuem uma expressão: "sagacidade de escadas." Em francês: esprit de l'escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa....


Enquanto você desce as escadas, então - mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.Esse é o espírito da escada.O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.


Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer... melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.


Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.


Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.


Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.


Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.


Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.


O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.


Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.


Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.


O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.


Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.


O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d'água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.


Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.


Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nas quais você não se preocupa que te pegam.A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.


Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.


Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.Faço isso de novo, e de novo.Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba.


Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.


E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.


As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.


As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás... mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.


Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.


Então... eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cú. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.


Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.


Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.


Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.


O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.


Deus proíba que meus pais vejam meu pau.Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.


Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d'água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.Você então vê contra o que eu lutava.Se eu largo, sai tudo.Se eu nado para a superfície, sai tudo.Se eu não nadar, me afogo.É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.


O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na água turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.


Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.Algo sobre o qual nem os franceses falam.


Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos "Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça...," os russos dizem, "Preciso disso como preciso de dentes no meu cú......Mne eto nado kak zuby v zadnitse.


Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.Droga... mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.


Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.


É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, "Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque." E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim....Precisava disso como precisaria de dentes no cú.


Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.


Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.


Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, "Aquela porra daquele cachorro era maluco."


Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, "Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo...."E então a menstruação da minha irmã atrasou.Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.Nunca.Essa é a nossa cenoura invisível.


Você. Agora você pode respirar.Eu ainda não.

!!A Capa do novo disco do Interpol!!


Eis a capa de "Our Love To Admire" (que nem o google tem). Me parece ser uma foto de algum daqueles ambientes feitos para retratar alguma ação que os museus americanos sempre possuem.

Disco do Interpol já tem o primeiro single!!

http://www.youtube.com/watch?v=I2YRmRVXvDQ

Acesse este endereço aí em cima e confira, em uma apresentação ao vivo, a mais nova música do terceiro disco dos nova iorquinos do Interpol, que sempre mandam muito bem. O sucessor do excelente Antics (segundo disco), sai em junho ou julho e se chama Our Love To Admire e este primeiro single tem o curioso nome de The Heinrich Maneuver.

Parece que o disco mais esperado do ano, para este escriba, realmente será o desse quinteto que lembra o Joy Division, mas que as vezes soa um pouco melhor (pode xingar porque de Joy eu entendo).

!!Cara ou coroa? (por Rodrigo Castro)!!



Quantas vezes você, como bom apreciador de música que o é, se deparou com uma dessas duas situações aí debaixo?

Situação 1: alguém do seu trabalho ou um amigo de gosto que merece o seu respeito, chega ao seu lado, com CD em punho e diz que aquela banda (“a mais nova onda do momento”) é o som mais original em décadas e que você tem de ouvir aquilo com atenção?

Situação 2: outro colega de trampo ou amigo, que manja muito – do tipo que conhece tudo sobre o “alternativo que não chega às rádios, mas que possui canções clássicas no seu repertório”- fala, ao ouvir o outro que trouxe a novidade do dia: bom mesmo é a jurássica fulana de tal, que além de influenciar muita gente, já fazia o inusitado há anos “e bem melhor que esta merda aí!” apontando para o CD do colega que trouxe o novo?

Pois bem, já presenciei as duas cenas e até mesmo atuei, nas duas posições em muitas outras. E penso que esses dois pensamentos têm algo que os unem: aquele canto da moeda que acho que não tem nome e que junta as duas faces, sabe? Pois então, aquele “canto” é o lado mais correto da questão. Ou seja: nem tanto ao museu, nem tanto a mais nova onda. Mas sim: um pouco de cada na mesma canção.

E duas excelentes bandas, em seus novos CDs, provam que misturar o moderno com o antigo dá um gosto especial a um bom disco.

A primeira delas tem nome interessante: LCD Soundsystem – dona da música mais grudenta dos últimos cinco anos, “Daft Punk Is Playing in My House”. A segunda passou despercebido pelos meus grandes suportes de óculos, em seus dois primeiros álbuns, mas virou um eterno repeat em minhas listas de execução: The Rapture.

Em comum: são americanas, se renderam ao som mais dançante, possuem uma marcação de baixo importantíssima para o ritmo de suas canções e seus discos estão repletos de referencias. Todos esses ingredientes adicionados, uns após os outros, resultam em: pé inchado (de tanto bater no chão, marcando o ritmo) e cegueira (graças a espuma do xampu que teima em cair nos seus olhos a cada balançada de cabeça embaixo do chuveiro) por parte de seus ouvintes.

Mas as proximidades artísticas param por aí. Pois o Rapture é rock, com classe e muito ritmo. E o LCD Soundsystem atira para tanto lado com seu “Sound of Silver” que fica difícil dizer a que segmento eles pertencem.

Em “Pieces Of The People We Love”, o Rapture passa por tantos estilos diferentes, em seus mínimos detalhes e consegue sair ilesa, de tal maneira, que merece mais que aplausos ou estrelas. Digo mais: nenhuma banda, até o momento, fez uma primeira faixa tão boa quanto eles em 2007, com a incessante e viciante “Don Gon Do It”.

Tem de tudo na mistureba pop que eles fizeram: Duran Duran (“Get Myself Into It”), Blur mais dançante (“Whoo! Alright – Yeah Uhuu”) e Talking Heads (como a contagiante “Pieces Of The People We Love”). Na verdade, o disco parece um bonito vestido feito de retalhos sonoros, costurado com precisão por notas diferentes.

E o LCD? Bem, em 9 faixas jogam seus ouvidos em um turbilhão de informações tão maluco, que é necessário ouvir duas ou três vezes o CD para sentir onde eles foram buscar a “fórmula” para cada canção. Tem de tudo: Moby com Michael Jackson e pitadas de Prince (na simples e eficiente “Time To Get Away”), New Order em início de carreira (“Get Innocuous”), Daft Punk tocado como Chemical Brothers (“North American Scun”) e homenagem, pelo menos é o que parece, ao Kraftwerk (“Someone Great”).

Enfim, para não entrar em uma discussão que não tem fim, siga este conselho: ouça o novo e busque o antigo nele; ouça o antigo e sinta sua influência em vários novos. Ou, caso queira ficar no extremo e ao mesmo tempo queira experimentar: pegue uma moeda do gosto musical, jogue-a para cima e torça pra que ela caia naquele cantinho que une as duas partes (que até agora não sei qual o seu nome) e boa viagem.

!!O Maldito de hoje pode ser o gênio de amanhã!" (por Rodrigo Castro)

4 de mai de 2007

A vida é engraçada: todos os dias verdadeiras instituições e paradigmas imutáveis caem e com o passar dos anos outros fatos incontestáveis serão criados para ocupar o lugar dos que se foram. No cinema a coisa não é tão diferente do que se pensa, aliás, há dois casos emblemáticos e atuais de como isso acontece.

O primeiro filme “que deu certo por mãos erradas” é a maior trilogia que a sétima arte já testemunhou - tanto por seu apuro técnico quanto por sua arrecadação final, que beira um bilhão e meio de dólares: “O Senhor dos Anéis”.

A série de livros do autor J. R. Tolkien, chegou a ganhar um selo de “infilmável” por parte dos engravatados dos estúdios. E olha que grandes nomes tentaram tornar o sonho de milhões de fãs em realidade, como a dupla Steven Spielberg e George Lucas (a mesma de “Indiana Jones”) no início dos anos oitenta e até mesmo os quatro fabulosos de Liverpol, os Beatles – durante os anos setenta. E no que deu? Em nada.

Foi preciso que um diretor neozelandês de filmes B e de alguns dramas interessantes formasse uma boa equipe e dedicasse quase uma década inteira de labuta ao mundo de Frodo e seus parceiros de Condado para que a terra mágica imaginada por Tolkien se tornasse real. O resultado agradou tanto especialistas na obra quanto fãs radicais.

Mas o desafio era enorme e Peter Jackson, o tal diretor, enfrentou-o com devoção e amor. “A Sociedade do anel”, “As duas torres” e “O retorno do rei” somados, renderam quase vinte Oscars ao barbudo e equipe. Resultado: hoje Jackson tem carta branca para rodar o que quiser e sem muitos questionamentos por parte dos estúdios.

Outro exemplo para consolidar o que foi falado no primeiro parágrafo? Rápido e rasteiro: quando se poderia imaginar, há dez anos, que este ano chegaria às telas dos cinemas a terceira aventura de um dos maiores heróis de todos os tempos e que com certeza o filme seria um sucesso esmagador, detonando, dia após dia de exibição, recordes nunca antes ultrapassados?

Pois no próximo amanhã tudo isso e até mais, se tornará realidade com a estréia de “Homem Aranha 3”. Não, o filme não é uma trilogia - moda desgraçada que cerca 10 entre 10 filmes que dão certo e que clamam por uma continuação – mas é sim: a terceira parte de dezenas de filmes que terão o cabeça de teia como protagonista.

Mas a escalada de Peter Parker rumo ao topo das bilheterias não foi moleza, pelo contrário: a Marvel passou quase quinze anos vivendo de possibilidades e neste período viu dezenas de astros, diretores e estúdios terem a solução certa para uma possível série de filmes com o seu herói mais popular. Ou melhor: eles achavam que tinham a solução, mas não tinham e a coisa não andava.

Nem mesmo quando o nome do diretor do maior sucesso de bilheterias de todos os tempos ao lado de sua maior estrela, James Cameron e Leonardo DiCaprio (dupla de “Titanic”), tiveram seus nomes relacionados ao projeto “Homem Aranha” a idéia não se tornou película. Mais uma vez, uma cria “maldita” do cinema mundial pôs sua visão a favor da mitologia Nerd e “Homem Aranha” ganhou vida.

Seu nome: Sam Raimi, um diretor que fez dos filmes de terror (como a série “A morte do Demônio”) um local agradável – até engraçado – para se por os olhos e desprender a emoção. Com muito esmero, criatividade em alta e respeito tanto à mitologia do personagem quanto a opinião dos fãs, Raimi ganhou a confiança dos engravatados e hoje um homem de fantasia vermelha e azul se balança de um prédio para o outro, de forma incrível e crível, na imensa Nova Iorque.

Que outros “malditos” se tornem “queridos”. E que muitos queridos refaçam seus pensamentos.
Nós, cinéfilos/Nerds, e penso eu que até mesmo os engravatados, agradecemos.

Em tempo: faz alguns meses que o estúdio New Line – o mesmo responsável pela trilogia do Senhor dos Anéis – anunciou que Sam Raimi deve ser o substituto de Peter Jackson na direção de mais um filme inspirado na obra de J.R. Tolkien: “O Hobbit” – livro que conta as aventuras de Bilbo Bolseiro (tio de Frodo) e precede toda a trilogia que já virou filme.

!!Romance em "split-screen" (por Breno Yared)!!

3 de mai de 2007

Em meu último texto aqui no blog, comentei acerca da origem do "smuggler" ou "contrabandista" no cinema americano da década de 40. E como, atualmente, muitos migraram para as séries de TV, como “A Família Soprano”, “Prime Suspect” e “The Wire”. Mas, recentemente, tive uma grata surpresa ao descobrir um autêntico desta linhagem dirigindo filmes publicitários. Mais precisamente: um "anônimo".

"Anônimo" porque pesquisei e não consegui descobrir quem dirigiu o tal filme - isso é até normal, pois, diferentemente do cinema, o diretor não "assina" seu nome nos créditos. Na propaganda, são raros os diretores que têm estilos inconfundíveis, fáceis de serem percebidos em apenas alguns segundos, como, por exemplo, Michel Gondry (mesmo diretor de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças") e David Lynch (mesmo diretor de "Veludo Azul" e outros). Porém, este "anônimo", tem um estilo agressivamente autoral. Desnecessário até para um filme publicitário que precisa, principalmente, falar a linguagem do seu público-alvo.

Fui apresentado ao vídeo por um amigo, Ronaldo Passarinho, que o descobriu, por acaso, no youtube. Fizemos uma análise quadro a quadro dele. Só então, garimpamos as pérolas que estão escondidas de forma tão sutil. Em relação às informações: propaganda de 1 minuto, feita para "Grolsch Beer", marca de cerveja, e estrelada por Kerry Norton com trilha sonora dela própria do seu álbum "Young Heart". Mas antes de qualquer outro comentário, dá um play no vídeo aqui em baixo e depois volte a ler o texto, ok?

http://www.youtube.com/watch?v=dxjxeB-uowI (N.E.: Não deu para postar o vídeo, por isso, entre no youtube, espere carregar e divirta-se!)

Então, gostou? Sacou, logo de cara a proposta dele? Não? Bom, eu pelo menos quando assisti de primeira não saquei. É uma história de amor. Um triângulo amoroso. Um "Jules e Jim", de François Truffaut, moderno. Um romance em "Split Screen". Tudo em apenas 1 minuto. Exagero? Podes ter certeza que não. Até progressão dramática das personagens e mise-en-scène o vídeo tem. E a forma como o diretor usa a tela dividida, o "split screen", de forma tão criativa, econômica e concisa.

As personagens que formam o triângulo são: a Kerry Norton, o de casaco e camisa preta e o de paletó preto e camisa rosa por dentro – os dois últimos, infelizmente, terei que chamá-los assim, pois não consegui a ficha técnica da produção. Basicamente, o enredo é o seguinte: a Kerry chega acompanhada do de camisa rosa que estão acompanhados do de casaco preto, que é apaixonado pela Kerry, para assistir uma peça de teatro.

Porém, a peça já começou e são impedidos de entrar. Então, caminhando pela rua, acabam entrando num bar. No bar, o de camisa rosa só tem olhos para a loira sentada, flerta com ela, mesmo estando acompanhado da Kerry. O de casaco preto só tem olhos pra Kerry, com quem, no final do vídeo, finalmente terá sua chance. Pronto: temos um enredo de comédia romântica.

São tantas as nuances, rigor e sutilezas na composição dos planos e da progressão do enredo, que daria para descrever a importância de cada plano contido nele. Nada é gratuito. Tudo é criativo, econômico e conciso. Quando eles estão no bar, preste atenção como o de camisa rosa só tem olhos para a loira.

À primeira vista, parece que ele só olha pra Kerry, mas não: com um estilo descontinuo, falsos raccords – que lembra muito o que Michael Mann faz o tempo todo em “Miami Vice” – e o uso do “split screen” o diretor “engana” o espectador com a ilusão de que ele olha pra Kerry. Acreditem: é intencional. Exemplo: olhem nos exatos 51 segundos de vídeo, à esquerda do quadro, o de camisa rosa olha para fora do quadro em direção à loira.

Outra seqüência sublime: é quando o de casaco preto, saindo do carro, corre em direção ao teatro, mas é avisado pelo segurança que não podem mais entrar. Com um duplo plano de localização ele apenas mostra o interior do teatro através do “split Screen”: à direita do quadro vemos uma panorâmica em plano geral e à esquerda do quadro, num traveling, a orquestra que toca. Tudo tão econômico que me lembra o cinema de Samuel Fuller.

Acredito que a proposta de posicionamento dessa marca de cerveja, a “Grolsch Beer”, seja muito diferenciada do que estamos acostumados aqui no Brasil. Propõem-se trabalhar outro tipo de público-alvo, outro tipo de conceito - lembra um pouco a proposta da última campanha da Kaiser aqui no Brasil, que é mais voltada ao cotidiano e às relações humanas.

O “anônimo” que dirigiu esse vídeo - igual ao “smugglers” atuais e da década de 40 - ousou dirigi-lo com ambições artísticas. Ousou contar uma comédia romântica em 1 minuto, que talvez o seu público-alvo nem perceba tais nuances. E num veículo pouco aberto ao estilo autoral de um diretor, como a propaganda. Já sou fã dele. Esperarei ansioso pelos seus próximos trabalhos. E espero descobrir logo quem ele é.

!!Nando Reis e Os Infernais em Manaus... ou: Eu não tenho mais a cara que eu tinha. (por Rodrigo Castro)!!

2 de mai de 2007


Se alguém me fizesse a seguinte pergunta: “Qual o seu instrumento favorito, dentre todos que formam uma banda de rock?”. Minha resposta seria única e precisa, sem titubeios: baixo.

“Por que?”. Simples: a pegada, seu entrosamento com a bateria, sua sonoridade precisa e grave... Enfim: todos esses elementos resultam em um instrumento sonoro especial e que com o passar dos anos, acabou por deter maior atenção dos meus ouvidos.

Minha fixação pelo baixo se fez presente ao ouvir, pela primeira vez, o álbum “Cabeça Dinossauro” dos Titãs. Estava eu passando férias em São Paulo, então com meus oito anos de idade, quando um amigo de dois primos meus traz em mãos o tão falado, mas nunca visto, disco da banda de rock paulistana.

Foi ali que eu soube da existência do baixo, e mais: naquele momento encontrei um dos melhores compositores de rock nacional em que pude por minha sincera admiração de “garoto roqueiro”, o que eu já era há mais de três anos – praticamente um veterano, não?

O tal cara se chamava Nando Reis. Franzino. Dono de uma voz aguda, às vezes até frágil, ele quase não era notado em cena, mas suas letras, em minha opinião, sempre foram as mais contestadoras e até mesmo desafiantes, dentre todas gravadas pelos oito membros que formavam esta grande banda de rock nacional.

Pois bem, vinte anos se passaram. Os Titãs estão reduzidos a cinco membros e sinceramente: a cada música feita ou disco lançado por eles, me parece que mais um prego é fixado no caixão que possui o nome cravado da banda, que ruma com empenho, ao destino de várias outras que foram “boas um dia” e hoje tocam na Jovempan de meia em meia hora – sim, isso é um demérito para uma verdadeira banda de rock.

Enquanto isso, o quase careca – eu também estou ficando - Nando Reis caminha por cursos que talvez ele sempre desejasse, mas a vontade de vender fazendo algo de qualidade inferior, que permeia a realidade de sua ex-banda desde o sensacional Titanomaquia, o impedia de concretizar.

Melhor ainda: o mirrado baixista ruivo dá longos passos a uma realidade, o futuro já se tornou presente no caso dele, que muitos de sua época desejavam, mas não tiveram capacidade artística de provar: o mais puro reconhecimento de público e crítica.

E o show? Foi bom, principalmente por ter poucas pessoas – acho que não chegava a mil espectadores no salão – o que deixava você a vontade, ao ponto de se sentar em qualquer lugar e conseguir ver o palco com a maior tranqüilidade. Outro fator interessante: Nando mostrou mais o seu lado compositor do que o de artista solo.

Em quase duas horas de show, ele cobriu quase todas as suas “fases”, demonstrando sua capacidade de compor para bandas pop – como Jota Quest e Skank – para artistas que não eram nada, mas que ganharam brilho sob sua tutela – como a chata da Cássia Eller – e chegando a relembrar velhos sucessos dos Titãs – com direito a “homenagem” ao grande Arnaldo Antunes (outro que abandonou a banda quando viu que o barco estava afundando) com “Não vou me adaptar”.

Enfim, bom show, nenhum incidente, boas músicas e um Nando Reis bem acompanhado – os tais Infernais são excelentes e por vezes até meio malucos, no bom sentido.

Ah, antes do show, uma grata surpresa: um grupo de percussão “alternativo”, Som Catado, dá um verdadeiro espetáculo no palco do Studio 5, com direito a execução do clássico de Jair Rodrigues “Deixe isso pra lá” ao lado dos seus alunos – que participaram de um workshop local.